End of Abyss | Review

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Existem jogos que demoram algumas horas para mostrar exatamente o que querem ser. Outros deixam isso claro praticamente de imediato. End of Abyss faz parte do segundo grupo. Desenvolvido pela Section 9 Interactive e publicado pela Epic Games Publishing, o game aposta em uma mistura de ação, exploração e ficção científica, colocando Cel em uma enorme instalação tomada por criaturas que definitivamente não deveriam estar ali.

A proposta funciona. Existe algo interessante em caminhar por corredores abandonados sem saber exatamente o que aconteceu naquele lugar, procurar novas passagens e perceber que determinadas áreas ainda escondem coisas que você simplesmente não consegue alcançar naquele momento. Ao mesmo tempo, End of Abyss exige certa disposição de quem está jogando. Não apenas por conta de sua dificuldade, mas também pela maneira como constrói seu ritmo. Quer saber o motivo? Vem comigo em mais uma review antecipada do Pizza Fria!

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Uma instalação que sabe criar atmosfera

Uma das primeiras coisas que chama atenção em End of Abyss é sua apresentação. Cel é vista por uma câmera distante, geralmente posicionada acima e ao lado da personagem, criando uma perspectiva que ajuda a destacar o tamanho dos ambientes. Em alguns momentos, principalmente pela composição das cenas e pela sensação de pequenez diante dos cenários, é difícil não lembrar um pouco de Little Nightmares.

As propostas são diferentes, claro, mas existe uma preocupação semelhante em utilizar o ambiente para transmitir desconforto. Corredores estreitos, elevadores apertados, grandes salas industriais, máquinas abandonadas e estruturas que parecem muito maiores do que Cel ajudam a vender a sensação de isolamento. Mesmo quando nada está acontecendo, existe aquela impressão constante de que alguma coisa pode aparecer alguns metros adiante.

Outro detalhe curioso são as vozes. Os personagens falam em um idioma que não consegui identificar. Não dá para afirmar simplesmente ouvindo se estamos diante de uma língua criada especificamente para o game ou de alguma escolha estilística diferente, mas o resultado certamente contribui para a estranheza daquele universo. Felizmente, End of Abyss conta com legendas em português do Brasil.

End of Abyss
A ambientação de End of Abyss chama atenção (Imagem: Divulgação)

O que me incomodou um pouco foi a ausência de um botão para avanço automático nos diálogos. Em determinados momentos, o personagem termina uma fala e é necessário apertar um botão para continuar a conversa. Parece um detalhe pequeno, mas tira um pouco da fluidez de cenas que poderiam funcionar de maneira mais cinematográfica.

O áudio também merece destaque, embora por um motivo bastante particular. End of Abyss é um título extremamente silencioso. A trilha sonora aparece de maneira muito discreta e boa parte da exploração é acompanhada principalmente pelos ruídos do próprio ambiente. Passos, portas e sons distantes são utilizados para construir aquela sensação de abandono.

Funciona muito bem para a atmosfera. O problema é que também cansa. Não vou mentir para vocês. Depois de um dia inteiro trabalhando, existem momentos em que caminhar lentamente por aqueles corredores praticamente silenciosos começa a dar sono.

Não considero necessariamente uma decisão ruim. Claramente existe intenção por trás desse silêncio. É parte da identidade de End of Abyss e ajuda a criar tensão justamente porque o jogo não precisa colocar alguma coisa acontecendo o tempo inteiro. Mas é uma experiência que pede disposição para entrar naquele ritmo.

Explorar, voltar e procurar mais um caminho

End of Abyss possui características claras de metroidvania. Não no sentido de simplesmente copiar uma estrutura conhecida, mas na maneira como utiliza o próprio cenário. Existem caminhos bloqueados, portas que ainda não podem ser abertas, áreas que pedem equipamentos específicos e lugares pelos quais você provavelmente passará novamente depois de encontrar uma nova ferramenta. A exploração acaba sendo uma das partes mais interessantes do jogo.

Existem fragmentos espalhados pelos cenários, caixas que podem ser destruídas, materiais para melhorias e pequenos desvios que frequentemente recompensam quem decide investigar um pouco mais. O scanner também participa bastante desse processo, ajudando a identificar determinados elementos do ambiente e dando ao jogador motivos para prestar atenção nas salas em vez de simplesmente correr em direção ao próximo objetivo.

Há ainda bancadas de trabalho, utilizadas tanto para fabricar itens quanto para aprimorar equipamentos. Os fragmentos encontrados durante a exploração funcionam como um dos principais recursos desse sistema. Eles podem ser usados para criar munição e consumíveis.

End of Abyss
Os primeiros inimigos de End of Abyss (Imagem: Divulgação)

Já as cápsulas de restauração funcionam praticamente como aquela cápsula de recuperação da nave de Namekusei em Dragon Ball Z. Você entra, recupera sua condição e respira por alguns segundos antes de voltar para os corredores. Esses pontos também acabam funcionando como uma pequena zona de segurança dentro de um game que dificilmente deixa o jogador completamente confortável por muito tempo.

Também existe uma boa relação entre exploração e preparação. Quanto mais você procura, maiores são as chances de encontrar recursos que podem facilitar os próximos confrontos. Isso importa porque o combate não demora muito para começar a cobrar.

O combate cobra mais do que inicialmente parece

Nos primeiros confrontos, End of Abyss passa uma impressão relativamente simples. Cel possui uma arma básica com munição infinita. Ela precisa ser recarregada, claro, mas você nunca fica completamente impossibilitado de atacar porque gastou todos os seus recursos. Além disso, existe uma faca para situações de curta distância e, conforme novas possibilidades aparecem, o gerenciamento de munição começa a ganhar bastante importância.

Outras armas dependem de munição fabricada nas bancadas. E existe um detalhe importante nisso. Gastou, acabou. Se você criou munição, entrou em uma luta, utilizou aqueles recursos e morreu, não espere simplesmente voltar ao ponto anterior com tudo restaurado.

A cápsula recupera sua vida, mas a munição utilizada continua utilizada. Os fragmentos gastos para fabricá-la também não aparecem magicamente de volta. Isso significa que morrer repetidamente pode fazer uma tentativa seguinte começar em condições piores do que a anterior.

É uma decisão interessante porque reforça a necessidade de preparação, mas também aumenta bastante a pressão de algumas batalhas. E foi justamente nesses momentos que percebi um dos principais problemas que tenho com a progressão de dificuldade de End of Abyss.

End of Abyss
Inimigos gigantes são difíceis de derrotar (Imagem: Divulgação)

Ela não parece especialmente gradual. Durante boa parte da exploração, você enfrenta poucos inimigos simultaneamente. Normalmente existe espaço para entender seus movimentos, recuar e controlar o combate. Então aparecem batalhas que mudam completamente essa lógica.

Os chefes, por exemplo, trazem um grau de dificuldade alto. Logo no primeiro (!), por exemplo, cheguei a contar 11 inimigos menores me perseguindo ao mesmo tempo enquanto o chefe continuava atacando. Tudo isso dentro de uma arena relativamente pequena.

Com isso, minha estratégia foi correr em círculos, rolar e tentar encontrar alguns segundos para atacar, torcendo para não ficar cercado. Demorei cinco tentativas para passar. Não acho cinco tentativas um número absurdo. Longe disso. O problema está mais na diferença entre o que vinha sendo exigido antes e o que aquela batalha passa a exigir de repente.

Até então, os confrontos tinham apresentado uma escala muito menor. Quando o título decide aumentar a pressão, ele aumenta de verdade. A rolagem passa a ser fundamental nessas situações.

Também existe um botão para correr, algo que agradeço bastante porque a velocidade normal de movimentação de Cel pode parecer um pouco lenta quando você precisa atravessar áreas maiores ou criar distância rapidamente durante um combate. Quando o sistema funciona, existe uma sensação boa de aprender o comportamento dos inimigos, entender quando atacar e encontrar espaço para fugir. Só que End of Abyss definitivamente não parece interessado em facilitar muito esse processo.

Dificuldade deveria ser uma escolha

End of Abyss não possui seleção de dificuldade. Para alguns jogadores, isso provavelmente não será problema algum. Existe toda uma discussão sobre jogos que foram construídos ao redor de determinado nível de desafio e sobre como superar essa dificuldade faz parte da experiência desejada pelos desenvolvedores.

Eu compreendo isso. Só continuo defendendo que opções são melhores. Gosto de metroidvanias, mas normalmente tenho uma preferência pelos exemplares mais acessíveis do gênero. Wonder Boy, Monster Boy e Prince of Persia: The Lost Crown são alguns exemplos de jogos que funcionam muito bem para mim. Também já insisti em jogos muito mais difíceis durante dezenas de horas, casos de Hollow Knight e Aeterna Noctis.

Então não é simplesmente uma questão de não gostar de dificuldade. A questão é poder escolher, crítica que tenho feito à diferentes jogos.

End of Abyss
Só há um caminho pela frente (Imagem: Divulgação)

Se alguém quiser jogar End of Abyss exatamente com a dificuldade planejada pelos desenvolvedores, ótimo. Essa opção continuaria existindo. Mas também poderia existir uma configuração destinada a quem está mais interessado na história, na exploração ou simplesmente não possui a mesma habilidade no combate. Uma coisa não precisa eliminar a outra.

Essa ausência fica ainda mais evidente quando olhamos para as opções disponíveis. Na versão que testei, não encontrei um menu dedicado à acessibilidade. Existem configurações tradicionais de controles, áudio e vídeo, mas faltam recursos que permitam adaptar de maneira mais profunda a experiência.

A localização para português do Brasil obviamente merece elogios e já torna o game acessível para muito mais pessoas no nosso mercado. Mas acessibilidade vai além de entender o que está escrito na tela. Existe espaço para permitir que diferentes jogadores consigam adaptar a experiência às suas próprias necessidades. É algo que eu gostaria de ver sendo considerado pela Section 9 Interactive no futuro.

Visualmente bonito, mas ainda pesado no PC

End of Abyss oferece diferentes configurações gráficas no PC. Durante meus testes, utilizei inicialmente o preset Cinemática, que representa a configuração mais alta disponível. E o resultado ficou abaixo dos 60 fps mesmo em situações extremamente tranquilas.

Estou falando literalmente de caminhar pelo cenário, sem vários inimigos na tela e sem nenhum grande efeito acontecendo. Reduzir algumas configurações ajuda, mas ainda chama atenção que o desempenho não seja completamente estável.

Existe uma pequena vantagem aqui por causa do próprio estilo de End of Abyss. Como estamos falando de uma câmera distante, com visão superior e lateral, essas quedas incomodam bem menos do que incomodariam em um jogo de ação em primeira pessoa ou com câmera posicionada diretamente atrás do personagem.

End of Abyss
Mas a solidão e o silêncio podem incomodar alguns jogadores (Imagem: Divulgação)

Não significa que o desempenho deixe de ser um problema. Apenas significa que seu impacto sobre a jogabilidade acaba sendo um pouco menor. Visualmente, porém, o título entrega bastante personalidade.

Os ambientes podem parecer semelhantes em determinados momentos, principalmente pela quantidade de corredores, salas industriais e estruturas tecnológicas, mas existe uma boa direção artística segurando a experiência.

O desenho das criaturas também combina muito bem com a proposta. Alguns inimigos parecem versões completamente deformadas de seres que um dia poderiam ter sido reconhecíveis, enquanto outros já possuem formas muito mais difíceis de identificar. Aranhas gigantes? Temos. Ratos? Também. É o tipo de universo em que você constantemente olha para alguma coisa e pensa que talvez seja melhor não descobrir exatamente o que aconteceu ali.

Vale a pena jogar End of Abyss?

End of Abyss possui uma identidade bastante clara. A exploração funciona, a ambientação é interessante e existe uma sensação genuína de curiosidade ao entrar em uma nova área e tentar descobrir o que aconteceu naquela instalação.

A estrutura de progressão também oferece bons motivos para investigar caminhos alternativos, procurar recursos e retornar para locais que anteriormente pareciam inacessíveis.

O combate é competente e possui boas ideias, principalmente quando gerenciamento de recursos e movimentação começam a ganhar mais importância. Ao mesmo tempo, ele poderia apresentar melhor sua escalada de dificuldade.

Alguns confrontos representam um salto considerável em relação ao que vinha sendo pedido anteriormente, e a ausência de opções de dificuldade significa que todo jogador precisa enfrentar exatamente a mesma barreira. Também senti falta de recursos mais amplos de acessibilidade.

No PC, o desempenho com as configurações máximas também merece atenção, embora a perspectiva utilizada pelo game reduza um pouco o impacto das quedas de quadros durante a exploração.

O ponto mais curioso talvez seja justamente seu ritmo. O mesmo silêncio que ajuda End of Abyss a criar uma excelente sensação de isolamento também pode transformar longos períodos de exploração em uma experiência cansativa. Ele quer que você se sinta sozinho naquele lugar. Consegue. Talvez até demais.

End of Abyss é um jogo interessante, com uma boa ideia central e personalidade suficiente para encontrar seu público, principalmente entre jogadores que gostam de exploração, gerenciamento de recursos e experiências que não possuem medo de impor algum desafio. Só não recomendo começar uma sessão depois daquele almoço pesado em dia de trabalho. O abismo não tem qualquer consideração pelo trabalhador CLT.

End of Abyss chega nesta quinta-feira, 1º de outubro, para PC, via Epic Games Store, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela Epic Games Publishing.

End of Abyss

BRL 103,90
6.6

HIstória

7.0/10

Gameplay

7.0/10

Gráficos e Sons

7.0/10

Extras

5.5/10

Prós

  • Atmosfera de isolamento bem construída
  • Exploração interessante, com elementos de metroidvania
  • Direção artística e design das criaturas
  • Sistema de crafting e gerenciamento de recursos
  • Localização em português do Brasil

Contras

  • Saltos bruscos de dificuldade nos confrontos
  • Ausência de seleção de dificuldade
  • Recursos de acessibilidade bastante limitados
  • Desempenho abaixo do esperado nas configurações máximas
  • - Silêncio excessivo pode tornar a exploração cansativa

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.