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A Pizza Delivery | Review

Alguns jogos se apresentam como experiências grandiosas, com sistemas complexos, mundos enorme e uma série de decisões que moldam cada passo do jogador. Porém, nem sempre isso é bom. Felizmente, também existem aqueles títulos que preferem seguir outro caminho, sendo curtos, contidos, quase íntimos, apostando mais na sensibilidade do que no espetáculo.

Pois é, A Pizza Delivery, que chegou recentemente para PC via Steam, PlayStation 5 e Xbox Series X|S, certamente pertence a este grupo. Mas acredite, isso não é ruim. Porém, o que ele faz com essa escolha de ser uma aventura mais direta? Ele acaba sendo um daqueles raros títulos que nos surpreendem, ou acaba sendo apenas mais um título experimental que tenta entregar uma mensagem, mas perde a mão no processo? Essa e diversas outras questões serão abordadas nesta review. Confira!

Uma jornada experimental

Em A Pizza Delivery, assumimos o papel de B, uma entregadora de pizza encarregada que, basicamente, tem esta função, misturada com um pouco de investigação, mas meio que de si mesma. Aqui nada é exatamente o que parece. O mundo pelo qual B se desloca não segue regras claras, tampouco apresenta uma lógica espacial linear. É meio esquisito, até. A geografia muda, as formas se distorcem, e a sensação é de estar atravessando um cenário mais mental do que físico. Isso se deve ao mapa ser muito ligado a questões da própria protagonista.

A estrutura da experiência de A Pizza Delivery é simples: pequenos quebra-cabeças espalhados pelo caminho, geralmente envolvendo encontrar uma chave, destravar um portão, localizar NPCs que fornecem pistas ou itens, ou apenas seguir caminhos nem sempre óbvios. É meio basicão, sei lá. Portanto, não espere desafios profundos, engenhosos ou particularmente memoráveis. O foco do jogo definitivamente não está nessa camada.

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A protagonista está em sua última entrega, mas tudo muda no caminho. (Imagem: Divulgação)

O que realmente prende um pouco da atenção em A Pizza Delivery são os intervalos. Momentos longos em que apenas dirigimos uma scooter com uma jogabilidade meio tosca, passando por regiões silenciosas, acompanhadas por uma trilha sonora suave, quase meditativa. Essa combinação, que apresenta cenários vazios, música relaxante e ausência de ação, produz um efeito curioso. Ao mesmo tempo que estranhei, logo captei a aura introspectiva da narrativa. Só por isso, A Pizza Delivery se torna uma experiência curiosa.

Nesta parte, A Pizza Delivery consegue ter algumas sacadas interessantes, de forma a nos deixar curioso para o que vem a seguir. Contudo, há alguns problemas que serão ressaltados a seguir, mostrando parte das fragilidades do título.

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Uma história bem profunda, mas com problemas. (Imagem: Divulgação)

A jogabilidade é um pouco frustrante

Apesar do tom introspectivo muito interessante, A Pizza Delivery tropeça feio nas partes de jogabilidade e mecânicas. Os puzzles são simples e repetitivos, por vezes, até demais, raramente apresentando alguma evolução significativa em termos de desafio ou criatividade. Há alguns opcionais, mas estes não trazem grandes coisas para a experiência. Isso sem contar na movimentação da scooter, que é bem tosca. É claro, A Pizza Delivery não quer focar nestes pontos, mas é inevitável não notá-los.

Assim, o problema não é apenas a falta de complexidade. É também o impacto negativo no ritmo. Em mais de uma ocasião, o jogador resolve um puzzle, avança alguns metros e logo encontra outra barreira do mesmo tipo, exigindo mais um pequeno ritual de coleta de item, chave ou informação, que acaba sendo algo chato… por vezes difícil de encontrar, algo que tira a imersão, juntamente com as limitações dos mapas. Essa movimentação constante, aliada à natureza pouco inspiradora dos quebra-cabeças, dá ao jogo uma sensação de trabalho, ou um esforço desnecessário.

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Andar de scooter é uma experiência frustrante. (Imagem: Divulgação)

Desta forma, para um título curto como A Pizza Delivery, cada decisão de design pesa. Aqui, infelizmente, o loop central não tem força suficiente para sustentar sozinho a experiência, mesmo com a ideia brilhante de trazer questões da protagonista, que muitas vezes refletem questões dos próprios jogadores e jogadores. Bem, pelo menos foi o meu caso… ou eu interpretei assim.

Conversas breves, temas profundos

Apesar de sua curta duração e da jogabilidade limitada, A Pizza Delivery investe em diálogos que abordam temas densos: memórias, sentido da vida, propósito, sensação de aprisionamento. Nada disso é trabalhado de forma muito filosófica; são conversas pontuais com NPCs solitários espalhados pelo mapa, pequenas faíscas de reflexão que se apagam rápido, mas deixam sua marca. A solidão é a marca do jogo, algo sentido a cada trajeto feito.

A força dessas interações está justamente em sua brevidade, tal como na vida. Com isso, o jogo não tenta nos convencer de uma grande e profunda aventura, mas oferece lampejos de sentimentos universais, de forma discreta e despretensiosa. Isso funciona especialmente bem porque A Pizza Delivery organiza sua narrativa de modo fragmentado, criando a sensação de que estamos explorando pedaços de lembranças de alguém, e não um mundo concreto. Mas, como já dito, esbarra nas pausas e puzzles.

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Questões complexas são trazidas para nós, jogadores e jogadoras. Mas a que custo? (Imagem: Divulgação)

De certo modo, conversar com esses NPCs é como folhear um diário rasgado: você não sabe exatamente o contexto, mas sente o peso emocional que cada trecho carrega. É tudo meio estranho e difuso, é verdade. Todavia, em alguns momentos, surgem experiências tocantes.

Visualmente simples, mas quem liga?

No quesito visual, A Pizza Delivery apresenta uma proposta estilística clara, sendo muito simples, algo que pode incomodar alguns jogadores. No meu caso, me incomodei com os cenários que, ainda que minimalistas e essenciais para o clima onírico e fragmentado da jornada, são meio vagos e bem sem graça. Há até algumas composições bonitas, cores bem escolhidas e quadros que realmente ajudam a construir a atmosfera melancólica do jogo, mas fiquei com uma sensação de algo incompleto.

Com isso, a sensação que fica é a de que certos ambientes foram feitos de maneira apressada ou despreocupada, sendo pouco polidos ou até mesmo desorganizados, estranhos. Essa irregularidade enfraquece a coesão estética, deixando a impressão de que algumas partes receberam mais cuidado que outras. Se A Pizza Delivery quisesse mesmo nos manter imersos, esses pontos poderiam ser mais bem cuidados.

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Os visuais são razoáveis, mas funcionam bem no que se propõe. (Imagem: Divulgação)

Outro problema fica por conta do design dos personagens, que não brilham. Não são exatamente ruins, mas passam sensação de pouca imaginação. São sem sal, não nos marcam e nem trazem consigo um peso narrativo. Com isso, um jogo tão focado em sensações e simbolismos como A Pizza Delivery, eu esperava pelo menos os personagens tivessem mais profundidade. Infelizmente, ficaram devendo nessa.

Problemas técnicos atrapalham, mas direção de arte consegue salvar alguma coisa

Embora seja um jogo simples, com uma narrativa curta, A Pizza Delivery apresenta alguns incômodos técnicos que não deveriam estar lá. A scooter, por exemplo, não responde de maneira totalmente fluida, como já mencionei aqui. Há pequenos travamentos, stuttering e momentos em que a movimentação fica rígida, quebrando a imersão dos trechos de direção. Sinceramente? É algo tosco e facilmente de ser resolvido. Essas falhas não chegam a comprometer a experiência por completo, mas atrapalham as partes mais contemplativas, aquelas em que o jogo aposta para se diferenciar. Eu achei um vacilo grande nesta parte, sobretudo por passarmos boa parte do jogo dirigindo o veículo.

Felizmente, apesar dos tropeços, A Pizza Delivery tem alma, algo inegável, graças à sua narrativa e a outros aspectos. Por exemplo, a combinação entre som, ambientação, condução narrativa e ritmo contemplativo cria uma identidade própria, facilmente reconhecível e carregada de intenção. Tem seus problemas e limitações, mas o conjunto da obra soa menos pior. É nítido que o estúdio tinha algo específico a dizer, ou a provocar. Isso se manifesta de maneira clara nas entrelinhas da experiência de A Pizza Delivery, um jogo que funciona mais como um título emocional do que como uma obra tradicional orientada por gameplay.

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Alguns lugares do jogo são meio feios, faltando algum polimento. (Imagem: Divulgação)

Vale a pena jogar A Pizza Delivery?

Sinceramente, a resposta depende do que você procura. Mesmo amando jogos com narrativas interessantes, A Pizza Delivery não me pegou, analisando o conjunto da obra. Faltou imersão, detalhamento e uma pitada de cuidado com aspectos básicos. Porém, para quem aprecia muito experiências contemplativas, a ponto de ignorar os outros aspectos, a curta viagem de A Pizza Delivery até pode ser interessante.

Fugindo dos padrões do mundo gamer, este é um jogo que não quer impressionar com números, fases, chefes, habilidades ou progressão. Ele quer simplesmente fazer o jogador sentir algo, nem que seja apenas uma pontada de estranhamento ou um eco de reflexão. Por outro lado, se você procura puzzles desafiadores, controles afinados, visual consistente ou narrativa longa e detalhada, talvez essa entrega não seja para você. Infelizmente, a repetição do jogo me frustrou, mesmo que a narrativa tenha me deixado curioso.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Dolores Entertainment.

A Pizza Delivery

R$ 79,90+
7.2

História

8.6/10

Jogabilidade

6.8/10

Gráficos e sons

7.4/10

Extras

6.0/10

Prós

  • Temas introspectivos tratados com sutileza
  • Estrutura narrativa fragmentada que instiga o jogador
  • Legendado para português brasileiro

Contras

  • Puzzles extremamente simples e repetitivos
  • Controle da scooter inconsistente
  • Visual irregular em várias áreas, sobretudo nos mapas
  • Design de personagens pouco inspirador

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.