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Atomfall | Review

Jogos ambientados em mundos pós-apocalípticos estão entre os meus gêneros favoritos. A ideia de explorar cenários devastados pela própria ganância da humanidade — seja na busca por poder, recursos naturais ou até mesmo diante da interferência de forças sobrenaturais — sempre me fascina. Essas narrativas costumam trazer não apenas a destruição e o colapso da civilização, mas também um elemento de esperança, mesmo diante de um cenário aparentemente sem saída. Títulos como Fallout e S.T.A.L.K.E.R. são alguns dos exemplos mais icônicos desse conceito, incentivando a exploração e a descoberta de histórias e segredos nesses mundos arruinados.

Com o tempo, no entanto, a ênfase na exploração foi perdendo espaço para experiências mais guiadas e focadas na narrativa, o que nem sempre foi uma mudança positiva. Esse direcionamento reduziu a liberdade de criar sua própria história dentro desses universos, algo essencial para jogadores que buscam uma aventura menos linear. Ainda há exceções, como Fallout 4, que, apesar de sua trama fraca, me proporcionou mais de 500 horas de diversão apenas pelo prazer da exploração e descoberta. Mas a pergunta que sempre me veio à mente foi: e se houvesse um jogo pós-apocalíptico totalmente focado na exploração?

Para minha surpresa, a Rebellion — desenvolvedora da série Sniper Elite e Zombie Army — promete entregar exatamente essa proposta com Atomfall. O jogo se passa em uma região devastada por um desastre nuclear, desafiando os jogadores a explorar o ambiente, coletar recursos, desvendar as histórias das facções e enfrentar as ameaças que surgirem pelo caminho. Será que estamos diante de um título capaz de surpreender e oferecer uma jornada verdadeiramente inesquecível? Descubra agora em mais uma análise do Pizza Fria!

Explorando Windscale

Atomfall começa com o protagonista despertando em um bunker na região de Windscale. Logo de início, encontramos um cientista que nos dá a missão de explorar a área em busca de uma maneira de escapar desse local, afetado por um desastre nuclear. Ele nos fornece o cartão de acesso do bunker e, após coletarmos alguns recursos, conseguimos finalmente sair e adentrar o mundo aberto. Diferente do que se espera de cenários pós-apocalípticos, Windscale é surpreendentemente verde e visualmente agradável. Ao contrário da estética suja e devastada de jogos como Fallout, Atomfall aposta em um ambiente mais vivo, o que traz uma sensação refrescante para o gênero.

Atomfall
O cenário vibrante e com cores vivas de Atomfall é um grande destaque. (Imagem: Divulgação)

Outro diferencial do jogo é a ausência de indicadores diretos de objetivos. Para avançar na campanha, precisamos explorar o mapa, interagir com NPCs e reunir pistas por conta própria. Sempre que encontramos uma pista, ela é adicionada ao diário do jogador, marcando a área aproximada a ser investigada. Um exemplo disso ocorre logo na primeira região do jogo, onde encontramos uma caverna de mineração. Um NPC menciona ter ouvido vozes estranhas em determinado local, e a região onde isso supostamente aconteceu é destacada no mapa. A partir daí, cabe ao jogador explorar, conversar com outros personagens e até mesmo lidar com inimigos para chegar a uma resposta.

Esse sistema de exploração foi um dos pontos que mais me agradou. Algumas missões chegam a ser bastante complexas, exigindo a coleta de várias pistas antes de alcançar o objetivo principal. Atomfall concede uma liberdade considerável na forma como o jogador progride na história, sempre incentivando a exploração para obter mais informações. No entanto, apesar de gostar dessa abordagem, alguns aspectos poderiam ter sido melhor desenvolvidos.

A exploração é excelente, mas não existe muita civilização interessante a se encontrar

Um dos pontos que me deixou com sentimentos mistos foi a construção dos personagens ao longo da jornada. O game faz um excelente trabalho inicial ao estabelecer um clima de mistério, incluindo um personagem enigmático que nos liga de cabines telefônicas vermelhas espalhadas pelo mapa. No entanto, a narrativa não possui profundidade suficiente para me fazer criar um vínculo real com os NPCs. Isso é uma pena, especialmente porque o sistema de diálogos do jogo apresenta diferentes entonações — como curioso, rude ou ousado — permitindo variações interessantes nas conversas.

Porém, mesmo com essa variedade, o sistema acaba não sendo aprofundado o bastante. No geral, os diálogos levam sempre ao mesmo desfecho, apenas fornecendo novas pistas para a exploração. Além disso, os NPCs carecem de personalidade e, muitas vezes, passam a impressão de existirem apenas para indicar um novo destino ou, no caso dos comerciantes, para realizar trocas de itens.

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Embora o game conte com algumas facções, elas não se destacam muito e nem apresentam uma história interessante. (Imagem: Divulgação)

Outro aspecto decepcionante foi a implementação das facções. Elas estão espalhadas pelo mapa, com algumas sendo amigáveis e outras hostis, mas não possuem um desenvolvimento sólido dentro da narrativa. O título mantém uma abordagem superficial sobre o que cada grupo representa ou quais são seus objetivos na região, o que enfraquece ainda mais o sistema de escolhas de diálogo. Isso se torna especialmente frustrante na reta final, quando as decisões do jogador começam a gerar consequências reais, evidenciando que esse recurso poderia ter sido melhor aproveitado ao longo de toda a campanha.

Apesar dessa falta de profundidade narrativa, não posso dizer que o sistema de exploração me desagradou a ponto de comprometer a experiência. No fim das contas, a verdadeira essência de Atomfall está na exploração, e, nesse quesito, o jogo cumpre muito bem o seu papel. Os personagens, mesmo sem grande carisma, ainda conseguem despertar a curiosidade necessária para incentivar a busca por novos segredos espalhados pelo mapa. E, nesse aspecto, Atomfall realmente me surpreendeu.

Uma jornada que recompensa o jogador

Atomfall me proporcionou uma experiência verdadeiramente recompensadora ao explorar a região de Windscale. O game conta com diversos vilarejos, pequenas cidades e até mesmo bunkers secretos que podem ser acessados caso encontremos uma forma de entrar. Com o sistema de pistas, frequentemente ouvimos rumores sobre cavernas e áreas que escondem segredos enterrados, prontos para serem descobertos. Para isso, podemos utilizar um detector de metais, adquirido logo no início da jornada, que nos auxilia na busca por objetos ocultos.

Quando nos aproximamos de um item enterrado, o aparelho começa a piscar com indicadores vermelhos, apontando a direção correta. Quanto mais perto chegamos, mais intenso fica o sinal sonoro. Tive momentos incríveis nessas buscas, muitas vezes me encontrando cercado por inimigos enquanto tentava desenterrar um segredo, o que tornava a exploração tensa.

Atomfall
Sair em busca de segredos com o detector de metal é extremamente recompensador. (Imagem: Divulgação)

Outro aspecto de destaque é a exploração dos vilarejos espalhados pelo mapa. A maioria deles conta com diversas casas acessíveis, onde podemos encontrar recursos e documentos que revelam mais sobre a história da região. No entanto, nem sempre é possível simplesmente entrar pela porta da frente e coletar tudo. Muitas casas estão trancadas, exigindo que encontremos maneiras alternativas de invadir, seja escalando outra estrutura para pular por uma janela, rastejando por frestas ou até mesmo explodindo partes frágeis da construção. No entanto, é preciso cautela, pois muitas dessas áreas contêm armadilhas, que podem ser evitadas ou desarmadas caso o jogador possua as habilidades ou itens necessários.

Além dos vilarejos, os grandes bunkers representam algumas das áreas mais desafiadoras do jogo, geralmente ligadas à campanha principal. Por serem mais complexos, costumam apresentar inimigos mais fortes e desafios diferenciados. Um exemplo ocorre logo nos primeiros momentos de Atomfall, quando entramos em um bunker sem energia. Para progredir, é necessário encontrar baterias e restaurar o funcionamento do local. Normalmente, essas baterias estão escondidas em salas específicas, e cabe ao jogador seguir pistas encontradas em documentos para localizá-las. Esses trechos se destacam por criar uma atmosfera sombria e introduzir desafios únicos, além de oferecerem recompensas valiosas, como armas raras e itens de crafting.

O combate funciona, mas poderia ser melhor

No entanto, um dos aspectos mais divisivos do game é o combate — ou melhor, a falta de um desafio real nele. Atomfall acerta ao oferecer múltiplas abordagens para enfrentar inimigos, seja optando pelo stealth, atacando diretamente ou distraindo adversários com objetos. Esse sistema me lembrou bastante Far Cry, no qual o jogador recebe a liberdade de definir a melhor estratégia para eliminar ameaças. Conforme desbloqueamos novas habilidades, as opções táticas se tornam ainda mais variadas, o que é um ponto positivo.

Porém, quando o combate direto acontece, diversas falhas do sistema ficam evidentes. O jogo incorpora elementos de sobrevivência, com recursos inicialmente escassos que se tornam mais abundantes conforme a campanha avança. O problema é que esse equilíbrio não foi bem ajustado, tornando-se extremamente fácil acumular poder rapidamente. Após saquear apenas dois ou três acampamentos, já estava equipado o suficiente para enfrentar os desafios até o final do jogo. Isso ocorre porque a inteligência artificial dos inimigos é bastante falha, e sua resistência é extremamente baixa, mesmo na dificuldade padrão recomendada pelo jogo.

Atomfall
O balanceamento de dificuldade é um aspecto que o game decepciona. (Imagem: Divulgação)

A maioria dos adversários pode ser eliminada com apenas dois tiros, independentemente da arma utilizada — pistolas, shotguns ou rifles. O mesmo vale para armas brancas, que finalizam os combates em poucos golpes. Além disso, a grande quantidade de munição disponível torna qualquer desafio nos confrontos algo inexistente. Em pouco tempo, acumulei um verdadeiro arsenal, tornando as batalhas monótonas e sem qualquer sensação de perigo. Tentei adotar abordagens furtivas para manter a imersão, e isso de fato adicionou um pouco mais de desafio e diversão, mas quando Atomfall exigia um confronto direto, a experiência se tornava repetitiva.

Felizmente, há momentos em que enfrentamos inimigos mais fortes, como os robôs gigantes, que proporcionam batalhas mais intensas e fazem bom uso do sistema de combate. No entanto, o mesmo problema de progressão excessivamente rápida afeta o sistema de crafting. Embora a mecânica tenha sido projetada para oferecer uma evolução gradual, a facilidade em saquear acampamentos torna os recursos abundantes muito rapidamente. Isso acaba prejudicando a sensação de recompensa e progresso que o jogo tenta estabelecer.

Claro, há sempre a opção de aumentar a dificuldade para enfrentar inimigos com barras de HP exageradas e que podem nos eliminar com um único tiro. No entanto, se a única maneira de um sistema de combate proporcionar um desafio minimamente satisfatório é forçando o jogador a recorrer à dificuldade mais extrema, isso apenas evidencia as falhas do próprio balanceamento do jogo.

Gráficos e trilha sonora

Fazendo jus a tudo que mencionei até agora sobre Atomfall, mais uma vez temos um cenário misto. O jogo apresenta visuais belíssimos, com uma vegetação densa e detalhada, vilarejos repletos de objetos espalhados e um mundo rico em detalhes, tornando Windscale um ambiente cativante e imersivo… pelo menos enquanto estamos parados.

Infelizmente, a movimentação revela um problema grave: o upscaling do jogo deixa muito a desejar. Quando o personagem caminha pelo mapa, a ambientação se torna extremamente borrada, com um serrilhado visível que chega ao ponto de evidenciar os pixels em áreas com vegetação mais densa. Esse problema é bastante distrativo e prejudica a imersão, diminuindo o impacto do excelente design artístico do jogo. Felizmente, Atomfall mantém uma taxa de 60 FPS no PlayStation 5 e, durante minha experiência, não presenciei quedas de desempenho ou travamentos.

Atomfall
Apesar de ter um visual artistico bonito, Atomfall sobre com problemas de serrilhados e borrões quando o personagem está em movimento. (imagem: Divulgação)

No quesito sonoro, a trilha sonora é, na maior parte do tempo, ausente, priorizando a imersão do jogador no ambiente de Windscale. E, nesse aspecto, o título faz um bom trabalho. A dublagem também é competente, mas o mesmo não pode ser dito do design sonoro das armas, que é decepcionante. Os sons dos tiros carecem de variação e impacto, independentemente da arma utilizada, o que tira a sensação de peso dos combates. Da mesma forma, as armas curtas sofrem do mesmo problema: os golpes parecem fracos e sem impacto, como se estivéssemos atingindo um saco de pancadas até que o inimigo inevitavelmente caia.

Vale a pena comprar Atomfall?

Atomfall é um título que agradará dependendo das expectativas do jogador. No meu caso, buscava uma aventura que entregasse uma campanha rica em exploração, repleta de segredos e recompensas para aqueles dispostos a vasculhar cada canto de Windscale. E nisso o jogo brilha. Para quem gosta de se perder em um mundo cheio de mistérios e de ser constantemente recompensado pela curiosidade, Atomfall entrega essa experiência com maestria.

Por outro lado, jogadores que procuram uma narrativa envolvente, um combate frenético e ação constante podem se decepcionar, pois esses aspectos são as maiores fraquezas do jogo. No entanto, mesmo com seus problemas, Atomfall consegue trazer algo único ao gênero pós-apocalíptico, rompendo com algumas convenções e apostando na exploração como seu maior trunfo. Com o tempo, vejo potencial para o jogo ser lembrado como um clássico cult, e quem sabe até inspirar uma nova leva de títulos que coloquem a exploração como o verdadeiro foco desse gênero — algo que, muitas vezes, acaba sendo apenas um detalhe secundário.

Atomfall foi desenvolvido pela Rebellion e lançado no dia 27 de março para Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC, via Steam. O título também está disponível para assinantes do Game Pass sem custo adicional.

*Review elaborada em um PlayStation 5, com código fornecido pela Rebellion.

Atomfall

BRL 299,90
7.8

História

7.0/10

Gameplay

8.0/10

Gráficos e Sons

8.0/10

Inovação

8.0/10

Prós

  • O fator exploração é excelente, sendo este o ponto mais forte do game
  • Excelente direção de arte dos cenários
  • Boa variedade de abordagem nos trechos de exploração
  • A exploração nos bunkers oferece desafios únicos e recompensadores
  • Legendas em PT-BR

Contras

  • A narrativa e os personagens poderiam ser mais elaborados
  • Sistema de diálogos sub utilizado
  • Muito serrilhado na imagem na versão de PS5
  • O sistema de combate deixa a desejar
  • A dificuldade poderia ser melhor balanceada

Leandro Paiva

Um estudante de jornalismo e o primeiro estagiário do site. Degustador nato de coxinha e pizza fria com ketchup. Amante de RPG, principalmente aqueles em que é possível pescar em vez de fazer a missão principal. Piadista em tempo integral e um grande degustador de café. Defensor de Birds of Prey e da DC em geral nas horas vagas.