Escape from Tarkov | Review
Lá em meados de 2017, peguei o início do hype sobre Escape from Tarkov, extraction shooter realista da Battlestate Games, que teve sua versão 1.0 lançada no final do ano passado para PCs, via Steam e Battlestate Games Launcher. De lá para cá, já se foram quase 10 anos, e o jogo finalmente chegou a sua forma final, prometendo realismo, imersão e combates armados contra players e bots, em que cada incursão é um teste de paciência, atenção e nervos, em um mundo onde a sobrevivência depende menos de reflexos rápidos e mais de decisões friamente calculadas.
Ambientado em uma região fictícia da Rússia totalmente devastada por conflitos políticos e militares, Escape from Tarkov é, em essência, um dos mais imporantes extraction shooters dos últimos anos, sobretudo pela elaboração mais aprofundada do gênero. A proposta do jogo parece simples no papel: entrar em um mapa perigoso, coletar equipamentos e recursos, e sair vivo por um ponto de extração. O detalhe crucial está em viver. Se você morrer, perde absolutamente tudo o que levou para a missão. Não há meio-termo, não há consolação. O fracasso tem peso real.
Esta é a estrutura de Escape from Tarkov, que vai sendo repetida dezenas ou centenas de vezes, constrói uma experiência singular. Desta forma, fica nítido que o título não tenta ser confortável, acessível ou agradável o tempo todo. Ele existe para provocar tensão constante, recompensar conhecimento acumulado e punir qualquer descuido. Mas será que ele vale a pena? Vamos descobrir isso nesta análise do Pizza Fria!
Marcas de guerra: a história e os mapas
Os mapas de Escape from Tarkov não funcionam apenas como meros cenários; eles são fragmentos vivos da história do conflito que devastou a região fictícia da Rússia. Cada local parece congelado no tempo, como se a evacuação tivesse ocorrido às pressas, deixando para trás traços de uma sociedade que colapsou em meio ao caos da guerra. Escritórios abandonados, áreas industriais saqueadas e residências reviradas viraram zonas de guerra, sendo todos tomados pela violência. Desta forma, os mapas são essenciais para construir um pano de fundo narrativo que dispensa cutscenes ou muitos diálogos.
Em um dos mapas, Customs, temos o epicentro logístico do conflito, com armazéns, postos alfandegários e rotas de transporte que explicam por que tantas facções disputam aquele território. Já Interchange, com seu shopping gigantesco e às escuras, simboliza o colapso do consumo e da vida civil, transformando um espaço antes dedicado ao conforto em um labirinto claustrofóbico de emboscadas.

Já Woods e Shoreline ampliam essa leitura ao mostrar os limites entre áreas urbanas e zonas mais afastadas, onde instalações militares, acampamentos improvisados e estruturas de pesquisa sugerem que Tarkov não foi apenas palco de um conflito urbano, mas também de experimentos, operações secretas e disputas estratégicas maiores. A presença de bases abandonadas, antenas, bunkers e hospitais reforça a ideia de que algo mais profundo aconteceu ali, mas só o tempo nos dirá. Seria uma herança da Guerra Fria? Não sei…
Enfim, o design ambiental de Escape from Tarkov é fundamental para essa narrativa fragmentada. Não há marcadores detalhando a história, mas a disposição dos objetos, os corpos espalhados, os veículos destruídos e até os pontos de extração improvisados ajudam o jogador a reconstruir mentalmente o que ocorreu naquele lugar. Desta forma, aprender um mapa não é apenas memorizar rotas eficientes, mas compreender seus perigos e suas possibilidades, como se cada área tivesse uma personalidade própria moldada pelo caos.

Essa abordagem faz com que nossa progressão se misture à própria narrativa do mundo. Quanto mais você entende um mapa, mais claro fica o papel que ele desempenha dentro do conflito maior de Tarkov. É uma forma de storytelling ambiental diferenciada, que transforma o ato de sobreviver e extrair em uma leitura constante de um mundo quebrado. No entanto, talvez nem todos consigam perceber isso.
Um tutorial simples
Um dos aspectos mais básicos do jogo é seu tutorial, que não ensina muita coisa. Com isso, Escape from Tarkov pode ser considerado um título que requer tentativa e erro para ser dominado, o que é desafiador. Por exemplo, diversos sistemas complexos como a parte médica, as quests e até mesmo as extrações, são apresentadas de forma vaga ou incompleta, tudo meio que na correria, doido pra te jogar na ação. Na prática, dependendo do seu perfil e histórico de jogos, a experiência só será completamente compreendida se você fizer buscas de vídeos e guias criados pela comunidade. Aliás, temos um guia com 5 dicas para começar bem no jogo!
Essa questão é meio problemática, pois divide jogadores mais experientes no gênero de pessoas mais “curiosas”, criando uma barreira de entrada significativa. Com isso, quem está mais habituado não só conta com melhores equipamentos, mas também tem domínio absoluto das mecânicas e mapas. Embora qualquer um possa eliminar outro jogador com um disparo certeiro, a vantagem de quem sabe exatamente o que está fazendo é enorme.

Portanto, mesmo com o tutorial inicial, o problema não está totalmente resolvido. Tá bom… ele até apresenta conceitos básicos, mas não nos dá aquela sensação de preparo para a complexidade real que nos espera no jogo. Assim, é extremamente necessário que você busque conhecer como cada coisa funciona, sobretudo os tiroteios, que fogem do padrão dos shooters normais.
Esqueça jogos como Counter-Strike 2 ou Call of Duty
Como o próprio subtítulo diz, esqueça os jogos que você já conhece. Em Escape from Tarkov a coisa é mais complexa, sendo o combate realista o seu maior trunfo. Digo isso não somente pela violência explícita ou pelo realismo visual mas, sobretudo, pela forma como cada confronto se desenrola. O tempo para matar é extremamente baixo, bastando um ou dois tiros, a depender das proteções usadas. Sem proteção, apenas um tiro na cabeça pode ser fatal. Isso transforma qualquer troca de tiros em um evento de alto risco, onde a tática deve prevalecer sobre as rajadas de tiro.
Um ponto importante de Escape from Tarkov é que as armas possuem peso, recuo, ergonomia e comportamento próprios. Ou seja, não se trata apenas de escolher um rifle ou uma submetralhadora, mas de entender como cada arma age e como seus diversos acessórios influenciam o desempenho. Miras afetam ergonomia, canos alteram precisão e munição é, talvez, o fator mais importante de todos. Balas diferentes penetram armaduras de maneiras distintas, causam sangramentos, fraturas ou falhas mecânicas. Outro detalhe importante, é que a munição errada pode ser a diferença entre vencer um combate ou morrer sem entender o porquê.

Essa complexidade, que inicialmente nos deixa meio embolados, com a falta de informações precisas sobre número de balas, status da arma e tantos apetrechos, podem nos assustar, mas é tudo questão de prática. Essa simulação, se é que posso chamar assim, também se estende às animações e ações básicas como se curar, beber ou comer. Recarregar, por exemplo, não é um comando mágico: você precisa ter carregadores, munição compatível e tempo para executar a ação. Em momentos de desespero, é comum se ver agachado atrás de uma parede, colocando bala por bala em um pente enquanto escuta passos se aproximando. Poucos jogos conseguem transmitir essa sensação de vulnerabilidade com tamanha eficiência. É uma tensão absurda que perdura o tempo todo.
Dinheiro pra que te quero
Por trás de toda a ação de Escape from Tarkov, temos um grande sistema econômico integrado à jogabilidade. Todo item encontrado nas incursões tem valor real. Um simples parafuso pode ser mais importante do que uma arma cara, dependendo do estágio do seu progresso e das missões. Isso transforma a coleta de loot em um exercício constante de avaliação de risco e recompensa.
Esse dinheiro obtido serve para comprar equipamentos, melhorar o esconderijo (hideout) e desbloquear novos recursos e se armar até os dentes, claro. O hideout, aliás, funciona como um segundo jogo dentro do jogo. Melhorá-lo exige itens específicos, planejamento e paciência, mas oferece benefícios importantes, como recuperação mais rápida e acesso a fabricação de recursos. Essa talvez seja uma das grandes novidades trazidas por Escape from Tarkov e reutilizada em Delta Force e Arena Breakout, algo que nos mostra a importância deste jogo para o mundo dos shooters de extração.

Por fim, vale mencionar que essa economia do jogo cria situações únicas. Às vezes, vender um equipamento poderoso é mais sensato do que usá-lo, simplesmente porque o risco de perdê-lo é alto demais. Em outros momentos, investir tudo em uma única incursão pode ser a decisão certa. Escape from Tarkov vive dessa tensão constante entre ousadia e cautela. Mas fiquem tranquilos: há também espaços no inventário que podem guardar alguns itens sem que eles se percam. No entanto, isso tem um custo…
Experiências em PvP e PvE
Atualmente, Escape from Tarkov oferece duas experiências bem diferentes, mas ainda assim tensas. No modo PvP tradicional, jogadores dividem o mapa com outros players e inimigos controlados pela IA, algo que deixa o mapa mais povoado e, por conta disso, caótico. É o Escape From Tarkov clássico, tenso e imprevisível, onde cada encontro pode ser fatal.
Já o modo PvE, disponibilizado como DLC, substitui os jogadores inimigos por versões controladas pela inteligência artificial, que não são tão ágeis quanto os outros jogadores, mas dão um trabalhinho, sobretudo por serem meio imprevisíveis em alguns momentos. Ou seja, o ritmo de jogo é bem mais controlado, menos estressante, mas ainda desafiador. Para muitos, esse modo funciona como uma alternativa mais acessível e menos estressante, sobretudo para quem não pode ou não quer acompanhar a corrida armamentista do PvP ou simplesmente não quer se adentrar na parte competitiva do jogo.

De qualquer maneira, merece ser ressaltado aqui que ambos os modos têm méritos claros, e a preferência depende muito do perfil do jogador. Enquanto o PvP oferece picos de adrenalina difíceis de replicar, o PvE permite explorar o jogo com mais calma, focando em progressão e aprendizado.
Vale a pena jogar Escape from Takov?
Chegamos naquela parte essencial de ser explicada para vocês. Com a chegada da versão 1.0 do jogo, observamos os esforços de 10 anos da equipe desenvolvedora para finalmente lançar Escape from Tarkov. Contudo, isso não significa que o jogo está totalmente pronto, sendo um início meio frustrante para parte dos jogadores, que esperavam ainda mais do jogo, mesmo recebendo melhorias visuais, novos conteúdos e ajustes importantes. Digo isso, pois o game também apresentou alguns probleminhas técnicos, como quedas de desempenho e crashes ocasionais. Essas coisas são corrigidas com o tempo e, o mais importante, é que o jogo segue firme e ativo.
Concluindo, em minha humilde perspectiva, Escape from Tarkov é um jogo extremo, que exige tempo, dedicação, muita paciência e uma tolerância elevada à frustração. Caso você se veja nesse recorte, o jogo vai te oferecer em troca diversos momentos de tensão e recompensas que poucos títulos conseguem igualar. Sendo assim, já deixo claro que este shooter não é para todos, nem tenta ser. Diferentemente de Call of Duty ou Battlefield, ele tem uma proposta de imersão e realismo bem específicas. Aliás, sua identidade está justamente em ser deste jeito: implacável, denso e profundamente envolvente, mesmo com algumas falhas.
Com isso, Escape from Tarkov é um jogo de grande importância, mesmo não sendo uma experiência feita para todo mundo, sendo uma das maiores referências para o gênero de jogos de tiro de extração.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Battlestate Games.
Escape from Tarkov
R$ 115,00+Prós
- Jogo legendado em português brasileiro
- Tiroteios extremamente tensos e realistas
- Possibilidade de jogar PvP ou PvE, atendendo perfis diferentes de jogadores
- Sistema de armas profundo, com personalização que impacta diretamente o gameplay
- Experiência de extração traz senso de risco e recompensa
Contras
- Versão 1.0 não entrega todas as promessas antigas do projeto
- Sistema de quests confuso e mal explicado
- Curva de aprendizado punitiva para iniciantes no gênero


