As Long as You Here | Review
As Long as You Here, jogo criado pela Autoscopia Interactive para PC via Steam, é bem curto, mas a sua mensagem é bem profunda (sobretudo para quem já passou pela triste experiência de ter alguém com Alzheimer). Totalmente em primeira pessoa, a ideia do jogo se apresenta de forma simples: você acompanha alguns dias da vida de Annie, uma avó que acaba de se mudar para um novo apartamento, próximo da família. E a gente convive com a doença de uma forma extremamente sensível e real.
Em As Long as You Here não há tutoriais, sistemas elaborados ou desafios tradicionais. O que existe é o cotidiano, feito de pequenas tarefas diárias, conversas fragmentadas e memórias que surgem e desaparecem o tempo todo. Com isso, a experiência vai sendo construída aos poucos, quase sem alarde, convidando o jogador a observar, ouvir e participar de uma rotina que vai ficando cada vez mais complexa.
No entanto, será que As Long as You Here consegue realmente trazer uma mensagem sensível e realista, ou é um título que se arrisca a fugir dos padrões e erra? É isso que veremos nesta review. Confira a seguir!
Uma perspectiva rara nos videogames
Logo de cara, preciso dizer que o grande trunfo de As Long as You Here está justamente na escolha de tema e a perspectiva adotada. Ele é potente, bonito e emociona, abordando o tema do Alzheimer de forma leve e explicativa. Com isso, somos colocados diretamente no controle (e na mente) de alguém que convive com essa triste doença. Com isso, a progressão do jogo é sentida por meio de sintomas reais como confusão espacial, lapsos de memória e pequenas incoerências no ambiente, simulando toda a confusão e sofrimento de quem sofre com a doença.
Esses sintomas são percebidos logo no início de As Long as You Here, apresentados em sinais sutis: falas que desaparecem da tela, lembranças que surgem sem aviso e uma sensação constante de desorientação. Isso é tranquilamente percebido. Portanto, com o passar da narrativa, essas ocorrências se tornam mais frequentes, criando uma história que não depende de grandes reviravoltas, mas da repetição e da perda gradual de referências. As Long as You Here é um jogo sensível e empático.

O cotidiano como mecânica central
A jogabilidade é propositalmente simples, tal como as tarefas diárias de qualquer pessoa mais velha. Elas envolvem ações como preparar café, regar plantas, tomar remédios, conversar com familiares, dormir, acordar, se locomover e por aí vai. Em outro contexto, essas atividades poderiam parecer banais como em um life sim, mas aqui elas ganham um enorme peso narrativo. O desafio de As Long as You Here não está em executar a ação, mas em sentir como uma pessoa se sente quando a sua própria percepção não é mais tão confiável.
Nessa mecânica, uma coisa que entra é a participação familiar, que tenta amenizar os lapsos Com isso, a filha da protagonista faz uso de bilhetes adesivos, que ela espalha por todo o apartamento. Esse ato simples, mas importante, funciona como um recurso narrativo e mecânico eficiente e realista, trazendo o lado daqueles que sofrem ao acompanhar o progresso dos sintomas do Alzheimer.

Eles nos orientam, mas também reforçam a ideia de dependência crescente. À medida que o tempo avança, esses lembretes se multiplicam, ocupando paredes, portas e móveis, transformando o espaço doméstico em um mapa da fragilidade da memória. Quem já passou por essa triste situação, sabe o quão difícil é ir percebendo uma pessoa desaparecendo pouco a pouco dentro de si mesma. O brilho no olhar se esvai juntamente com as palavras. Dói. Dói demais, mas infelizmente a vida tem dessas coisas, e As Long as You Here tem essa sensibilidade de apresentar a situação.
O apartamento da protagonista é um dos elementos mais importantes do jogo, sendo o principal cenário da rotina trazida pela narrativa. A casa vai mudando sutilmente de forma e arrumação, algo que vamos percebendo com o tempo. Com isso, é normal que objetos apareçam em lugares inesperados, bem como cômodos parecem pertencer a momentos diferentes da vida da personagem e a passagem do tempo vai se tornando cada vez mais incerta. Assim, um mês pode avançar sem explicação clara, reforçando a sensação de que algo está sempre escapando. E está.

A árvore genealógica: uma mecânica que explica o valor da memória
Um dos principais objetivos de As Long as You Here é a construção de uma árvore genealógica em formato de álbum de recortes, algo que já não é feito há um bom tempo. Cada novo membro adicionado representa um esforço consciente da p para preservar suas lembranças e manter vivos os vínculos familiares. Essa estrutura funciona como fio condutor da narrativa, conectando passado e presente, lembranças tristes, traumas, perdas e várias outras questões. O que é mais sentido, de fato, é a distorção na sensação temporal. Um parente que se foi há muito, é lembrado como se ainda estivesse ali.
Analisando As Long as You Here de uma maneira ampla, percebe-se um cuidado especial na forma como essas memórias são apresentadas. Fotografias, diálogos e pequenos objetos contam histórias inteiras em fragmentos, tal como o que acontece com quem sofre de Alzheimer. Cada vez mais, a sensação que sentimos, além de empatia, claro, é de tristeza. Afinal, é dolorido esquecer ou se perder dentro de sua própria vida.

Relações familiares e silêncios
Embora o foco esteja na experiência interna de Annie, o impacto da doença sobre a família também é perceptível. De fato, quem passou por isso, consegue entender ainda melhor toda a confusão, exaustão e tristeza que essa situação traz para todos os familiares. Em As Long as You Here, diversas conversas sugerem tensões entre os filhos de Annie, advindas de preocupações financeiras e discussões difíceis sobre cuidado e autonomia. Nada disso é explorado de forma dura, expositiva ou excessivamente dramática. Pelo contrário, são pequenos diálogos e silêncios que revelam o peso emocional da situação.
Um dos destaques está na relação entre Annie e seu neto, Noah. As interações entre os dois são breves, mas carregadas de significado. É o início de uma vida e o começo do fim de outra. Há uma delicadeza especial nesses momentos, que mostram como o afeto pode persistir mesmo quando as lembranças se tornam imprecisas. São cenas simples, mas profundamente humanas. E nisso As Long as You Here capricha, sendo um jogo tocante e essencial por abordar um tema tão negligenciado pelos games.

Apresentação audiovisual contida e eficaz
Visualmente, As Long as You Here adota um estilo minimalista que é extremamente funcional. Os gráficos não buscam realismo extremo, mas cumprem bem seu papel ao criar ambientes claros, legíveis e emocionalmente coerentes. As limitações técnicas são perceptíveis, mas raramente comprometem a experiência, o que é muito bom, fazedo o jogo rodar em PCs com hardware mais limitado.
Ja a trilha sonora é bem discreta, composta por sons ambientes e músicas suaves que reforçam o tom introspectivo do jogo. Em muitos momentos, o silêncio é tão importante quanto a música, permitindo que o jogador absorva o peso das situações apresentadas. Essa escolha de alternar entre músicas e silêncios traz uma imersão e uma dramatização mais aprofundada, mostrando como os sons do jogo são tão importantes como todo o resto.

Uma experiência curta, mas duradoura
Com cerca de duas horas de duração, As Long as You Here é pensado para ser jogado em uma única sessão. Essa escolha é acertada, pois mantém a coesão emocional da narrativa e evita rupturas que poderiam diluir o impacto da história. Se o jogo prolongasse muito, talvez o impacto que ele causa seria mais limitado, arrastado, sendo até chato. Todavia, apesar da curta duração, o jogo permanece conosco por muito mais tempo, graças aos temas que aborda e à forma respeitosa como o faz.
A experiência pode ser desafiadora em um sentido emocional, especialmente para quem já teve contato próximo com o Alzheimer ou outras formas de demência. No meu caso, foi um pouco angustiante, mas o jogo trouxe um caso bem diferente dos que vivi. Sim, passei por dois problemas neurológicos na minha família e foi uma experiência extremamente dolorida. Por conta dissso, o próprio jogo deixa claro, desde o início, que se trata de uma jornada sensível, convidando o jogador a respeitar seus próprios limites.

Vale a pena jogar As Long as You Here?
As Long as You Here, como é possível de se perceber, está longe de ser um jogo tradicional, e essa é uma de suas maiores qualidades, abordando temas sensíveis de maneira simples e leve, mesmo com toda a tristeza que gira em torno do Alzheimer. Ele se aproxima mais de uma obra interativa de caráter artístico, utilizando a linguagem dos videogames para explorar a fragilidade da memória, a passagem do tempo e a importância dos laços familiares em momentos de extrema dificuldade e fragilidade. Com isso, construímos de uma forma muito potente um sentimento de empatia. Não por meio de discursos diretos, mas através da vivência.
Mesmo com mecânicas extremamente simples e escopo reduzido, As Long as You Here demonstra como os jogos eletrônicos podem e devem ser utilizado para contar histórias profundamente humanas. É uma experiência delicada, honesta e cuidadosa, que trata o Alzheimer com muito respeito e sensibilidade, deixando claro que, às vezes, o impacto de um jogo não está na quantidade de horas jogadas, mas na marca emocional que ele é capaz de deixar. E acredite: As Long as You Here toca demais nossos corações.
Por fim, se você estiver procurando um jogo para se divertir e passar horas e horas nele, este não é um título para você, já que sua proposta é extremamente diferente.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Autoscopia Interactive.
As Long as You Here
R$ 32,99Prós
- Abordagem sensível e respeitosa do Alzheimer
- Experiência forte e realista, sobretudo para quem já passou por esse problema na família
- Perspectiva em primeira pessoa que coloca o jogador dentro da experiência de Annie
- Legendado em português brasileiro
Contras
- Poucas opções de configuração e acessibilidade técnica
- Para alguns, a jogabilidade pode ser muito simples e lenta


