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Constance | Review

Entre tantos metroidvanias que chegam ao mercado todos os anos, poucos conseguem unir desafio mecânico com sensibilidade temática de forma realmente memorável. Constance, desenvolvido pela btf Games, é um desses casos. O título chega ao PC trazendo uma jornada intensa, emocional e artisticamente marcante, combinando um metroidvania estruturalmente clássico com uma narrativa profundamente ancorada em temas de saúde mental, burnout e pressões sociais.

Quer saber o que achei dessa experiência? Vem comigo em mais uma análise antecipada do Pizza Fria!

Uma artista em colapso

A história acompanha Constance, uma jovem artista constantemente pressionada por chefes, família e amigos. A protagonista vive sob expectativas irreais, cobranças incessantes e um ciclo de exaustão que se reflete tanto na sua vida quanto nos mundos internos que ela percorre. Um ponto importante a se destacar aqui é que só somos informados disso ao longo das primeiras horas de jogo.

Logo na abertura, o game apresenta um aviso direto sobre os temas abordados: burnout, ansiedade, depressão, trauma e conflitos familiares. Não há nenhum gatilho explícito, mas existe um retrato honesto e contínuo das pressões que corroem a saúde mental de alguém que tenta sobreviver a um mercado de trabalho agressivo, à sensação de insuficiência e ao medo constante de decepcionar.

Constance
Mesmo você acertando o mini-game, será cobrado. Como na vida real… (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Esse peso emocional se traduz no próprio universo do jogo: cada área é uma metáfora visual para estados psicológicos deteriorados, e cada chefe representa uma camada dolorosa da vida da artista. Para seguir adiante, Constance precisa recuperar as chamadas “Lágrimas”, nada mais do que fragmentos simbólicos associados a reencontro, aceitação e superação. Cada lágrima obtida após batalhas intensas reforça a interpretação de que o título é mais sobre reconstrução pessoal do que sobre uma simples escalada de poder.

Constance também surpreende ao incluir opções robustas de acessibilidade que permitem ajustar o nível de exigência do game. É possível, por exemplo, desativar o dano causado por inimigos e por elementos ambientais, o que transforma completamente o ritmo da aventura. Jogadores que preferem aproveitar a narrativa, a direção artística e a exploração sem a pressão de combate punitivo podem optar por uma experiência muito mais suave. Essas configurações não apenas tornam o título mais inclusivo, como também mostram preocupação da equipe de desenvolvimento com diferentes perfis de jogadores, algo especialmente positivo em uma obra que trata de saúde mental e bem-estar.

Constance
Vincent se torna um sábio personagem (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Um metroidvania clássico, complexo e exigente

Em termos de estrutura, Constance abraça totalmente as tradições do gênero. O mapa é extenso, interconectado e construído sobre múltiplos biomas com personalidades próprias. A progressão se baseia na conquista de habilidades específicas que permitem abrir áreas antes inalcançáveis, incentivando o famoso backtracking característico dos metroidvanias clássicos.

O game é complexo e não faz concessões ao jogador. Seu nível de dificuldade é alto, tanto nos combates regulares quanto, principalmente, nos confrontos contra chefes. Cada inimigo comum já exige atenção, posicionamento e leitura de padrões, mas é nos chefes que o desafio realmente escala. São batalhas longas, agressivas, com múltiplas fases e janelas de punição severas para erros mínimos.

Essa dificuldade elevada não parece gratuita. Ela reforça a sensação de que Constance está enfrentando demônios internos maiores do que ela, lutando contra projeções de medo, cobrança e colapso emocional. Cada vitória traz um sentimento de que mecânica e narrativa, de fato, caminham juntas.

Constance
Até mesmo alguns chefes tem atitudes e aparências melancólicas (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Movimentação e fluidez

Entre os maiores acertos de Constance está a movimentação. A protagonista utiliza um pincel como arma e ferramenta, e parte do seu poder envolve “transformar-se em tinta”, permitindo deslizar pelo cenário ou movimentar-se de forma mais fluida entre plataformas. Essa mecânica dá personalidade ao game e torna a exploração dinâmica.

A movimentação suave contrasta com a precisão necessária para superar trechos de plataforma. O título apresenta áreas realmente desafiadoras, com sequências que exigem domínio total das habilidades desbloqueadas. Isso garante variedade ao ritmo da campanha e reforça a sensação de progressão do jogador.

Constance
Não tenho, Robert (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Chefes memoráveis

Os chefes merecem destaque à parte. Além de visualmente marcantes, eles exigem domínio completo do kit de habilidades e atenção às mudanças de padrão em tempo real. A batalha por cada Lágrima funciona quase como uma sessão de terapia violenta: você enfrenta versões distorcidas de emoções e conflitos pessoais da protagonista, e cada vitória abre pequenos espaços de alívio, tanto para Constance quanto para o jogador.

Uma narrativa sobre sobreviver

Mesmo com metáforas visuais, Constance não esconde de que trata. É um game sobre cansaço, sobre ser esmagado por expectativas externas, sobre encontrar voz própria e recuperar partes de si que foram consumidas por pressões profissionais e familiares.

Constance
Faça tudo direitinho. (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

A história nunca se torna melodramática, nem explora sofrimento de forma gratuita. Pelo contrário, trata os temas com respeito e sutileza, equilibrando momentos de leveza e humor com tensão emocional constante. É um jogo que te convida a refletir, que te lembra de respirar, que te pede para fazer pausas e esse pedido não é retórico.

Direção artística e identidade visual

O visual é um espetáculo. A estética de desenhos feitos à mão cria uma atmosfera quase onírica, com cores que oscilam entre o vibrante e o melancólico. Tudo parece pintado com intenções precisas: cada cenário comunica um estado mental, cada criatura simboliza um ruído interno, cada bioma tem vida própria.

O trabalho de arte harmoniza com a proposta do metroidvania, tornando cada área visualmente distinta sem quebrar a unidade do mundo. A animação da tinta, do pincel e das habilidades reforça a personalidade do game.

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Como ousa ficar sentada o dia todo e não fazer nada? (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Performance, som e aspectos técnicos

A experiência técnica foi sólida durante minha jogatina antecipada. Joguei toda a aventura no Steam Deck e o game rodou sem quedas bruscas e com tempo de carregamento aceitável. A trilha sonora complementa bem o clima introspectivo e melancólico, enquanto os efeitos sonoros dão peso aos combates.

A localização em português do Brasil é um afago para nós, o que ajuda bastante na imersão, especialmente considerando o teor emocional da narrativa.

Constance
Vamos superar isso, Constance! (Imagem: Reprodução/Lucas Soares)

Vale a pena jogar Constance?

Constance é, acima de tudo, um metroidvania difícil, daqueles que realmente exigem precisão, atenção e resiliência, especialmente nos chefes. Mas o título também mostra sensibilidade ao oferecer opções de acessibilidade que permitem suavizar boa parte dessa dureza, abrindo espaço para quem quer curtir a narrativa, a arte e o simbolismo sem enfrentar tanta pressão. Esse equilíbrio faz com que o game funcione tanto para quem busca um desafio clássico quanto para quem prefere uma experiência mais tranquila e focada na mensagem.

Para quem busca um game que vá além do óbvio, que ofereça dificuldade real e que trate saúde mental com maturidade, Constance é uma recomendação fácil.

Constance chegará para PC, via Steam, no dia 24 de novembro. O game conta com uma demo gratuita disponível na plataforma.

*Review elaborada em um Steam Deck OLED, com código fornecido pela ByteRockers’ Games.

Constance

8.8

História

9.0/10

Gráficos e Sons

9.5/10

Gameplay

8.5/10

Extras

8.0/10

Prós

  • Direção de arte desenhada à mão, belíssima e marcante
  • Metroidvania complexo, com progressão sólida e mapa amplo
  • Chefes desafiadores e memoráveis
  • Movimentação fluida com a mecânica de tinta
  • Boas opções de acessibilidade para suavizar a dificuldade

Contras

  • Dificuldade elevada pode afastar parte do público
  • Trechos de plataforma bastante punitivos
  • Combates intensos podem ser frustrantes para iniciantes

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.