Kirby Air Riders | Review
Lembra daqueles brinquedos de criança que vinham com um manual de uma página só, mas que você passava horas inventando regras novas? Kirby Air Riders é a versão videogame dessa sensação. É um jogo que te entrega um volante, um botão de freio e te joga num parque de diversões psicodélico, onde as regras do que é uma “corrida” foram rasgadas e coladas de volta com cola colorida. O resultado é uma das sequelas mais inesperadas e, pasme, mais redondas que a Nintendo já tirou da cartola – mesmo que, para apreciá-la, você precise abraçar o caos e esquecer tudo o que sabe sobre jogos de corrida.
Desenvolvido por estúdios Bandai Namco sob a batuta da empresa Sora – de Masahiro Sakurai, o mesmo visionário por trás de Super Smash Bros. –, Kirby Air Riders chega como uma evolução direta do cultuado Kirby Air Ride do GameCube. E faz uma pergunta ousada: e se um jogo de ação veicular precisasse apenas de um botão para funcionar?
A resposta, após mais de 15 horas de puro delírio, é complexa. Este é um jogo estranhíssimo, cheio de personalidade, repleto de conteúdo até a raiz dos cabelos e, em certos momentos, frustrantemente limitado pelas próprias amarras que ele escolheu não soltar. Mas, cá entre nós, eu adorei meus tempo nessa bagunça.
Ao longo desta análise para o Pizza Fria, vou te contar por que Kirby Air Riders é um jogo que você precisa conhecer, mas não necessariamente ter no seu Nintendo Switch 2. E a resposta não é simples.
A estrutura de um delírio: controles minimalistas
A premissa é enganosamente simples: você pilota uma nave (ou máquina, Kirby Air Riders usa os dois termos), uma espécie de planador motorizado, que acelera sozinho. Seu trabalho não é acelerar, mas frear, desviar, planar e atacar. Tudo isso com o analógico esquerdo e um único botão principal, que funciona como freio e, quando mantido pressionado, carrega um turbo. Um segundo botão foi adicionado em relação ao original do GameCube, mas sua função é basicamente lançar seu ataque especial.
Soa fácil? Pois seria um engano achar que é fácil. Pilotar uma dessas máquinas flutuantes é como tentar dirigir um disco de hóquei no ar. A sensação é escorregadia, antinatural, e cada uma das mais de 20 naves disponíveis tem uma física própria que vira o jogo de cabeça para baixo.Uma delas, por exemplo, só consegue fazer curvas enquanto você freia. A Estrela a Jato é um lesma no asfalto, mas ganha jatos explosivos de velocidade cada vez que levanta voo – o que te obriga a memorizar cada rampa do cenário como um piloto de caça.

Dominar essas nuances é onde mora a genialidade – e a barreira intransponível. Kirby Air Riders não se parece em nada com Mario Kart. Enquanto o encanador bigodudo é a porta de entrada perfeita para qualquer um, Kirby exige um período de adaptação que lembra ensinar um jogo de tabuleiro complexo para amigos. Não é intuitivo. Vai confundir. Vai fazer você perder feio nas primeiras dez corridas, parar a máquina e ficar apra trás.
Mas, uma vez que o clique acontece, é pura magia – e um tanto de memorização. A sensação de ritmo ao dosar o freio para curvas fechadas, o timing perfeito para planar e ganhar um boost, a estratégia de seguir o rastro de estrelas deixado pelo oponente da frente para pegar vácuo… Tudo se encaixa numa coreografia veloz e hipnótica. É um controle minimalista que esconde uma profundidade técnica surpreendente, mesmo que, no fim do dia, ele ainda tropece em suas próprias limitações.

Principais modos de jogo
Kirby Air Riders se sustenta em quatro modos principais, cada um com uma proposta radicalmente diferente.
Rali Rasante: O modo de corrida “tradicional”. São quase 20 pistas (entre inéditas e outras tantas remasterizadas do original) para até 6 corredores. O desenho delas é excepcional. Cada uma é uma montanha-russa visual, cheia de caminhos secretos, rampas para decolar, efeitos deslumbrantes e uma trilha sonora eletrizante. A velocidade é alta, o caos é gerenciável, e é aqui que a jogabilidade mais brilha. A principal melhoria em relação ao GameCube é que você sente muito mais no controle – derrotar inimigos dá boost, planar com perfeição dá boost, seguir a linha ideal dá boost. Você está sempre tomando decisões a todo milissegundo.
Vista Aérea: Uma perspectiva distante das pistas miniatura baseadas nos circuitos principais. É divertidinho para ser casual, mas, no geral, o menos interessante do pacote. Ótimo para receber as visitas com rápidas corridas ao estilo de autoramas.

Prova Urbana: Aqui está a alma do jogo. O modo que justificou o culto ao original em 2003 e que, mais de 20 anos depois, segue absolutamente insano e viciante. Até 16 pilotos são lançados num mapa gigante com um único objetivo: nos 5 minutos iniciais, saquear o cenário atrás de melhorias de estatística e máquinas melhores, enquanto atacam uns aos outros e lidam com eventos aleatórios (como um chefão aparecer ou um OVNI cheio de itens sobrevoar a área).
A magia está no descontrole controlado. Você pode focar em construir a máquina perfeita para um tipo específico de desafio final… ou pode apenas surfar na onda do caos, aproveitando os acontecimentos. Aprender cada canto do mapa, descobrir que mergulhar no vulcão rende itens raros, ou tentar montar uma Máquina Lendária (algo tão raro que parece um evento cósmico) é incrivelmente recompensador. É um modo para rir alto, seja destruindo a máquina do seu amigo e vendo ele correr a pé desesperado, seja tentando montar uma estratégia que o acaso vai desfazer em segundos.
Porém, o calcanhar de aquiles: O jogo tende a sobrecarregar. Com muitas melhorias, a máquina fica tão rápida e desgovernada que a estratégia vai pro ralo. E a escolha do minijogo final (o “estádio”) é pura sorte. Tanto no online quanto no local, jogadores decidem qual desafio querem baseados em suas máquinas, o que cria certa fratura no grupo. Caso não seja uma atividade ideal para você, lá se foi toda a sua estratégia dos últimos 5 minutos.

Pé na Estrada: A campanha para um jogador. Uma espécie de “Mundo da Luz” do Smash Bros., mas com Kirby. Você viaja por uma estrada de três pistas, escolhendo desafios curtos baseados nos outros modos para ganhar recompensas e melhorar sua máquina. É uma divertida desculpa para ver referências da história do Kirby e desbloquear itens, mas brilha menos que os modos principais. Insisti em tentar encontrar um multiplayer escondido, mas não há. Pior: muitos desafios focam em combate 1v1, onde os controles minimalistas mostram sua pior face – a imprecisão para mirar em um alvo específico em alta velocidade é fonte de pura frustração.
Além disso, há eventos sazonais online e acesso online para todos os modos, sem contar com o tutorial em capítulos, que explica todos os detalhes de Kirby Air Riders. TODOS. Aparentemente, não há ponto-cego neste jogo.
No link abaixo, deixo minha primeira hora e meia com Kirby Air Riders. O vídeo mostra a belíssima abertura e nele faço um passeio pela Autoescola, por algumas corridas diferentes, além de test-drives nos modos Prova Urbana e Pé na Estrada.
Muito conteúdo: tanto para fazer, tanto para dominar
Onde Kirby Air Riders realmente impressiona é na quantidade indecente de coisas para fazer. São 750 “conquistas” divididas em listas para cada modo. Elas não são apenas troféus ou conquistas no sentido tradicional dos jogos; elas desbloqueiam personagens, máquinas, mais pistas, músicas, cores alternativas para pilotos, adesivos e acessórios de personalização. É muito legal ver como, ao pouco, superar os desafios preencher a grade de um pôster.
E o sistema é inteligente: você pode tentar uma conquista diretamente da lista, e o jogo configura os requisitos automaticamente.

Isso recontextualiza todo um monte de coisas. Entrar numa corrida não é só para vencer; é para “derrotar um Scarfy sem deixá-lo bravo” ou “planar por 10 segundos consecutivos”. O fator replay é monstruoso. Depois de 10 horas, ainda tinha muito além de 300 conquistas por fazer. É viciante no melhor sentido.
A personalização também é profunda. Você ganha moedas em tudo que faz (nenhuma microtransação) e gasta em pinturas, adesivos e acessórios para criar máquinas únicas. Há até um mercado online para baixar as criações de outros. É um toque de personalidade que eleva o conjunto.

Desempenho, tradução e o preço
Tecnicamente, o jogo é impecável. Rodando a 60 FPS sólidos até no multiplayer local (testei apenas jogado com dois jogadores), o visual mantém o charme poligonal e colorido do Cube, mas com efeitos de luz, partículas e uma limpeza que o deixam lindo em TVs modernas. A trilha sonora é uma mistura energética de rock e eletrônica que gruda na cabeça.
E aqui, um aplauso: a localização para o português do Brasil é completa e fantástica. Todos os textos estão traduzidos, os nomes dos modos são criativos (Rali Rasante, Vista Aérea) e, a cereja do bolo, há um narrador brasileiro que grita “PRONTO!” e “INCRÍVEL!” durante as corridas, com a mesma energia dos narradores de Smash Bros. É um capricho que faz toda a diferença.

E vale o preço?
É uma pergunta maldosa. Kirby Air Riders é um jogo específico. Não é para todos. Se você busca a acessabilidade imediata de um Mario Kart ou a precisão técnica de um Smash Bros., vai se decepcionar. Este é um jogo de combate de navinhas estranhas que funciona melhor quando todos os jogadores estão no mesmo nível (baixo ou alto) de entendimento dos controles escorregadios.
Joguei a Prova Urbana com minha mulher e, nas primeiras rodadas, ela torceu o nariz, não entendeu a lógica do caos. Depois de algumas partidas, riu da bagunça, da imprevisibilidade. Mas seu veredito foi claro: “É divertido, mas não é um jogo para o qual eu voltaria.” E ela tem razão.

Meu parecer é que, para mim, Kirby Air Riders vale o investimento, mas reconheço que eu seria exceção nessa enquete. É um pacote redondo, feito com amor e transbordando de tarefas. Mas no cenário brasileiro, por R$ 439,90 na Loja Nintendo, a recomendação não pode ser cega.
Se você jogou e amou o original no GameCube, talvez esta seja uma compra obrigatória. Se você é fã do estilo Sakurai de jogos (profundidade escondida sob uma simplicidade aparente, toneladas de desbloqueáveis, caos controlado) e tem amigos dispostos a aprender, é um investimento que renderá até mesmo centenas de horas de risadas e desafios.
Se você é um jogador mais casual que só quer uma corrida rápida e divertida com a família no fim de semana, fique com Mario Kart 8 Deluxe ou Mario Kart World. Kirby Air Riders não perdoa a falta de engajamento.

Vale a pena jogar Kirby Air Riders?
Kirby Air Riders é a definição de um jogo cult em forma de sequência com orçamento generoso e desenvolvido por um time muito competente. É tão maluco quanto maravilhoso. Sua ousadia em manter um esquema de controle de um botão é ao mesmo tempo sua maior força e sua maior fraqueza, criando uma identidade única entre os jogos, mas erguendo uma barreira intransponível para muitos.
Ele é uma celebração do caos, da personalização, da rejogabilidade pura só pela diversão e do prazer de dominar um sistema que parece, à primeira vista, desgovernado. A Prova Urbana continua sendo um dos modos multiplayer mais originais e engraçados já feitos, e a quantidade de coisas para desbloquear é digna de um Smash Bros, bem parruda.
No fim das contas, Kirby Air Riders não é sobre vencer. É sobre aproveitar o passeio. É sobre rir da desgraça alheia quando um meteoro cai no seu amigo, sobre a satisfação de finalmente montar aquele planador perfeito na Prova Urbana (e ver tudo dar errado, ou não), e sobre a alegria simples de planar por uma pista linda a 200 km/h ao som de uma guitarra distorcida com pilotos fofinhos.
É um jogo estranho, maravilhoso, frustrante e viciante. E, por tudo isso, absolutamente digno do seu olhar. Só entre nessa nave sabendo que o piloto automático está quebrado – e que a maior diversão está justamente em aprender a voar sem ele. Um voo turbulento, mas muito único. Eu vou continuar jogando sozinho, pelo visto, por umas 30 horas, até completar tudo.
Kirby Air Riders foi lançado exclusivamente para Nintendo Switch 2 em 20 de novembro.
*Review elaborada em um Nintendo Switch 2, com código fornecido pela Nintendo.
Kirby Air Riders
R$ 439,90Prós
- Controle minimalista de um botão que esconde uma profundidade técnica surpreendente.
- Modo Prova Urbana permanece um dos multiplayer mais originais e caóticos já feitos.
- MONTANHA de conteúdo: 750 conquistas com desbloqueios significativos e rejogabilidade monstruosa.
- Localização impecável para o português do Brasil, com narração nativa e textos integrais.
- Performance sólida a 60 FPS e sistema de customização interessante.
Contras
- Curva de aprendizado íngreme e controles escorregadios que podem afastar jogadores casuais.
- Modo Pé na Estrada (campanha) e combates 1v1 expõem a imprecisão dos controles.
- Preço elevado no Brasil (R$ 439,90) para uma proposta de jogo muito específica e nichada.


