Crimson Moon | Review

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Entrar em Crimson Moon, jogo da ProbablyMonsters lançado para PC, via Steam e Epic Games Store, PlayStation 5 e Xbox Series X|S, é meio que lidar com uma proposta que, no papel, parece feita para reunir vários elementos dos jogos de ação modernos. No game, temos estrutura roguelike, combate inspirado em soulslike, progressão baseada em equipamentos, modo coop, builds variadas e chefes bem difíceis. Teoricamente, são peças que poderiam se encaixar muito bem. Na prática, porém, a experiência é um pouco mais complexa, e explicarei isso adiante.

A premissa de Crimson Moon chama atenção. Em um passado marcado por uma guerra entre o bem e o mal, a humanidade precisou recorrer a um caminho considerado herético: unir sua existência à proteção de anjos. Daí surgiram os Nephilim, humanos protegidos por forças angelicais e usados como soldados contra diversas criaturas. Até aí, temos uma história meio gótica, com toda a pompa de uma igreja poderosa, armaduras pesadas e poderes insanos.

Desta forma, somos colocados em meio a toda essa narrativa. Cada jornada funciona como uma tentativa de avançar de maneira gradativa, reunindo recursos, caçando equipamentos melhores e descobrindo combinações variadas de criar builds poderosas. Assim, quando tudo começa a encaixar, existe uma experiência interessante aqui. Mas será que isso basta para nós, meros mortais jogadores e jogadoras? Isso e muito mais será abordado nesta análise. Chega mais!

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Uma narrativa simples para um jogo repetitivo

A narrativa de Crimson Moon é muito simples e direta. Como já mencionei no início, existe uma ameaça sobrenatural neste mundo, existe uma guerra antiga entre os Nephilim contra forças malignas por trás de tudo e existe também a necessidade de encontrar determinados itens até chegar ao confronto final. Isso funciona como justificativa para as runs e para a repetição típica do gênero.

O problema é que o jogo praticamente não faz muita força para transformar essa premissa em algo realmente memorável. Os personagens secundários aparecem em raras ocasiões, muitas vezes resumidos a uma única cena ou função, raramente desenvolvendo algum traço de personalidade suficiente para causar impacto. Existe também um antagonista mais recorrente, mas infelizmente ele parece mais uma ferramenta para mover a história do que uma presença realmente marcante.

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Com tantos elementos legais, a narrativa deveria ter sido bem melhor. (Imagem: Reprodução)

Até aí, tudo bem. Roguelikes normalmente fragmentam sua narrativa entre várias tentativas, e criar uma trama cheia de detalhes pode virar uma bagunça. Ainda assim, Crimson Moon parece ter um universo mais interessante do que a história consegue mostrar. Há anjos, heresia, Igreja, Nephilim, deuses antigos e criaturas sobrenaturais. Isso daria espaço para muito mais. Warhammer 40K, por exemplo, explora isso de uma maneira surreal.

Crimson Moon até tenta compensar essa falta com colecionáveis de lore espalhados pelo mundo, mas está longe de ser suficiente. Ainda assim, para quem quiser saber mais sobre a história do jogo, é preciso parar e ler bastante, algo que dificilmente vamos querer fazer entre os momentos de ação. Com isso, fica claro que ter um bom universo não é exatamente o mesmo que contar uma boa história…

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Crimson Moon tem personalidade. (Imagem: Divulgação)

Combate simples, jogabilidade complexa

A base do combate de Crimson Moon segue uma lógica conhecida para quem já jogou qualquer soulslike. Atacar, esquivar, aparar, observar padrões e esperar a hora certa para agir. Não há uma quantidade absurda de sistemas concorrendo pela atenção, e isso torna a adaptação relativamente rápida para quem conhece o gênero. Ainda assim, ela parece ter sido muito mal pensada para ser jogada no mouse e no teclado, deixando muito a desejar neste ponto. No controle a coisa fica mais “tranquila”, mas ainda assim parece precisar de um certo refino que faz toda a diferença neste gênero.

De toda forma, essa simplicidade de jogabilidade até tem um lado positivo. Eu não precisava gastar horas decorando combinações gigantes ou tentando entender uma dúzia de recursos diferentes. Tudo era bem direto, apesar da dificuldade com os controles. Assim, minha atenção conseguia ir para as builds, para os equipamentos e para a interação com outro jogador no cooperativo. No entanto, ao longo da jogatina, Crimson Moon fica bem mais do mesmo, sendo repetitivo e cada vez mais previsível.

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Jogar com amigos é mais interessante. (Imagem: Divulgação)

Progressão acerta, mas mostra fraquezas

Se existe um elemento que sustenta Crimson Moon, é o sistema de progressão roguelike que, embora mostre as fraquezas do jogo, tem um bom formato. Praticamente tudo passa pelos equipamentos encontrados durante as runs, que vão sendo salvos em sua base, que é uma enorme e exagerada igreja. Armas e armaduras podem aparecer com propriedades chamadas Boons, que adicionam efeitos passivos, habilidades e bônus de atributos. Porém, falta variedade.

De toda forma, esses Boons criam combinações interessantes. É possível encontrar efeitos que queimam inimigos após bloquear ataques, liberam magia, aumentam vida, melhoram defesa e por aí vai. Como tudo gira em torno destes equipamentos, mudar de build também é relativamente simples. A cada conjunto, um estilo diferente de build. É legal essa ideia, mas ela esbarra nas limitações da jogabilidade e até mesmo dos itens, que vão se repetindo. O que salva em meio a tudo isso é que os Boons são mais variados.

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Não tem muito mistério no formato apresentado pelo jogo. (Imagem: Reprodução)

Mas falando das armas, a quantidade delas foi uma das minhas maiores decepções com Crimson Moon (juntamente com a jogabilidade). Existem algumas opções de uma mão e outras de duas mãos, mas, no geral, elas não alteram tanto assim a forma de jogar ou até mesmo os modelos. A principal diferença costuma ficar em alcance, velocidade e dano, quando poderia existir uma mudança mais profunda de estilo. Se não fosse pelos Boons, o jogo estaria meio que “condenado” a limitações absurdas.

O tutorial não ajuda

Um problema bem sério em Crimson Moon está na forma como o jogo NÃO explica seus próprios sistemas. Tá, tudo bem que existe um tutorial, mas ele cobre apenas conceitos muito básicos e deixa praticamente toda a meta-progressão para descobrirmos por conta própria. Complicado isso aí, né? Como loadouts funcionam? Como equipamentos são desbloqueados? Como melhorar determinados sistemas? Essas e outras tantas perguntas são respondidas tarde demais ou simplesmente precisam ser descobertas na tentativa e erro.

Tudo bem, explorar alguns sistemas pode ser uma experiência diferente e até divertida em alguns jogos, mas não é o caso em Crimson Moon. Afinal, existe uma grande diferença entre descobrir uma interação interessante e descobrir uma restrição importante vinte minutos depois de já ter tomado uma decisão errada e ter perdido uma run.

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O tutorial não fala muita coisa, e isso é meio desanimador. (Imagem: Divulgação)

O resultado de tudo isso é uma curva de aprendizado frustrante por muitos motivos errados. A dificuldade que também está nos inimigos e nos chefes, também aparece em descobrir regras básicas que o jogo simplesmente esqueceu de explicar. Aí fica difícil defender. A sensação que tive é que Crimson Moon é um jogo que precisa de um bom tempo para ser apreciado. No entanto, confesso que não tenho toda essa paciência de “estudar” um jogo, ainda mais em um estilo tão prático.

Jogo entrega uma boa qualidade visual mas se limita no áudio

No aspecto gráfico, Crimson Moon tem momentos que me agradaram demais. Os ambientes construídos na Unreal Engine possuem boa iluminação, cenários detalhados e uma atmosfera que combina com a mistura de religião, horror e fantasia sombria. Dentro da base, que é meio que o lobby do jogo, toda essa qualidade e detalhamento ficam explícitos, o que é bem bacana. Com isso, percebe-se aqui um cuidado visual claramente maior do que alguns outros aspectos do jogo. Certos ambientes conseguem ter personalidade. Além disso, o uso de luz, sombras e efeitos sobrenaturais também ajuda bastante na atmosfera.

No entanto, Crimson Moon não é um jogo que redefine o padrão visual do gênero, mas está entre seus elementos mais competentes. Em várias áreas, eu sentia curiosidade para seguir em frente e ver qual cenário apareceria depois só para ver a evolução da produção. O problema é que toda essa beleza sozinha não consegue esconder os problemas do jogo. Quando a câmera falha, quando a progressão não é explicada ou quando mais uma arma parece quase igual à anterior, o visual vai perdendo o brilho.

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Olha só a qualidade visual deste ambiente. (Imagem: Reprodução)

Já a parte de áudio de Crimson Moon não tem esse mesmo detalhamento. Tá, ela funciona bem, com golpes possuindo uma sensação de impacto suficiente, os inimigos têm sons reconhecíveis e os efeitos sobrenaturais combinam com a atmosfera. A trilha sonora acompanha bem os combates e momentos mais tensos, criando clima. Contudo, são bem simples e nada marcantes.

No geral, é um trabalho competente, mas parecido com boa parte do restante de Crimson Moon: existe alguma qualidade, mas nem sempre identidade suficiente para deixar uma marca realmente forte. Felizmente, o áudio não compromete a experiência, mas também não consegue compensar os problemas existentes em outras áreas.

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Morrer é algo constante em Crimson Moon. (Imagem: Reprodução)

Vale a pena jogar Crimson Moon?

Crimson Moon até tem um possível jogo interessante dentro de todas essas ideias. O sistema de Boons funciona bem, as builds criam boas possibilidades, o cooperativo adiciona uma camada social e alguns chefes conseguem entregar combates satisfatórios. Quando uma run encaixa, com equipamentos certos, eu até conseguia entender exatamente o que os desenvolvedores queriam criar.

O problema é tudo que existe entre o jogador e esses bons momentos. O tutorial praticamente nos abandona, a seleção de armas é pequena demais para um sistema de builds tão amplo, a câmera pode transformar combates justos em mortes frustrantes, a jogabilidade soa pouco refinada e várias ideias parecem interrompidas antes de atingirem todo o potencial.

A narrativa também poderia fazer mais por onde. Nephilim, anjos, Igreja, vampiros e deuses antigos formam uma premissa promissora, mas a campanha é simples demais e depende muito de textos espalhados para preencher suas lacunas. Não considero isso o pior para um roguelike, mas é mais uma área em que senti que havia algo melhor tentando aparecer.

Por isso, minha relação com Crimson Moon terminou de forma abrupta e meio desanimadora. Eu me diverti depois que consegui entender suas regras e construir personagens melhores? Sim, mas custou muito tempo, e aí a vontade já tinha ido embora. Há uma base legítima para algo bom, mas ela está cercada por decisões que tornam a experiência desnecessariamente difícil de apreciar.

Desta forma, Crimson Moon fica no território daqueles jogos que eu ainda vejo potencial, mas que não me cativou. Assim, atualizações como uma câmera melhor, explicações mais claras, mais armas e algumas melhorias de qualidade de vida poderiam mudar bastante essa experiência. No entanto, hoje a diversão ainda precisa ser escavada por baixo desses tantos problemas que o próprio jogo colocou no caminho.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela ProbablyMonsters.

Crimson Moon

BRL 72,95+
6.1

História

6.5/10

Jogabilidade

5.0/10

Gráficos e sons

8.0/10

Extras

4.8/10

Prós

  • Progressão roguelike é fácil de entender depois de aprendida
  • Visual e atmosfera são bem interessantes
  • Jogo oferece grande variação de builds através dos equipamentos
  • Legendado em português brasileiro

Contras

  • Pouca variedade de armas
  • Narrativa aproveita pouco uma premissa interessante
  • Jogabilidade pouco fluida e meio complexa, sobretudo no teclado e mouse
  • Câmera e lock-on prejudicam o combate em alguns momentos
  • Jogo requer muita paciência para ser aprendido e minimamente apreciado

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.