Forever Ago | Review
Quando tive meu primeiro contato com Forever Ago, ainda em sua curta demonstração, uma coisa parecia bastante clara: a Third Shift estava muito mais interessada em contar uma história do que em construir uma aventura mecanicamente complexa. Naquele momento, entretanto, ainda havia perguntas importantes. Não sabíamos exatamente quem era Audrey, o que motivava Alfred a pegar sua van e seguir viagem ou até onde elementos como fotografia, exploração e possíveis quebra-cabeças conseguiriam sustentar uma experiência completa.
Depois de aproximadamente quatro horas e com os créditos na tela, algumas dessas respostas são até mais simples do que eu imaginava. Forever Ago praticamente não possui puzzles, oferece pouquíssimas escolhas e poderia facilmente ser classificado como um walking simulator. Ao mesmo tempo, encontrei uma narrativa sensível sobre amor, perda e as memórias construídas durante uma vida inteira ao lado de alguém. E, no final das contas, é justamente essa simplicidade que permite ao jogo concentrar suas forças naquilo que realmente importa. Confira nossa review completa!
Uma viagem construída sobre uma vida inteira
A viagem de Alfred começa após uma grande perda. Audrey, sua esposa e companheira durante décadas, está constantemente presente mesmo quando não está fisicamente ao lado do protagonista. Lugares, músicas, fotografias e pequenos objetos funcionam como gatilhos para lembranças de diferentes momentos da relação entre os dois.
A premissa me lembrou bastante Tudo Acontece em Elizabethtown, filme no qual uma viagem acaba sendo guiada por um material deixado por alguém importante e se transforma em uma forma de revisitar sentimentos, lugares e memórias. Em Forever Ago, Audrey deixa para Alfred um diário que funciona de maneira semelhante: mais do que simplesmente indicar destinos, ele acaba conduzindo o protagonista por momentos da vida que os dois construíram juntos. A comparação não está exatamente nos acontecimentos, mas nessa ideia de utilizar uma viagem como ferramenta para lidar com a perda e, principalmente, encontrar alguma forma de seguir em frente.
É por meio dessas memórias que Forever Ago constrói boa parte de sua narrativa. O jogo constantemente alterna o presente, com Alfred sozinho em sua viagem, com diferentes períodos de sua vida ao lado de Audrey. Conhecemos desde momentos iniciais da relação até acontecimentos muito mais recentes, construindo gradualmente uma visão sobre quem eles eram juntos.

Essa estrutura poderia facilmente cair em uma tentativa exagerada de emocionar o jogador, mas considero que Forever Ago consegue evitar boa parte dessas armadilhas. Existem momentos tristes e o tema central naturalmente envolve luto, mas a história também dedica bastante espaço às pequenas coisas que formam um relacionamento. Conversas, brincadeiras, lugares especiais e situações aparentemente insignificantes acabam ganhando importância justamente porque carregam uma memória.
A direção de arte também ajuda a representar essas diferentes lembranças. Momentos felizes surgem com cores mais vivas, enquanto passagens emocionalmente mais pesadas recebem uma aparência mais escura. Não é uma linguagem particularmente complicada, mas funciona muito bem dentro da proposta e ajuda o jogador a compreender imediatamente o peso de cada lembrança para Alfred.
Mesmo com aproximadamente quatro horas de duração, o protagonista também passa por uma evolução bastante satisfatória. Alfred não começa e termina a jornada exatamente no mesmo lugar emocionalmente, e isso é importante em uma história tão curta. Seu comportamento, suas conversas e principalmente sua relação com aquilo que encontra durante a viagem conseguem demonstrar gradualmente essa transformação.
Uma companheira inesperada
Um dos melhores exemplos dessa evolução está justamente em uma personagem que já havia aparecido durante minha preview: uma pequena cachorrinha encontrada por Alfred durante sua jornada.

Inicialmente, parecia que ela seria pouco mais do que uma companhia simpática para quebrar um pouco a solidão da viagem. Na aventura completa, entretanto, sua presença cresce consideravelmente. Ela acompanha Alfred, participa de diferentes momentos da história e gradualmente deixa de parecer apenas um elemento colocado no cenário para realmente se transformar em sua companheira.
Há inclusive um pequeno momento em que podemos escolher seu nome entre algumas opções. Assim como praticamente todas as decisões disponíveis em Forever Ago, isso não modifica substancialmente os acontecimentos ou cria caminhos narrativos diferentes. Ainda assim, é justamente o tipo de pequena interação que funciona dentro da proposta, pois aumenta um pouco nossa conexão com aquela relação.
Os demais personagens possuem participações bastante pontuais. Normalmente, cada nova região apresenta alguém com quem Alfred poderá conversar ou interagir durante aquele trecho da aventura. São poucos personagens além dos protagonistas, mas todos cumprem bem suas funções dentro da história e ajudam a impedir que a jornada se transforme apenas em uma sequência de monólogos.

Fotografias, pétalas e lembranças
A fotografia, apresentada ainda durante a demo como uma das principais mecânicas de Forever Ago, acaba sendo bem mais uma ferramenta narrativa do que propriamente um sistema complexo de gameplay.
Durante a exploração, encontramos pequenos conjuntos de pétalas espalhados pelos cenários. Algumas memórias exigem dois grupos, outras três, e encontrar todos os conjuntos relacionados libera uma nova lembrança envolvendo Alfred e Audrey.
É importante destacar que esse conteúdo é opcional. Você não precisa encontrar todas as pétalas para concluir a campanha, e ignorá-las não impede a progressão principal. Ainda assim, eu considero difícil recomendar que alguém simplesmente passe direto por elas. As memórias adicionais ajudam a compreender melhor o relacionamento dos protagonistas e complementam justamente o aspecto mais interessante da experiência.

A câmera também pode ser utilizada livremente em determinados momentos. O jogador pode fotografar paisagens, objetos ou qualquer outra coisa que considere interessante e, ao final de cada trecho da viagem, selecionar algumas dessas imagens para complementar o diário de Alfred.
Não estamos falando de um sistema fotográfico profundo, com grandes preocupações envolvendo enquadramento, foco ou configurações avançadas. Novamente, Forever Ago utiliza a mecânica muito mais como uma extensão de sua narrativa. As fotografias que tiramos acabam funcionando quase como nossas próprias lembranças daquela jornada, enquanto as pétalas servem para recuperar as memórias do protagonista.
É uma solução simples, mas bastante coerente com um game cuja história gira justamente em torno da maneira como registramos momentos e do significado que eles ganham com o passar dos anos.

Um walking simulator sem vergonha de ser simples
Quem estiver procurando puzzles, sistemas de progressão ou qualquer grande variedade mecânica precisa chegar a Forever Ago sabendo exatamente o que encontrará. Em termos de gameplay, estamos diante de uma experiência extremamente simples.
Na maior parte do tempo, controlamos Alfred em pequenos cenários tridimensionais, caminhamos até algum ponto de interesse, observamos objetos e pressionamos um botão para continuar determinada interação. Não há inventário tradicional e tampouco quebra-cabeças propriamente ditos. Muitas ações existem basicamente para permitir que a próxima parte da cena aconteça.
Existem algumas escolhas de diálogo e pequenas decisões, como o nome dado à cachorrinha ou determinadas respostas durante conversas, mas nenhuma delas transforma significativamente o rumo da narrativa. Forever Ago tem uma história que deseja contar e deixa bastante claro que o jogador está ali muito mais para acompanhá-la do que para moldá-la.

Isso não chegou a tornar a experiência repetitiva durante minhas quatro horas de jogo. A duração relativamente curta trabalha a favor do título nesse sentido, já que dificilmente uma situação permanece tempo suficiente para se tornar cansativa. Ainda assim, é necessário aceitar desde o início que a interatividade será limitada.
A própria viagem de van é um bom exemplo disso. O veículo possui importância emocional na história e existe até uma pequena escolha relacionada à sua aparência, mas nós nunca dirigimos. Os deslocamentos entre as regiões acontecem por meio de transições, fazendo com que a prometida sensação de road trip seja mais narrativa do que mecânica.
Os ambientes ajudam a compensar um pouco isso. São pequenas regiões com alguns espaços mais abertos, colecionáveis e pontos interessantes para fotografar, embora o caminho principal seja sempre bastante claro. Não existe uma exploração particularmente aprofundada, mas há espaço suficiente para observar o cenário antes de seguir em frente.

Quando a lentidão deixa de ser apenas narrativa
A movimentação lenta de Alfred continua sendo uma característica interessante. Como já havia percebido durante a demonstração, o personagem se movimenta como alguém de sua idade. Abaixar, levantar ou realizar determinadas ações envolve animações um pouco mais demoradas, algo que ajuda a construir sua personalidade sem transformá-lo em uma caricatura. O problema aparece quando essa lentidão passa a interferir diretamente nas interações.
Em diversos momentos, aproximei-me de uma porta ou de algum objeto esperando pelo comando de interação e simplesmente não consegui utilizá-lo imediatamente. Às vezes, isso acontece porque Alfred ainda está terminando algum comentário. Enquanto a fala não acaba, o jogo impede que você prossiga, mesmo estando exatamente diante do próximo objeto necessário.
Eu entendo a intenção. Forever Ago é uma experiência contemplativa e claramente quer que o jogador escute aquilo que Alfred tem a dizer antes de simplesmente correr para a próxima etapa. Só que a execução nem sempre é natural. Em vez de parecer uma escolha narrativa, algumas dessas situações transmitem a sensação de que os controles pararam temporariamente de responder.

Também encontrei pelo menos uma situação na qual a interação e o posicionamento deixaram Alfred preso de uma maneira bastante estranha, sem uma forma clara de simplesmente voltar para onde estava. Não foi algo frequente durante toda a campanha, mas chama atenção justamente porque estamos falando de um jogo tão simples mecanicamente.
São pequenos problemas, mas que afetam o ritmo de uma aventura cuja maior força depende exatamente de manter o jogador conectado com sua narrativa.
Uma direção de arte que combina com a proposta
Visualmente, mantenho a comparação feita durante minha preview com Life is Strange. Não porque os dois títulos sejam idênticos, mas pelo uso de personagens estilizados, ambientes relativamente cotidianos e uma direção de arte capaz de transformar esses locais em espaços interessantes de observar.

As áreas abertas são particularmente bonitas, especialmente quando combinadas com a iluminação e com as paisagens escolhidas para a viagem. A fotografia naturalmente incentiva que o jogador pare por alguns segundos para observar esses ambientes, e encontrei diversos momentos em que simplesmente procurei um enquadramento interessante mesmo sem qualquer obrigação de fazer isso.
Há poucos personagens durante a aventura, mas suas animações e expressões cumprem bem o necessário para uma experiência desse tamanho. Também não encontrei problemas visuais relevantes durante minha campanha.
A trilha sonora merece um destaque ainda maior. Ela acompanha muito bem tanto os momentos contemplativos quanto as passagens emocionalmente mais pesadas e se tornou uma parte fundamental da identidade de Forever Ago. É exatamente o tipo de trilha que sabe quando aparecer e, principalmente, quando deixar o ambiente e os personagens carregarem uma cena.

A dublagem está disponível em inglês e também entrega boas atuações, especialmente entre Alfred e Audrey. Joguei com textos e legendas em português do Brasil e, de modo geral, a localização cumpriu bem seu papel durante toda a experiência.
Desempenho no PC
Se tecnicamente a demonstração já havia apresentado bons resultados, a versão final manteve essa impressão. Joguei Forever Ago em 4K com todas as opções gráficas no máximo e não tive problemas de desempenho. O jogo é relativamente leve e não depende de tecnologias como DLSS, FSR ou geração de quadros para entregar uma experiência bastante fluida.
Também não encontrei travamentos, crashes ou quedas relevantes durante a campanha. Os problemas que citei anteriormente estiveram relacionados às interações e ao comportamento de determinadas ações, não ao desempenho propriamente dito. A instalação ocupa aproximadamente 8,81 GB, algo bastante modesto para uma produção atual e coerente com a escala do projeto.

Vale a pena comprar Forever Ago?
Forever Ago confirmou praticamente tudo aquilo que sua pequena demo prometia. É uma experiência simples, contemplativa e muito mais preocupada em contar uma boa história do que em oferecer sistemas complexos de gameplay.
E talvez essa seja justamente a principal questão antes da compra. Se você espera puzzles, grandes escolhas narrativas ou uma aventura na qual dirigir uma van e explorar livremente estradas faz parte da experiência, provavelmente encontrará algo bem mais limitado do que imaginava. O gameplay consiste essencialmente em caminhar, observar, fotografar e interagir com pontos específicos enquanto acompanha a história.
Por outro lado, quem gosta de jogos narrativos encontrará uma história curta, bem construída e genuinamente emocionante. Alfred e Audrey conseguem transmitir a sensação de duas pessoas que compartilharam uma vida inteira, e as diferentes lembranças apresentadas durante a jornada transformam situações muito simples em momentos carregados de significado.
A duração de aproximadamente quatro horas também torna o preço algo que precisa ser considerado por cada um. Não estamos falando de uma experiência longa e praticamente não existe motivo para uma segunda campanha além de buscar memórias ou colecionáveis deixados para trás. Ainda assim, duração e quantidade de mecânicas não são necessariamente as melhores maneiras de medir aquilo que Forever Ago pretende entregar.
É um jogo que eu recomendaria especialmente para quem possui alguém importante na própria vida. Cada relacionamento possui suas histórias, lugares, músicas, fotografias e pequenas lembranças que talvez só tenham significado para aquelas duas pessoas. Forever Ago entende isso muito bem.
No final, sua maior qualidade está justamente em transformar uma história extremamente particular em algo no qual diferentes jogadores podem enxergar um pouco das próprias vidas. E, mesmo com algumas limitações de gameplay e interações que poderiam ser mais bem resolvidas, a viagem de Alfred conseguiu fazer aquilo que sua preview prometia: contar uma história simples, contemplativa e bastante emocional.
Forever Ago chega nesta quinta-feira, 8 de outubro, para Nintendo Switch 2, PC, via Steam, Xbox e Epic Games Store, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.
*Review elaborado em um PC equipado com uma Geforce RTX, com código fornecido pela Annapurna Interactive.
Forever Ago
Prós
- Narrativa emocionante e muito bem construída
- Relação entre Alfred e Audrey é o grande coração da experiência
- Direção de arte combina perfeitamente com a proposta contemplativa
- Trilha sonora excelente e muito bem utilizada
- Fotografias e memórias opcionais enriquecem a história
Contras
- Gameplay extremamente simples
- Problemas de interação quebram o ritmo em alguns momentos
- Pouca sensação de road trip durante os deslocamentos
- Conteúdo adicional e fator replay são bastante limitados



