Hillthorn | Review

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Quando penso em jogos de investigação, algumas coisas já vêm à mente: coletar pistas, interrogar testemunhas e deduzir os caminhos que um grande mistério pode seguir. Entretanto, de tempos em tempos, alguns jogos desse gênero ainda conseguem me surpreender com ideias originais, e esse é o caso de Hillthorn.

Nessa aventura focada em investigação, desenvolvida pela Fool Moon, temos uma jornada inteiramente construída a partir de decks de cartas. Assim, o game apresenta ao jogador um grande mistério, reunindo vários elementos já conhecidos do gênero investigativo, mas explorando-os de uma maneira pouco convencional.

A ideia é bastante ambiciosa e tem potencial para se destacar como uma experiência única, desde que o título consiga executar bem suas principais propostas. Afinal, será que Hillthorn consegue proporcionar uma jornada tão peculiar quanto surpreendente? Confira agora em mais uma review antecipada do Pizza Fria.

Desaparecimentos misteriosos

Hillthorn é um daqueles jogos em que, desde o momento em que chegamos ao menu principal, já fica evidente que temos uma experiência diferente pela frente. Isso porque, ao contrário dos menus tradicionais, o game já apresenta ao jogador sua principal mecânica de investigação. Para acessar as diferentes abas, precisamos selecionar uma carta e clicar em investigar. É uma forma bastante criativa de introduzir o jogador ao sistema de gameplay que será utilizado ao longo de toda a jornada, e funciona muito bem.

Após isso, selecionamos nosso personagem e a aventura finalmente começa. Uma criança desapareceu, e o protagonista, que é um detetive, foi encarregado de investigar a verdade por trás desse desaparecimento. Apesar de começar de maneira bastante simples e demorar um pouco para engrenar, gostei muito da história apresentada em Hillthorn.

Hillthorn
A narrativa de Hillthorn é o maior destaque, sendo misteriosa e interpretativa do começo ao fim. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

O que realmente torna a narrativa diferenciada é a maneira misteriosa como ela é apresentada, utilizando apenas cartas com imagens e pequenas descrições. Dessa forma, cabe ao jogador interpretar as pistas e construir a narrativa em sua própria mente enquanto desvenda os mistérios apresentados. Em diversos momentos, por exemplo, chegamos a uma região e selecionamos cartas de personagens, cujas reações precisamos analisar cuidadosamente para entender o que estão pensando, se escondem alguma coisa ou até mesmo se estão envolvidos em algo sinistro.

É realmente interessante como o jogo consegue criar um mundo envolvente e interessante de explorar mesmo sem recorrer a diálogos tradicionais. Isso acontece principalmente porque o game sabe utilizar muito bem as imagens presentes nas cartas para instigar o jogador e construir momentos genuinamente intrigantes.

Hillthorn
Além das cartas, o jogo também apresenta um arquivo que contém algumas informações extras para a progressão da história. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

Além das cartas, alguns trechos do game também utilizam imagens adicionais, geralmente quando precisamos visitar novas regiões ou conhecemos personagens importantes para a história. Esses momentos não abandonam a proposta de manter as cartas como foco da experiência, mas oferecem um destaque visual extra a determinados segmentos da narrativa. É um recurso muito bem-vindo, pois ajuda a transmitir a sensação de progresso ao longo da campanha.

Vale destacar também que Hillthorn conta com legendas em PT-BR, o que é ótimo para o público brasileiro, que poderá acompanhar a narrativa sem maiores problemas.

Um sistema focado em cartas que funciona muito bem

Em Hillthorn, todas as ações do jogador são baseadas em cartas. Para isso, o jogo oferece três mecânicas principais: investigação, conversação e exploração. A investigação é a que funciona melhor e gira em torno de analisar locais, objetos e pessoas, o que normalmente nos leva a desbloquear novas interações e cartas que também podem ser investigadas. Esse é, basicamente, o principal ciclo de gameplay.

A mecânica de conversação está diretamente conectada a esse sistema. Nela, podemos selecionar cartas com pistas encontradas durante a investigação e utilizá-las para fazer perguntas aos personagens, o que pode gerar novas interações e revelar informações importantes. Entretanto, esse aspecto é um pouco mais complexo do que pode parecer à primeira vista.

Hillthorn
Os sistemas de conversação e investigação funcionam muito bem em conjunto. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

Isso porque muitas das pistas que encontramos precisam ser utilizadas em perguntas bastante específicas para que possamos obter resultados realmente úteis. É justamente aqui que entra uma das propostas mais interessantes do jogo: fazer com que o jogador pense cuidadosamente em cada passo, principalmente por causa do limite de tempo, algo sobre o qual falarei mais adiante.

Mas, voltando à mecânica de conversação, esse foi um dos aspectos de que mais gostei em Hillthorn, justamente por sua conexão direta com os elementos de dedução e investigação. Durante minha experiência, estava constantemente pensando em quais seriam as melhores perguntas a fazer, tentando descobrir se havia algo oculto nos lugares que visitava. E, às vezes, realmente havia! Afinal, o jogo também conta com alguns puzzles, mas, infelizmente, é justamente nesse aspecto que começam a surgir algumas das primeiras rachaduras da experiência.

A exploração e os puzzles são decepcionantes

A parte da exploração é bastante decepcionante. O jogo conta com diversos locais que podemos visitar, mas, para encontrá-los, precisamos selecionar cartas que indicam diferentes direções, como frente, trás, esquerda e direita. Ao selecionar as cartas na ordem correta, conseguimos chegar a novos locais. E, sinceramente, não gostei desse sistema. Ele me pareceu uma tentativa de tornar a exploração mais complexa, mas acaba funcionando apenas como uma perda de tempo desnecessária, prejudicando o ritmo da experiência, principalmente quando precisamos repetir determinados dias.

Depois de algum tempo, o jogo passa a oferecer cartas que permitem utilizar certos atalhos para chegar mais rapidamente aos locais desejados. Entretanto, isso acaba tornando essa mecânica ainda menos coerente, pois a própria existência desses atalhos reforça a impressão de que todo esse sistema não faz muito sentido em primeiro lugar.

Hillthorn
O sistema de direções infelizmente prejudica o ritmo da campanha. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

Além disso, o jogo também conta com alguns trechos envolvendo puzzles, nos quais precisamos descobrir combinações de símbolos ou encontrar chaves para abrir portas. Em um primeiro momento, gostei bastante dessa proposta, pois imaginei que ela seria explorada de maneira inteligente em conjunto com os elementos de investigação. Entretanto, a verdade é que existe pouca variedade na forma como esses desafios funcionam. Na maioria das vezes, basta conversar com a pessoa correta para conseguir uma chave ou encontrar alguma página perdida que contenha a combinação de símbolos necessária.

Isso foi particularmente frustrante, pois considero que esse era um dos aspectos com maior potencial para fazer Hillthorn brilhar ainda mais. No fim das contas, fica a sensação de que o jogo acabou tornando complexos demais justamente os elementos que não precisavam de tanta profundidade, enquanto simplificou aqueles que poderiam se beneficiar muito mais de um nível maior de complexidade.

O limite de tempo não atinge seu potencial

Outro aspecto importante de Hillthorn é que as investigações contam com um limite de tempo. Portanto, se não conseguirmos concluir determinadas etapas dentro do período estabelecido, teremos que repetir o dia inteiro. A proposta é interessante, pois, em teoria, precisaríamos reviver esses mesmos dias com os novos conhecimentos adquiridos, avançando aos poucos e descobrindo novas possibilidades a cada tentativa.

Entretanto, mais uma vez, o jogo acaba evidenciando as fragilidades de seus próprios sistemas. Isso porque essa mecânica é diretamente prejudicada pelos problemas que mencionei anteriormente. Afinal, não é nada interessante precisar repetir os mesmos dias quando a exploração é um dos aspectos menos divertidos da experiência e o sistema de investigação não apresenta descobertas suficientemente elaboradas para justificar novas tentativas. No fim das contas, tudo se resume a encontrar a pessoa certa com quem conversar ou descobrir um código para abrir uma nova área, e pouco além disso.

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O sistema de limite de tempo não atinge seu potencial e acaba se resumindo à tentativa e erro até encontrarmos a pessoa ou o item correto para avançar. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

Na prática, acredito que esse foi o aspecto que mais me frustrou durante toda a experiência. Sinto que Hillthorn reúne todos os elementos necessários para oferecer algo realmente diferente, único e empolgante, mas nunca consegue dar aquele passo a mais para transformar suas boas ideias em uma experiência verdadeiramente memorável.

Gráficos e trilha sonora

Hillthorn me surpreendeu bastante visualmente. O game acerta em cheio nas ilustrações das cartas e consegue construir uma atmosfera obscura e sombria de maneira impressionante. Os personagens são apresentados de forma que sempre parecem figuras misteriosas, tornando bastante difícil deduzir suas verdadeiras intenções em um primeiro momento. Isso acaba criando uma sensação constante de ansiedade ao longo da campanha, algo que combina perfeitamente com a proposta de Hillthorn.

É realmente interessante como um jogo inteiramente baseado em cartas consegue proporcionar tanta imersão em sua ambientação. Isso acontece principalmente pela maneira inteligente como o título utiliza os sons ambientes e pequenos detalhes dos cenários para construir sua identidade visual e atmosférica.

Hillthorn
A atmosfera sombria de Hillthorn impressiona, considerando que o jogo é inteiramente baseado em cartas. (Captura de tela/PC/Leandro Paiva)

Um bom exemplo disso está logo no início da aventura, quando o detetive se encontra em seu escritório e podemos observar a sombra da janela projetada ao fundo do cenário. Em outro momento, quando avançamos por uma floresta, vemos as sombras dos troncos das árvores compondo o ambiente. São detalhes sutis como esses que tornam a experiência tão marcante nesse aspecto e ganham ainda mais destaque quando os momentos mais sombrios da narrativa entram em ação.

O trabalho sonoro também contribui bastante para a imersão em Hillthorn. O jogo prioriza os sons ambientes, mas, em determinados momentos, também apresenta músicas com uma atmosfera noir. O resultado é bastante positivo, e o título demonstra saber exatamente quando utilizar esses elementos para reforçar o clima de mistério e tensão de sua narrativa.

Desempenho

A minha experiência foi em um PC equipado com uma RTX 5060 Ti de 16 GB. Sobre o desempenho não tem muito a ser dito, pois, por ser um jogo focado em cartas ele é bem leve e rodou acima dos 400 FPS em 1440p, com os gráficos no máximo. Além disso, fico feliz em relatar que não tive problemas envolvendo bugs ou travamentos.

Vale a pena comprar Hillthorn?

Hillthorn entra naquela categoria de jogos pelos quais tenho sentimentos bastante conflitantes. Gostei muito da narrativa e acredito que ela acerta na maior parte do tempo, entregando uma jornada misteriosa que vale a pena ser vivenciada. Isso acontece principalmente por causa das mecânicas do game, que fortalecem a narrativa por meio dos elementos de dedução e interpretação. Durante toda a campanha, precisamos juntar as peças ou, neste caso, as cartas, e decifrar, pouco a pouco, as diferentes camadas da história. É um sistema que funciona muito bem para a proposta narrativa e conseguiu me manter intrigado do começo ao fim.

Entretanto, quando falamos das mecânicas principais de Hillthorn, nem tudo funciona tão bem quanto poderia. Sinto que existe muito potencial desperdiçado aqui, com ideias que poderiam ter alcançado grandes resultados, mas que acabam ficando apenas no básico. Esse problema é agravado pela complexidade excessiva de sistemas que não fazem muito sentido dentro do ritmo da campanha, como o limite de tempo e a exploração. Embora sejam boas ideias em teoria, essas mecânicas não conseguem se conectar adequadamente aos elementos que realmente funcionam no jogo. O resultado é uma campanha que, em diversos momentos, parece desconexa e acaba perdendo qualidade ao longo da experiência.

No fim das contas, tudo vai depender do que cada jogador procura na proposta do game. Gostei bastante da narrativa, da atmosfera e das ideias gerais apresentadas por Hillthorn, e acredito que esses aspectos, por si só, já justificam dar uma chance ao título. Entretanto, aqueles que esperam encontrar uma exploração mais aprofundada de todas as ideias apresentadas pelo jogo podem acabar se decepcionando.

Hillthorn foi desenvolvido pela Fool Moon e chega no dia 10 de novembro para PC, via Steam, Nintendo Switch 2 e Android.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Raw Fury.

Hillthorn 

8.1

História

9.0/10

Gameplay

6.5/10

Gráficos e Sons

9.0/10

Extras

8.0/10

Prós

  • Excelente narrativa que usa muito bem elementos como mistério e dedução
  • O sistema de cartas funciona muito bem nas investigações e conversas com os personagens
  • Boa direção de arte que cria uma atmosfera sombria que se destaca por toda a campanha
  • Legendas em PT-BR

Contras

  • A exploração é algo que não se encaixa com o ritmo da narrativa
  • Os puzzles são decepcionantes pois não aproveitam bem os principais sistemas do jogo
  • O limite de tempo poderia ter sido melhor aproveitado

Leandro Paiva

Jornalista, amante de survival horror, café e, provavelmente, o maior fã de Resident Evil do site, a menos que ele chame Revelations 2. Sou um jogador de PC em tempo integral, pois games são uma arte bela demais para não serem apreciados em suas melhores versões. E, com isso, claramente não quero dizer jogar com o MSI Afterburner aberto na tela, mostrando 100+ FPS!