Onimusha: Way of the Sword | Review
A franquia Onimusha faz parte de um passado nostálgico da minha vida, quando eu ainda ia a locadoras de jogos. Em minha memória, os jogos da franquia sempre foram mitológicos, mas mais por ver as pessoas jogando do que por eu mesmo ter experiência neles. Fui ter acesso a um dos títulos remasterizados muitos anos depois, já com a jogabilidade já bem defasada. No entanto, com o anúncio de Onimusha: Way of the Sword vi uma nova chance de adentrar neste mundo no tempo certo. Porém, isso demorou muito para acontecer. Muito mesmo!
A Capcom passou quase 20 anos sem um lançamento inédito na linha principal desta franquia, desde Onimusha: Dawn of Dreams, de 2006. Para muita gente, assim como eu, isso transforma este novo capítulo em uma espécie de reencontro com uma série que marcou uma fase muito específica dos jogos de ação japoneses. Para outros, principalmente quem nunca encostou nos títulos antigos, este pode ser o primeiro contato real com uma ideia que mistura samurais, demônios, fantasia sombria e combate com espada.
A boa notícia, logo de cara, é que Onimusha: Way of the Sword não exige dever de casa. Apesar de trazer elementos clássicos, como a Manopla Oni e os Genma, a história não se conecta diretamente com os jogos anteriores nem com a maravilhosa série animada da Netflix. A Capcom escolheu um caminho mais inteligente: respeitar o passado, mas construir uma porta de entrada nova. O resultado é uma história original, centrada no lendário Miyamoto Musashi, em uma Quioto do início do período Edo deformada por nuvens de Miasma.
Esse recorte já chama atenção. Musashi não é qualquer nome. Estamos falando de um dos samurais mais famosos da história japonesa, autor associado ao Livro dos Cinco Anéis e símbolo de uma tradição de estratégia, disciplina, técnica e reflexão sobre o caminho da espada. O jogo pega essa figura lendária e a transforma em um protagonista impetuoso, teimoso e caricato, querendo sempre provar sua força, mas encontra algo muito mais obscuro do que simples duelos.
A pergunta, então, não era apenas se Onimusha conseguiria voltar depois de tanto tempo. A pergunta era se esse tão aguardado retorno teria lâmina própria ou se ficaria preso a todo aquele sentimento de nostalgia advindo do PlayStation 2. Assim, com essa pulga atrás da orelha, que atravessei campos de batalha, templos tomados pelo Miasma e corredores cheios de Genma. Portanto, confira uma análise antecipada com todos os detalhes sobre Onimusha: Way of the Sword a seguir!
Um retorno que respeita o passado
O primeiro grande acerto de Onimusha: Way of the Sword é entender que uma franquia clássica não pode voltar fingindo que o tempo não passou. Existem casos de jogos que fizeram isso e fracassaram terrivelmente. Aqui, o jogo carrega, sim, o DNA da série, mas não parece e nem é um remake. Ainda bem. Há demônios, almas sendo absorvidas, espada, manopla mística e um protagonista envolvido em uma guerra sobrenatural. Ao mesmo tempo, tudo tem uma energia moderna, com câmera, ritmo e combate pensados para quem joga ação hoje, trazendo coisas que antes não eram tão simples de serem feitas.
Essa escolha funciona porque o jogo não tenta recontar o passado. Como disse acima, ele não é remake, não é continuação direta e não depende de conexões antigas para causar impacto. A Capcom usa símbolos reconhecíveis da série como base e constrói em cima deles uma nova aventura. Para quem conhece Onimusha, há um gosto de retorno, isso é óbvio. Para quem não conhece, há uma aventura fechada e que para funciona sozinha.

Gostei muito disso. Em vez de colocar o jogador em uma trama cheia de referências ao passado, o jogo deixa claro rapidamente quem é Musashi, o que são os Genma, qual é a ameaça em Quioto e por que a Manopla Oni importa. Tudo é explicado de forma natural, sem enrolação ou transformando o começo em uma aula de franquia. Aqui, tudo é natural e prático, abraçando fãs do passado e jogadores do presente.
Miyamoto Musashi, o caminho da espada e o peso de uma lenda
Usar Miyamoto Musashi como protagonista é uma decisão poderosa. Eu mesmo não estava esperando por isso, já que evitei ao máximo caçar informações do jogo para chegar sem hyper. Historicamente, Musashi é lembrado como um mestre da espada, estrategista e autor do Livro dos Cinco Anéis, obra que reflete sobre combate, disciplina, percepção, ritmo e domínio de si mesmo. Seu nome está ligado à ideia de caminho, não apenas como técnica marcial, mas como uma filosofia de vida. Infelizmente, assim como a Arte da Guerra, muitos usam como autoajuda. Enfim…
Onimusha: Way of the Sword não tenta fazer uma biografia realista dele, e isso é óbvio, não é mesmo? Este Musashi é uma interpretação de fantasia sombria, jovem e impetuosa, alguém que ainda parece estar buscando a própria razão para lutar. Ele não chega como a lenda conhecida. Chega como um samurai que acredita na força da espada e na própria invencibilidade, até o mundo ao redor empurrá-lo para algo absurdamente maior.

Há uma aproximação interessante com a ideia de Bushido, o caminho do guerreiro. Não no sentido simplificado de honra romântica, mas como uma tensão entre dever, força, morte e propósito. Musashi começa querendo provar algo. Aos poucos, a pergunta muda. Não é mais apenas “quem é mais forte?”. É “por que lutar?”. Em um jogo chamado Way of the Sword, essa pergunta tem peso. Muito peso. Isso é refletido na narrativa, mas sem diálogos enjoativos ou sermões. É leve, mas também nos faz refletir nas mudanças do protagonista. Com isso, não espere uma história exageradamente elaborada aqui; a ideia é ser boa e divertida, o que ela, de fato, é.
Toshiro Mifune dá rosto, humor e presença ao protagonista
Quem acompanha o Pizza Fria com frequência, sabe que amo o cinema samurai, filmes do Akira Kurosawa e o lendário ator Toshiro Mifune. Incrivelmente, Onimusha: Way of the Sword me surpreendeu (de novo) com Toshiro Mifune sendo a inspiração visual para Musashi. Segundo Satoru Nihei e Akihito Kadowaki, diretor e produtor do jogo, a Capcom levou cerca de dois anos para obter os direitos de imagem do ator. E dá para entender por que a equipe insistiu tanto nisso.
Mifune é um ícone absoluto do cinema japonês de samurai, especialmente por seus papéis em filmes de Kurosawa, como Rashomon e Yojimbo. Ele também atuou como o lendário personagem em Musashi: Trilogia Samurai, composta pelos filmes Samurai: O Guerreiro Dominante, Morte no Templo Ichijoji e Duelo na Ilha Ganryujima, do diretor Hiroshi Inagaki. Nos filmes, o ator tinha uma presença física única, uma mistura de fúria, ironia, brutalidade, charme e imprevisibilidade. Trazer essa referência para Musashi não é apenas uma escolha estética. É dar vida a um personagem lendário com um ator igualmente lendário.

Com isso, a descrição de um jovem samurai brutal, coberto de sangue e lama, combina perfeitamente com a energia que o personagem e o ator transmitem. Musashi tem expressões fortes, gestos exagerados, humor caricato e um jeito meio debochado que dá muita personalidade às cenas, exatamente como Mifune mostra em seus filmes.
Particularmente, achei isso incrível. Quem gosta de cinema samurai vai reconhecer imediatamente certos trejeitos, posturas e expressões. O personagem tem aquele olhar intenso, aquela movimentação teatral e uma ironia corporal vinda de um período clássico do cinema japonês. A Capcom poderia ter feito um protagonista genérico e bonito. Em vez disso, entregou alguém com rosto, presença e atitude.

Combate ágil, sangrento e muito responsivo
A jogabilidade foi uma das maiores surpresas de Onimusha: Way of the Sword. Ela funciona perfeitamente bem no teclado e mouse e também no controle, algo que considero essencial em um jogo de ação moderno. Testei as duas formas e senti que a resposta dos comandos é precisa em ambas escolhas. No controle, o ritmo parece mais natural para duelos e esquivas. No teclado e mouse, a agilidade também funciona muito bem, sendo apresentadas em tutoriais rápidos ao longo do tempo.
O jogo mistura ação com duelos que carregam elementos tradicionais de soulslike. Em combates comuns, Musashi enfrenta hordas de inimigos, aprende golpes novos, usa a Manopla Oni e absorve almas dos Genma para alimentar sua evolução. Contra chefes e adversários mais fortes, porém, o jogo exige leitura, esquiva, parry e paciência. É justo, trazendo diferentes níveis de dificuldade ao longo do tempo, mas de forma orgânica e leve. Às vezes os inimigos se repetem, mas isso não chega a ser algo grave.

O mais importante é que os controles respondem muito bem. Quando eu errava uma esquiva ou aparava tarde demais, sentia que a culpa era minha e começava a luta toda de novo. Quando acertava a janela de defesa e abria espaço para contra-atacar, a sensação era excelente. Afinal, eu estava dominando o caminho da espada. Com isso, o combate tem impacto, velocidade e clareza. Não é só apertar botão até tudo morrer. Precisa-se entender o inimigo, gravar os golpes e entender os tempos dele.
Já falei em outras vezes que não sou o maior fã de soulslike, mas aqui o sistema me ganhou porque ele parece justo. Há desafio, principalmente para quem não está acostumado com esse tipo de combate, mas também existe a possibilidade de reduzir a dificuldade. Isso torna Onimusha: Way of the Sword mais acessível sem remover completamente a necessidade de aprender. Mesmo em dificuldades menores, ainda é preciso aparar, esquivar e atacar na hora certa. Ou seja, desafio sempre terá, seja em maior ou menor medida.

Todo upgrade vale a pena
Simplificando, mas sem ser simplista, a Manopla Oni é o coração mecânico e simbólico da experiência de Onimusha: Way of the Sword. Ela concede a Musashi poderes além dos limites humanos, permite enfrentar os Genma e absorver suas almas. Essas almas funcionam como fonte de poder, alimentando diversas melhorias. Ou seja, a manopla não é apenas uma ferramenta de combate. Ela é um artefato diferenciado, especialmente pela voz misteriosa que ressoa de dentro dela. Essa presença adiciona curiosidade à narrativa e cria uma relação estranha entre Musashi e o poder que ele carrega.
Ao longo da campanha, é possível fazer upgrades na espada, na armadura e na própria manopla. Também dá para usar e aprimorar amuletos, além de encontrar armas sagradas que funcionam quase como os clássicos especiais de jogos do passado. Esse sistema de progressão é direto, mas satisfatório. Sempre tinha algo para melhorar ao longo do tempo, testar ou ajustar antes de uma luta mais difícil.

Chefes são a parte mais desafiadora
Os confrontos contra os formidáveis chefes estão entre os melhores momentos de Onimusha: Way of the Sword. A Capcom entende que duelos de samurai precisam de ritmo, tensão e leitura corporal. Um bom chefe no jogo não é apenas um inimigo com muita vida. É alguém que testa sua disciplina e te provoca o tempo todo. Essas lutas cinemáticas misturam espetáculo e precisão. Algumas exigem esquiva constante, outras pedem parry no tempo certo, outras punem agressividade exagerada. Com isso, o jogo nos força a respeitar o adversário. Entrar de qualquer jeito geralmente termina mal.
Gostei bem de como os chefes têm presença e reagem de maneiras bem distintas. Eles parecem adversários de verdade, não obstáculos genéricos. A ideia de Musashi enfrentando oponentes cuja destreza nas artes marciais se equipara à dele funciona muito bem, porque reforça o tema central do caminho da espada. Cada duelo parece uma discussão feita com lâminas e boas provocações de ambos os lados.

Também há uma brutalidade visceral nesses confrontos. Sangue, lama, os impactos de cada um dos golpes e expressões de esforço dão corpo a cada uma das lutas. O jogo entende que o combate precisa ser bonito, mas também sujo e sanguinolento. Musashi não sai de cada batalha como um herói limpo de capa ao vento. Ele sai marcado, coberto de violência e ironia.
Gráficos e dublagem em português brasileiro se destacam
Graficamente, Onimusha: Way of the Sword é muito bonito, algo que fica ainda mais nítido com o Modo Foto. A Capcom caprichou nos personagens principais, nas expressões faciais e nos ambientes. Musashi, em especial, é impressionante. As expressões do rosto, os olhos, os gestos e o jeito como o personagem muda entre ironia, fúria e confiança dão muita vida ao protagonista. Além disso, todos são cenários são belíssimos. Templos, ruas antigas e outros locais manchados de sangue criam uma atmosfera forte. O jogo sabe equilibrar beleza e horror de maneira bem interessante.
Nem tudo, porém, mantém o mesmo nível. Alguns inimigos e personagens secundários se repetem. Não é algo que compromete radicalmente a experiência, mas acontece. Em um jogo tão bonito nos elementos principais, essas repetições ficam mais perceptíveis. Ainda assim, o saldo visual é excelente. A direção artística carrega muito bem o conjunto, desde suas escolhas de atuação aos detalhes gráficos.

Já a parte de áudio é uma das maiores surpresas. O jogo é totalmente localizado para português brasileiro, com uma dublagem maravilhosa. Gostei tanto da versão brasileira que segui praticamente a campanha inteira com ela. A voz de Musashi casa muito bem com o personagem. O tom irônico, caricato e confiante aparece de forma perfeita. As piadas, provocações e reações não soam deslocadas. Outro ponto positivo é que não senti repetição excessiva nas falas, algo comum em muitos jogos. Além disso, o humor do jogo aparece, mas sem ser forçado, sendo a ironia de Musashi algo bem ligado ao que Mifune fazia nos filmes.
Por fim, os efeitos sonoros são excelentes. Espadas se chocam com impacto, monstros têm presença e vozes marcantes, golpes especiais soam poderosos e a ambientação de Quioto ajuda a mergulhar no clima. O som da lâmina, da manopla e dos Genma reforça o peso de cada confronto. Com isso, Onimusha: Way of the Sword é um jogo bem completo e imersivo, ainda que em um mundo completamente surreal.

Vale a pena jogar Onimusha: Way of the Sword?
Onimusha: Way of the Sword vale muito a pena para fãs da franquia e também para quem nunca jogou nada da série. Por ter uma história original e desconectada dos jogos anteriores, ele funciona como ponto de entrada ideal. Você não precisa conhecer toda a mitologia antiga para entender Musashi, a Manopla Oni, os Genma ou o caos em Quioto. Tudo é explicado novamente de forma leve e sem correria.
Para quem gosta de jogos de ação com katanas e todo aquele estilo samurai, duelos intensos, fantasia sombria japonesa e ambientação histórica misturada com coisas sobrenaturais, a recomendação é ainda mais fácil. Onimusha: Way of the Sword tem ritmo, personalidade e um protagonista que nos segura com muita tranquilidade.
Também é uma ótima escolha para quem sente falta de aventuras de ação mais diretas, mas com acabamento moderno e sem ser exageradamente repetitiva. Ou seja, o jogo tem, sim, momentos de repetição, como tirar miasma dos lugares, lutar contra chefes, andar em mapas labirínticos, mas, na maior parte do tempo, isso funciona. Além disso, Onimusha: Way of the Sword não tenta ser um jogo mundo aberto gigantesco, não se perde em mil sistemas e não depende só de nostalgia. Vai direto ao que importa: espada, demônios, estilo e combate bem feito. Novamente: simples, sem ser simplista.
O combate é ágil, responsivo e satisfatório, misturando hack and slash com duelos mais técnicos, parry, esquiva e chefes exigentes. A progressão é clara, os upgrades fazem sentido e as armas sagradas adicionam impacto. Visualmente, o jogo é lindo nos personagens principais e nos cenários, mesmo com alguma repetição em inimigos e secundários. A dublagem em português brasileiro é um outro destaque incrível que melhora ainda mais a experiência.
No fim, Onimusha: Way of the Sword não é apenas uma homenagem a uma franquia clássica. É uma homenagem a um personagem lendário, a um ator memorável e a uma cultura riquíssima como a japonesa. Parece muito mais o início de uma nova fase. Se esse for mesmo o caminho que a Capcom pretende seguir, que venham mais demônios. Estou pronto para isso!
Onimusha: Way of the Sword será lançado em 4 de setembro para PlayStation 5, Nintendo Switch 2, Xbox Series X|S e PC, via Steam, Epic Games Store e Microsoft Store.
*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela Capcom.
Onimusha: Way of the Sword
BRL 339,00Prós
- Miyamoto Musashi é um protagonista carismático e marcante
- Totalmente localizado em português brasileiro, com uma dublagem marvilhosa
- Boa mistura entre hack and slash e duelos em um estilo mais soulslike
- Uso da face de Toshiro Mifune dá personalidade única ao personagem
- Combate ágil, responsivo e muito satisfatório
Contras
- Alguns inimigos e personagens secundários se repetem várias vezes
- O jogo tem base sólida, mas acaba repetindo alguns desafios
- Algumas lutas exigem paciência acima do esperado



