Stupid Never Dies | Review
Após 27 anos trabalhando na Capcom, Hiroyuki Kobayashi deixou a empresa em 2022 para fundar sua própria produtora, a GPTRACK50 Inc. Agora, em outubro de 2026, chega o primeiro título do estúdio: Stupid Never Dies, um RPG roguelike que mistura elementos de beat ‘em up e hack and slash em uma história tão absurda e excêntrica que deixaria Suda51 muito orgulhoso.
Cresci jogando diversos títulos nos quais Kobayashi trabalhou como produtor ou programador, incluindo Devil May Cry, Resident Evil 4, Killer7 e muitos outros. Naturalmente, estava extremamente curioso com Stupid Never Dies. Porém, havia um detalhe que me deixava receoso: o gênero roguelike, por mais popular que tenha se tornado nos últimos anos, nunca foi exatamente a minha praia.
Minha principal dúvida era quanto tempo o jogo conseguiria manter meu interesse, especialmente considerando um sistema de progressão que normalmente não me atrai tanto. E já adianto que foram 35 horas com o fator diversão beirando a perfeição, mesmo dentro de um gênero pelo qual nunca tive grande afinidade.
Mas será que essa estreia consegue manter a qualidade do início ao fim? Venha comigo conhecer os muitos acertos de Stupid Never Dies, seus problemas e tudo que a GPTRACK50 preparou para sua primeira produção, em mais uma análise antecipada do Pizza Fria!
O amor nunca morre
Em Stupid Never Dies, acompanhamos Davy, um zumbi frágil e lento, desdenhado até mesmo pelos outros mortos-vivos por preferir uma vida isolada, longe dos monstros e dos poucos humanos que ainda restam no mundo. Humanos e criaturas como vampiros, fadas e lobisomens dividem esse universo, mas estão longe de viver em harmonia.
Durante muitos anos, a ciência humana foi capaz de superar as habilidades dos mais diversos monstros. Aqueles considerados descontrolados ou uma possível ameaça à humanidade eram mortos ou aprisionados. Até que, um dia, essa relação de poder mudou completamente.
Os monstros passaram a desenvolver novas estratégias e trabalhar em conjunto, iniciando uma revolta contra a humanidade que culminou na maior guerra já vista. Sob a liderança de KOM (King of Monsters), as criaturas conseguiram dizimar quase toda a população humana.
Davy, entretanto, sempre se recusou a participar desse conflito. Além de ocupar um dos níveis mais baixos de poder e ameaça entre os monstros, ele simplesmente não tinha interesse em lutar.
Certo dia, enquanto vagava por um shopping abandonado, Davy encontrou o cadáver de uma jovem humana dentro de um freezer e se apaixonou perdidamente por ela. Desde então, passou a visitá-la e até mesmo a “conversar” com a garota sempre que possível. Apesar de sua fome eterna, o zumbi se recusa a devorar o corpo da amada.

Durante uma de suas buscas por alimento, Davy encontra um estranho ovo gigante e brilhante. Após consumi-lo, recebe a habilidade de “comer com estilo”, que permite adquirir a forma e os poderes de qualquer monstro cujo cerne seja devorado.
O cientista responsável por guardar o ovo, Dr. Steiner, então propõe uma parceria. Davy deverá encontrar KOM e devorar seu cerne para obter a chamada “inteligência da humanidade”. Com isso, seria possível acabar com a ameaça dos monstros e, principalmente, adquirir a capacidade de reviver sua amada.
E por onde começar a descrever a história de Stupid Never Dies? Esses acontecimentos representam apenas uma parte dos conceitos, explicações e personagens apresentados logo no início da aventura.
Narrativamente, as primeiras duas horas são bastante eficientes em estabelecer o universo do jogo e seu humor irreverente e criativo. A proposta lembra muito os trabalhos de Suda51 em Lollipop Chainsaw, da Clover Studio em God Hand e até mesmo o esquecido Anarchy Reigns.
Apesar da quantidade de informações, o mundo é muito bem estabelecido desde o começo. Em nenhum momento achei a história confusa ou apressada. Meu problema estava no ritmo dessa introdução, especialmente pela maneira como os acontecimentos narrativos se misturam aos inúmeros tutoriais de jogabilidade.
Estava envolvido com o humor e os personagens, mas a experiência demorou um pouco para encontrar seu ritmo. Nas primeiras horas, as interrupções são frequentes e acabam prejudicando a fluidez entre história e jogabilidade. Felizmente, esse problema diminui consideravelmente conforme avançamos.

Já os segmentos dramáticos e emotivos possuem, para mim, apenas metade do impacto das piadas. Enquanto estava constantemente ansioso para encontrar o próximo chefe ou reencontrar aliados extremamente carismáticos e acompanhar suas interações divertidas, por vezes hilárias, os momentos mais sérios raramente conseguiram provocar a mesma reação.
Essas passagens acabaram sendo apenas medianas, especialmente quando comparadas à qualidade do humor e à criatividade das situações apresentadas.
Felizmente, todas possuem propósitos claros e contribuem para o andamento da história. Eventos significativos acontecem com frequência, evitando que a narrativa fique parada durante muito tempo.
A principal exceção aparece próximo ao desfecho, quando Stupid Never Dies introduz um elemento bastante tradicional dos jogos de ação: o boss rush, uma sequência de confrontos contra chefes.
Esse segmento acaba provocando uma estagnação tanto narrativa quanto na jogabilidade. O ritmo cai consideravelmente e, por um momento, quase comprometeu o clímax da história para mim.
Felizmente, após esse deslize, a trama recupera a qualidade apresentada anteriormente e reserva seus melhores momentos dramáticos justamente para a reta final.

Roguelike dinâmico e repleto de conteúdo
Durante a jogabilidade, acompanhamos Davy em suas constantes incursões pelas diferentes camadas de uma enorme masmorra. É nesse ambiente que o protagonista deixa de ser um zumbi lento e frágil para se transformar em alguém capaz de enfrentar inúmeros monstros simultaneamente.
Ao derrotar inimigos, recebemos experiência e subimos de nível. Após determinados avanços, três melhorias, chamadas de “recibos”, são apresentadas para escolhermos uma delas.
Esses benefícios incluem aumento de dano, taxa de acerto crítico, vida e redução no tempo de recarga de diversas habilidades. Entretanto, o verdadeiro centro da jogabilidade está no sistema de estilos.
Ao derrotar inimigos de elite, como harpias, fadas, ogros, demônios e muitos outros, podemos devorar seus cernes para adquirir suas formas e habilidades.
Davy pode equipar até dois estilos simultaneamente, mas cada um permanece disponível por apenas três andares antes de ser automaticamente descartado. O funcionamento lembra os estilos de Dante em Devil May Cry 4 e 5 ou os demônios controláveis em Bayonetta 3.
Utilizando as setas direcionais, podemos alternar livremente entre as criaturas devoradas, tornando as transformações parte constante e dinâmica do combate.

Cada estilo oferece cinco habilidades únicas que podem ser utilizadas após a aquisição de seu cerne. Isso cria dezenas de possibilidades durante os confrontos e faz com que cada nova incursão pela masmorra seja substancialmente diferente da anterior.
Além dessas habilidades, os estilos possuem um sistema de raridade. Quanto maior sua classificação, mais extensas se tornam as sequências de golpes normais e especiais, que também recebem novas propriedades.
A quantidade e, principalmente, a viabilidade dos ataques disponíveis em Stupid Never Dies são impressionantes.
E não pense que a forma original de Davy se torna descartável ou objetivamente inferior às demais. O próprio zumbi possui ataques únicos, adquiridos através das cartas oferecidas ao subir de nível. Habilidades poderosas, como o Vômito dos Mortos, também podem ser desbloqueadas e aprimoradas durante a aventura.

Tão importante quanto dominar os estilos é saber o momento correto de utilizar a mordida de Davy.
Quando acerta um inimigo, esse ataque recupera vida proporcionalmente ao dano causado e fornece frames de invulnerabilidade, extremamente importantes durante batalhas contra chefes ou em regiões repletas de adversários.
Se utilizada no ar, a mordida também funciona como uma das poucas maneiras de resetar nossos combos, permitindo prolongar ainda mais a pressão sobre inimigos aéreos.
O histórico profissional de Kobayashi em Devil May Cry e outros jogos de ação fica evidente principalmente nesses pequenos detalhes.
Em Stupid Never Dies, inevitavelmente vamos receber muitos golpes durante os confrontos. Entretanto, Davy possui uma hiperarmadura que impede o personagem de ficar reagindo constantemente aos ataques inimigos, evitando que as interrupções tornem as batalhas frustrantes.
Outro detalhe interessante aparece quando somos arremessados para longe após receber um golpe poderoso. Nesses momentos, podemos pressionar o botão de pulo para recuperar rapidamente a postura e retornar ao combate.
São possibilidades pequenas, mas extremamente importantes para a sensação de controle e fluidez da jogabilidade.
Esses cuidados, frequentemente encontrados em títulos de ação da Capcom, Konami e Team Ninja, felizmente também estão presentes aqui. É nesses detalhes que percebemos a experiência dos profissionais envolvidos com o gênero.

Uma progressão que só melhora
A progressão de Stupid Never Dies vai muito além das melhorias adquiridas durante cada “mergulho” na masmorra.
Conforme aumentamos nossa quantidade de monstros eliminados, recebemos bônus permanentes de experiência para as próximas incursões. Da metade da campanha em diante, esses multiplicadores podem atingir valores gigantescos.
Assim, aquilo que inicialmente exigia cerca de 20 minutos de exploração passa a ser conquistado em poucos minutos ou até mesmo segundos dentro da masmorra.
Também coletamos materiais deixados por inimigos e chefes, utilizados para desbloquear novos recibos ou aumentar a raridade dos que já possuímos.
É um sistema dinâmico e recompensador, embora eu tenha achado sua estrutura um pouco mais inchada do que deveria. Diversas melhorias são direcionadas a características tão pequenas e específicas que seus efeitos acabam sendo praticamente imperceptíveis.
Na área segura, localizada no shopping, também encontramos uma grande variedade de atividades e melhorias disponíveis.
Davy pode receber aprimoramentos corporais com bônus passivos e ativos, que podem ser constantemente modificados ou evoluídos. Também podemos entregar presentes para conceder melhorias permanentes ao corpo da garota encontrada no freezer.
Outro elemento interessante envolve o celular da jovem, cujo conteúdo é desbloqueado gradualmente. Através dele, conhecemos detalhes de sua vida e descobrimos informações adicionais sobre os humanos e o mundo antes dos acontecimentos da história.

Inicialmente, estava bastante preocupado com o level design de Stupid Never Dies.
Mesmo com um excelente conjunto de habilidades e uma grande variedade de inimigos, temia que a experiência acabasse se resumindo a atravessar salas vazias, enfrentar alguns monstros e repetir o processo constantemente.
Isso poderia tornar a aventura cansativa muito rapidamente.
Felizmente, conforme avançamos, as fases passam a apresentar cada vez mais elementos diferentes. Há um investimento crescente em segmentos de plataforma, teletransportes obrigatórios ou opcionais que levam a outras regiões, coletáveis que oferecem recompensas extras e caminhos acessíveis apenas com determinados estilos.
O lobisomem, por exemplo, consegue saltar entre paredes, enquanto a harpia possui a capacidade de planar, permitindo alcançar regiões que seriam inacessíveis com outras transformações.
Esse último recurso, em particular, achei subutilizado quando consideramos a enorme quantidade de estilos e poderes disponíveis.
Ainda assim, são muitos, mas muitos detalhes adicionais introduzidos ao longo da campanha, garantindo que a exploração continue apresentando novidades.

Como mencionei anteriormente, o equilíbrio entre a apresentação de novidades na jogabilidade e a progressão narrativa deixa a desejar nas primeiras horas. Entretanto, esse problema praticamente desaparece depois que os sistemas centrais são devidamente apresentados.
A partir desse momento, Stupid Never Dies faz um trabalho exemplar ao distribuir novas possibilidades de gameplay ao longo da aventura.
Durante minhas 30 horas de campanha, fiquei genuinamente surpreso com a quantidade de conteúdo inédito que continuava surgindo e, principalmente, com a relevância dessas novidades.
Novos chefes, inimigos, estilos, ambientações e sistemas exclusivos de cada camada da masmorra são apresentados constantemente. Com isso, o jogo passa muito longe de se tornar enjoativo ou desagradavelmente repetitivo.
Naturalmente, encontrar um estilo ou uma habilidade específica pode ser frustrante em determinadas ocasiões, especialmente para jogadores que preferem uma maior consistência na construção de seus conjuntos de ataques.
Porém, volto a destacar a excelente viabilidade dos estilos e habilidades disponíveis. Mesmo quando não conseguimos exatamente aquilo que procurávamos, existem diversas alternativas eficientes para lidar com os desafios.
Essa liberdade ameniza consideravelmente uma possível frustração provocada pela natureza aleatória da progressão roguelike.

Visuais e música
Com uma direção artística bastante estilizada e cartunesca, novamente remetendo a Lollipop Chainsaw, Stupid Never Dies apresenta um conjunto visual muito agradável.
Um dos aspectos que mais me agradaram foi a organização das informações na tela. Mesmo durante confrontos repletos de inimigos, ataques, efeitos visuais e sonoros, tudo permanece bem distribuído e identificável.
Essa clareza é especialmente importante em um jogo com tantas habilidades acontecendo simultaneamente, e a GPTRACK50 conseguiu administrar muito bem esses elementos.
Entretanto, uma das maiores demonstrações de identidade do título está na direção das cutscenes e dos diálogos.
Além do excelente ritmo das cenas, Stupid Never Dies utiliza diferentes recursos visuais para construir momentos bastante únicos. Recortes, desenhos, segmentos com frame rate propositalmente reduzido e movimentos dinâmicos de câmera nas sequências tradicionais em 3D são combinados para criar situações cômicas ou simplesmente estilosas.
Diversas dessas apresentações são memoráveis, especialmente quando acompanhadas pelo humor característico dos personagens.
A direção de cutscenes é um aspecto que constantemente vejo ser ignorado ou subvalorizado nos videogames. Nesse quesito, principalmente durante a primeira metade da campanha, Stupid Never Dies demonstra uma competência considerável.
Stupid Never Dies também conta com localização em português, algo especialmente bem-vindo considerando a quantidade de diálogos, descrições de habilidades e informações apresentadas durante a aventura. Como boa parte do charme do jogo está no humor e nas interações entre seus personagens, poder acompanhar tudo em nosso idioma facilita o envolvimento com a história e a compreensão dos diversos sistemas de progressão.
O uso da música também é essencial para o funcionamento dessas cenas e representa um dos maiores destaques técnicos do jogo.
A trilha sonora costuma apostar em um pop rock convidativo, bastante característico dos anos 2010, especialmente nos menus, na área segura do shopping e nos andares mais tradicionais da masmorra.
Já durante os confrontos contra chefes e a exploração de andares mais exóticos, as composições assumem tons épicos e relativamente diferentes daquilo que ouvimos anteriormente.
Apesar dessa variedade, senti falta de músicas que realmente conseguissem permanecer na memória após os confrontos.
Com exceção do tema principal, nenhuma composição de chefe ou fase me marcou de maneira significativa. Tudo é satisfatório, divertido e combina bem com a proposta, mas também soa familiar demais para alcançar o mesmo nível de personalidade apresentado pelos visuais e pela direção das cenas.

Vale a pena jogar Stupid Never Dies?
Stupid Never Dies demora um pouco para conquistar o jogador com sua jogabilidade, principalmente devido a uma introdução que não equilibra tão bem os tutoriais, o desenvolvimento narrativo e a liberdade de experimentar suas mecânicas.
Entretanto, depois que os principais sistemas são apresentados, a experiência melhora consideravelmente.
Os bônus permanentes de XP aceleram cada nova tentativa, enquanto a quantidade crescente de camadas, inimigos e habilidades disponíveis torna as incursões cada vez mais dinâmicas. A liberdade para experimentar estilos diferentes e aproveitar suas propriedades mantém os confrontos constantemente divertidos.
Essa excelente variedade de possibilidades é acompanhada por uma direção visual cheia de personalidade, uma trilha sonora agradável e uma história que, mesmo com seus momentos dramáticos menos eficientes, esbanja energia, criatividade e um humor muito bem executado.
Para a GPTRACK50, considero uma estreia extremamente positiva. O estúdio conseguiu a façanha de prender minha atenção do início ao fim em um gênero com o qual nunca tive grande conexão.
A experiência certamente possui tropeços. A introdução excessivamente carregada de tutoriais, alguns elementos de progressão pouco relevantes e a queda de ritmo provocada pelo boss rush próximo ao desfecho são problemas perceptíveis.
Ainda assim, essas limitações tiveram um impacto consideravelmente menor na minha experiência quando comparadas aos acertos da jogabilidade, da narrativa e da apresentação audiovisual.
Também é importante compreender a proposta de combate de Stupid Never Dies. O jogo não pretende ser um simulador de combos extremamente extensos, tampouco apresenta uma dificuldade particularmente elevada em seus inimigos e chefes.
Seu combate está muito mais concentrado no uso inteligente das transformações, na alternância entre estilos e na combinação de habilidades para controlar grandes grupos de inimigos, provocar atordoamentos e eliminar chefes de maneira eficiente.
E é justamente nessa variedade, combinada à fluidez dos confrontos e à constante introdução de novidades, que Stupid Never Dies encontra seus maiores acertos.
Uma experiência obrigatória para fãs de hack and slash e roguelike, especialmente para quem aprecia jogos de ação repletos de personalidade, habilidades variadas e situações absurdas.
Stupid Never Dies será lançado em 21 de outubro de 2026 para PlayStation 5 e PC, via Steam.
*Review elaborada no PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela GPTRACK50.inc.
Stupid Never Dies
BRL 207,90Prós
- Boa direção de cenas
- Excelente quantidade e viabilidade de ataques e estilos
- Chefes memoráveis e com mecânicas próprias
- Mid e Late game cheios de possibilidades de combate.
- Localizado em PT-BR
Contras
- As primeiras duas horas possuem um balanceamento questionável de tutoriais, narrativa e jogabilidade.
- A jogabilidade e narrativa se estendem de forma desagradável e arrastada próximo do final
- A ausência de uma trava de mira tradicional pode incomodar muitos jogadores



