The Wolf Among Us Remastered | Review

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Eu tenho uma relação bastante interessante com os jogos da Telltale Games. Ao longo dos anos, acompanhei toda a trajetória de Clementine nos quatro jogos principais de The Walking Dead, além de ter concluído os dois títulos de Batman produzidos pelo estúdio. Também sou bastante fã de aventuras narrativas, como já disse em outras análises minhas aqui no Pizza Fria. Por isso, pode parecer estranho dizer que, mesmo conhecendo tão bem a fórmula da Telltale, nunca tinha jogado um de seus títulos mais celebrados: The Wolf Among Us, lançado originalmente em 2013.

A explicação, curiosamente, está no idioma. Naquela época, meu conhecimento de inglês não era tão avançado como é hoje, o que representava uma barreira considerável para um jogo praticamente inteiro construído em torno de diálogos e decisões. Inclusive, passei por uma situação semelhante com o primeiro The Walking Dead, que também não recebeu localização oficial para português brasileiro. O tempo passou, meu inglês melhorou e, agora, com a chegada de The Wolf Among Us Remastered, finalmente tive a oportunidade de conhecer essa história. Mas será que essa nova versão faz justiça ao clássico e oferece motivos suficientes para justificar seu relançamento? É o que vamos descobrir agora, em mais uma review antecipada do Pizza Fria!

História de The Wolf Among Us continua sendo seu principal atrativo

Inspirado nos quadrinhos Fables, publicados pelo selo Vertigo, da DC Comics, The Wolf Among Us apresenta uma proposta bastante interessante: personagens de contos de fadas vivendo escondidos entre humanos na cidade de Nova York, em 1986. Entretanto, esqueça aquela ideia de um universo colorido e cheio de finais felizes. Aqui, essas figuras conhecidas precisam lidar com problemas bastante humanos, incluindo violência, desigualdade, corrupção e conflitos pessoais.

O protagonista é Bigby Wolf, ninguém menos que o Lobo Mau, que agora trabalha como xerife de Fabletown, uma comunidade formada por personagens que precisaram abandonar seus antigos mundos. Sua responsabilidade é manter a ordem e investigar crimes envolvendo esses habitantes, uma tarefa complicada considerando que muitos deles ainda se lembram de seu passado nada amigável.

A história começa com uma ocorrência aparentemente rotineira que acaba dando início a uma investigação muito mais complexa, envolvendo assassinatos, personagens misteriosos e diversos interesses conflitantes. Ao lado de Snow, a Branca de Neve, Bigby precisa descobrir o que está acontecendo enquanto enfrenta as dificuldades de uma sociedade que está longe de funcionar perfeitamente.

The Wolf Among Us Remastered
Branca de Neve e Lobo Mau (Captura de tela: PC/Lucas Soares/Pizza Fria)

Um dos aspectos mais interessantes dessa proposta é justamente a maneira como ela utiliza figuras conhecidas para construir situações completamente diferentes daquelas que estamos acostumados a encontrar nos contos infantis. Os personagens possuem problemas, motivações e personalidades próprias, e essa abordagem mais adulta combina muito bem com a atmosfera de investigação policial.

E, particularmente, gostei bastante de como a história se desenvolve. As diferentes tramas apresentadas ao longo da campanha conseguem manter o interesse, especialmente pelos acontecimentos que encerram cada episódio, como já é uma marca tradicional da empresa. A Telltale soube trabalhar muito bem esses momentos, deixando questionamentos e situações que despertam a curiosidade sobre o que acontecerá em seguida. Não quero entrar em detalhes específicos, já que boa parte da graça está justamente em descobrir os mistérios por conta própria.

A estrutura é dividida em cinco episódios, exatamente como na versão original. A Telltale optou por preservar a narrativa e suas principais escolhas de direção, sem introduzir uma campanha alternativa ou modificar os acontecimentos centrais. Entretanto, existe uma vantagem importante nesta nova edição: diferentemente do lançamento original, quando os capítulos foram disponibilizados gradualmente, agora temos toda a campanha disponível desde o primeiro dia.

The Wolf Among Us Remastered
O visual dos personagens teve bastante melhora (Captura de tela: PC/Lucas Soares/Pizza Fria)

Gameplay mantém a conhecida fórmula da Telltale Games

Quem já jogou algum título da Telltale sabe exatamente o que esperar de The Wolf Among Us Remastered. A experiência é construída principalmente em torno de diálogos, exploração de ambientes, investigação e decisões que precisam ser tomadas durante momentos importantes da história.

Boa parte do tempo é dedicada a conversar com personagens, examinar objetos e procurar informações que ajudem Bigby a avançar nas investigações. Em determinados momentos, o jogo também apresenta sequências de ação com os tradicionais quick time events (QTE), exigindo que o jogador pressione botões ou execute comandos dentro de um limite de tempo.

É uma fórmula que conheço muito bem por conta de The Walking Dead e Batman, e que sempre me agradou justamente por colocar a narrativa no centro da experiência. Não estamos falando de um jogo com sistemas complexos de combate, liberdade irrestrita de exploração ou uma grande variedade de mecânicas. A proposta é acompanhar uma história e participar dela por meio das decisões oferecidas.

The Wolf Among Us Remastered
Prepare-se para alguns trechos com QTE (Captura de tela: PC/Lucas Soares/Pizza Fria)

E essas decisões merecem uma observação. Embora a Telltale tenha construído boa parte de sua reputação em torno da ideia de que nossas escolhas importam, isso não significa que podemos alterar completamente o destino dos personagens ou modificar todos os acontecimentos da campanha.

Na prática, boa parte da narrativa segue um caminho previamente estabelecido. O que muda são determinados diálogos, algumas cenas, relacionamentos, reações e situações específicas. Ainda assim, existe uma diferença importante entre assistir passivamente a uma história e precisar decidir como determinado personagem deve agir diante de uma situação complicada.

É justamente nessa sensação de participação que a fórmula encontra sua força. Nem sempre estamos escolhendo o destino de toda a aventura, mas estamos determinando como Bigby será percebido pelos outros personagens e qual postura ele adotará durante seus confrontos e investigações. Até mesmo permanecer em silêncio durante uma conversa pode provocar reações diferentes.

The Wolf Among Us Remastered
Pronto para se transformar? (Imagem: Divulgação)

Naturalmente, estamos diante de mecânicas concebidas há mais de uma década. O remaster não tenta reinventá-las, e isso significa que algumas limitações da fórmula continuam presentes. Entretanto, considerando a proposta de preservar a experiência original, não considero necessariamente um problema manter essa estrutura. O importante é compreender que estamos diante de uma aventura narrativa clássica da Telltale, e não de uma releitura moderna de seu gameplay.

Gráficos e sons recebem uma atualização mais cuidadosa do que parece

À primeira vista, The Wolf Among Us Remastered pode parecer apenas uma versão com resolução superior à do jogo de 2013. Entretanto, o trabalho realizado pela Telltale foi além disso, especialmente na apresentação dos personagens e dos cenários.

A desenvolvedora atualizou o jogo para uma versão mais recente de sua própria engine, a Telltale Tool, reconstruindo os modelos dos personagens, aprimorando texturas, animações e efeitos visuais, além de adicionar detalhes aos ambientes. Alguns elementos que anteriormente eram representados em duas dimensões também ganharam modelos tridimensionais.

The Wolf Among Us Remastered
Toad (Imagem: Divulgação)

Essa última parte é particularmente importante, já que o visual inspirado em histórias em quadrinhos é uma das características mais marcantes do jogo. A Telltale procurou preservar essa identidade artística enquanto modernizava os elementos gráficos, incluindo as diferentes formas assumidas por Bigby ao longo da campanha.

Inclusive, como também possuo a versão original no PC, aproveitei para abri-la e comparar algumas das primeiras sequências com o remaster. A estrutura das cenas permanece a mesma, reforçando a intenção de conservar a experiência de 2013, enquanto a nova edição apresenta um tratamento visual mais refinado.

Outra novidade é o Modo Noir, que permite jogar toda a campanha em preto e branco, alternando entre os estilos a qualquer momento. É uma alternativa que combina com a temática de investigação e com a inspiração nos filmes policiais clássicos. Para quem conhece os jogos do Batman da Telltale, existe certa familiaridade com o conceito de apresentações visuais alternativas, embora aqui a proposta seja apostar completamente no monocromático.

The Wolf Among Us Remastered
Modo Noir adiciona uma camada diferente ao game (Imagem: Divulgação)

A atualização também contempla melhorias nas músicas, na clareza das vozes e na interface, sem abandonar a identidade sonora da obra original. Não estamos diante de uma transformação radical de sua direção artística, mas de um trabalho pensado para modernizar uma experiência que já possuía personalidade própria.

Em relação ao desempenho, realizei a análise no PC, equipado com um Ryzen 7 5700X, 32 GB de RAM e uma GeForce RTX 5070. O jogo funcionou tranquilamente durante meus testes, sem apresentar problemas relevantes de desempenho. Naturalmente, estamos falando de uma configuração bastante superior às exigências de uma aventura desse tipo, que também não demanda muito da placa de vídeo.

Vale lembrar que alguns jogos antigos da Telltale ficaram conhecidos por problemas técnicos, especialmente nos consoles. Pelo menos na experiência que tive com esta versão no PC, esse não foi um inconveniente. Desta vez, não realizei testes no Steam Deck, portanto não vou tirar conclusões sobre o desempenho no portátil.

The Wolf Among Us Remastered
Hora da investigação. (Imagem: Divulgação)

Extras são bem-vindos, mas a ausência do português é imperdoável

Além das melhorias visuais, The Wolf Among Us Remastered inclui conteúdos adicionais voltados principalmente aos fãs interessados em conhecer melhor o processo de criação da aventura original.

Entre os materiais estão mais de uma hora de entrevistas e vídeos de bastidores, galerias de artes conceituais e cinco cenas descartadas durante a produção de 2013, que agora podem ser jogadas separadamente. São complementos interessantes para preservar parte da história de desenvolvimento do jogo, especialmente considerando a importância que a Telltale teve para o gênero de aventuras narrativas.

Particularmente, recomendo visitar esses materiais somente depois de concluir a campanha, evitando possíveis spoilers. As cenas descartadas são especialmente interessantes porque permitem conhecer ideias que acabaram ficando de fora da versão final. Em alguns momentos, inclusive, fiquei me perguntando por que determinados trechos foram removidos, já que poderiam até funcionar dentro da história. Mas é justamente essa possibilidade de observar caminhos diferentes durante o desenvolvimento que torna o conteúdo tão interessante.

The Wolf Among Us Remastered
Uma luta interessante nos aguarda (Imagem: Divulgação)

Foi uma sensação semelhante à que tive com os Níveis Perdidos de The Last of Us Part II Remastered. Naquela ocasião, a Naughty Dog também permitiu que os jogadores conhecessem partes descartadas da aventura original. Gosto bastante desse tipo de material porque oferece uma perspectiva diferente sobre o processo de criação dos jogos, mostrando ideias que, por um motivo ou outro, não chegaram ao produto final.

Entretanto, existe uma ausência que considero muito mais relevante do que qualquer melhoria gráfica: o jogo continua sem localização oficial em português brasileiro.

E esse é um problema que não consigo ignorar. Afinal, estamos falando de um título lançado originalmente há 13 anos, que agora recebe uma nova edição com gráficos aprimorados, conteúdos extras e uma apresentação modernizada, mas que continua deixando de fora uma parcela considerável do público brasileiro.

The Wolf Among Us Remastered
Lamentável que The Wolf Among Us Remastered esteja em inglês (Captura de tela: PC/Lucas Soares/Pizza Fria)

Como mencionei na introdução, a barreira do idioma foi justamente um dos motivos que me impediram de jogar The Wolf Among Us quando ele chegou ao mercado. Hoje consigo acompanhar a história em inglês sem as mesmas dificuldades, mas isso não significa que todos os jogadores brasileiros tenham essa possibilidade.

Em um título essencialmente narrativo, compreender os diálogos não é apenas uma questão de conveniência. É parte fundamental do gameplay. Muitas decisões precisam ser tomadas rapidamente, e não entender exatamente o que está sendo dito pode comprometer a experiência e até o envolvimento com os personagens.

E, considerando que a Telltale já ofereceu português brasileiro em outros títulos de seu catálogo, como os jogos do Batman e até os últimos jogos de The Walking Dead, essa ausência se torna ainda mais difícil de justificar.

The Wolf Among Us Remastered
Essa frase traduzida ficaria muito boa. (Captura de tela: PC/Lucas Soares/Pizza Fria)

É uma oportunidade desperdiçada. Se o objetivo do remaster é apresentar esse clássico a uma nova geração, deixar de fora o português brasileiro significa manter uma barreira que já existia em 2013 e que poderia finalmente ter sido superada.

Vale a pena comprar The Wolf Among Us Remastered?

The Wolf Among Us Remastered chega em um momento interessante para a Telltale Games. Depois de enfrentar o fechamento de sua estrutura original, uma retomada sob nova administração e anos de incerteza em torno de seus projetos, o estúdio prepara o terreno para The Wolf Among Us 2, sequência que passou por dificuldades de desenvolvimento e atualmente está prevista para 2027.

Nesse contexto, revisitar a primeira aventura de Bigby Wolf faz bastante sentido. Para os fãs antigos, é a oportunidade de reencontrar personagens conhecidos em uma versão visualmente aprimorada. Para quem nunca jogou, como eu, é a chance de finalmente conhecer um dos títulos mais importantes do catálogo da Telltale.

E posso dizer que gostei bastante da experiência. A história apresenta personagens interessantes, consegue desenvolver bem seus mistérios e utiliza a estrutura episódica de maneira competente, especialmente nos momentos finais de cada capítulo. A remasterização, por sua vez, preserva tudo isso enquanto acrescenta melhorias visuais e conteúdos adicionais que ajudam a valorizar o relançamento.

É importante, porém, alinhar as expectativas: não estamos diante de um remake, de uma história reconstruída ou de uma experiência completamente diferente daquela apresentada em 2013. As mecânicas continuam praticamente as mesmas, assim como as possibilidades narrativas oferecidas aos jogadores.

Minha maior ressalva continua sendo a ausência do português brasileiro. É frustrante perceber que, tantos anos depois, um jogo que depende tanto da compreensão de sua narrativa ainda não recebeu o cuidado de oferecer legendas em nosso idioma. E, para mim, essa questão possui um peso especial justamente porque foi o motivo que me afastou da aventura original.

Ainda assim, The Wolf Among Us Remastered representa uma excelente oportunidade de conhecer Fabletown antes da chegada da sequência. Se você gosta de histórias policiais, personagens moralmente ambíguos e aventuras baseadas em escolhas, há bons motivos para colocar o jogo no radar. Só é necessário ter em mente que, pelo menos por enquanto, a experiência continua exigindo conhecimento de outro idioma para ser plenamente aproveitada.

The Wolf Among Us Remastered estreia nesta quinta-feira, 29 de outubro, para Nintendo Switch, PC, via Epic Games Store e Steam, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela PM Studios.

The Wolf Among Us Remastered

8.4

História

9.0/10

Gráficos e Sons

8.0/10

Gameplay

8.0/10

Extras

8.5/10

Prós

  • História envolvente, com ótimos mistérios e ganchos narrativos.
  • Personagens interessantes e ambientação noir muito bem construída.
  • Melhorias visuais significativas, preservando a identidade artística original.
  • Conteúdos extras interessantes, incluindo cenas descartadas jogáveis.
  • Todos os cinco episódios disponíveis desde o lançamento.

Contras

  • Ausência de localização em português brasileiro.
  • Escolhas com impacto limitado no desenvolvimento da história principal.
  • Gameplay inalterado em relação à versão de 2013.

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.