Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 | Review
Fui um adolescente que cresceu jogando Vampiro: A Máscara. Quando soube da chegada de Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2, game da Paradox Interactive, feito em parceria com a White Wolf e a desenvolvedora The Chinese Room, para PC, via Steam, GOG.com e Epic Games Store, PlayStation 5 e Xbox Series X|S, me empolguei. A cada trailer e apresentação dos clãs, ficava mais animado. Afinal, era um RPG de mesa tomando novamente sua forma digital. Pensei comigo mesmo: “certamente será melhor que o primeiro”. Mas será mesmo? Vamos descobrir juntos nessa análise!
Uma história típica do mundo dos vampiros
Em Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 controlamos Phyre, o/a chamado/a Nômade, que nada mais é que um vampiro ancestral que desperta do nada em uma Seattle moderna, onde as intrigas políticas da Camarilla, os conflitos entre clãs e o frágil equilíbrio da Máscara dominam o submundo da noite. Isso é bem legal, ainda mais quando vai sendo explicado. Além disso, a ideia de um ser antigo tentando se adaptar a um mundo contemporâneo é excelente e é muito bem explorada, trazendo boas doses de ironia e melancolia.
Sem dar muitos spoilers, vale mencionar que o enredo é centrado na relação entre Phyre e Fabien, um vampiro detetive que vive preso na mente do protagonista, falando com ele o tempo todo. Essa dualidade interessante, entre o diálogo interno entre o instinto e a razão, é um dos pontos mais altos do jogo. Aliás, os personagens são bem escritos aqui. Fabien, por exemplo, é espirituoso, sarcástico e profundamente humano, contrastando com a frieza milenar de Phyre. À medida que a história avança, o mistério sobre essa ligação se aprofunda, revelando camadas que nos prendem à trama.

Há também o encanto de explorar uma sociedade vampírica em crise, onde cada personagem tem sua própria agenda e moralidade distorcida. O enredo é bem escrito e, embora conduzido linearmente, não é ruim. Ele traz consigo alguns raros momentos de escolhas morais que, mesmo não alterando drasticamente o final, oferecem nuances e pequenas variações de desfecho, nos dando algum poder sobre a história. É pouco, mas acho que o suficiente para ela se desenvolver bem.
Um bom ponto da narrativa é a atmosfera criada. Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 consegue traduzir visualmente o que significa ser um predador imortal em uma cidade que nunca dorme, mas que também nunca te pertence. Drogas, caos, violência, tudo isso é perceptível ao cair da noite. Porém, ao andar pela cidade, acabamos observando que, mesmo com essa atmosfera sombria, muitos NPCs se repetem e agem de forma bem estúpida, algo que vai minando a imersão do jogo. Isso poderia ser bem melhor.

Seattle é legal, mas tem suas limitações
Ou seja, conseguiram recriar uma Seattle fria e coberta por uma nevasca, algo que usam de artifício para diminuir os NPCs nas ruas e os automóveis, que são raros, além de becos escuros e medonhos, e ruas iluminadas por letreiros neon, mas os NPCs são genéricos e frustrantes. Se, por esse lado, o jogo comete alguns deslizes, os mapas interiores são bem caprichados, com boa iluminação e atenção a detalhes, trazendo apartamentos bagunçados, clubes noturnos e canteiros de obras de uma maneira bem fiel.
Mas… a cidade de Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é bem pequena. Rápido demais, a gente consegue pegar as referências, tendo pouca coisa a ser explorada. A neblina ajuda a disfarçar os problemas, é verdade, mas não esconde completamente a sensação de que este é um mundo menos vivo do que parece à primeira vista – e não estou falando isso por conta dos vampiros. Ainda assim, o trabalho artístico é digno de elogios. O frio da paisagem, o brilho do sangue e o reflexo da lua nos telhados criam uma atmosfera interessante, apesar dos pesares.

Entendendo um pouco o protagonista
No primeiro título, nós podíamos criar nosso personagem totalmente do zero, moldando atributos, aparência e história. Já em Bloodlines 2, a coisa é mais limitada. Phyre já é um ou uma personagem com a linha narrativa pronta e personalidade definida. Porém, ainda podemos escolher o gênero, a aparência, o clã e, ao longo do tempo, as roupas. As habilidades, por exemplo, são definidas pelo clã selecionado. Portanto, é limitado, reduzindo os aspectos de RPG.
Essa ideia narrativa tem seus lados positivos e negativos. Por um lado, garante um roteiro mais coeso e cinematográfico, algo que Bloodlines 2 tem. Por outro, reduz drasticamente a liberdade que tornava o primeiro jogo tão especial, mesmo não sendo lá grande coisa. Aqui, a sensação é de estar participando de uma boa história, mas sem conseguir mudar muita coisa sobre o seu destino.

Os sistemas de progressão seguem a linha moderna dos RPGs de ação, trazendo menos números e mais fluidez nas escolhas. Cada clã, Brujah, Tremere, Toreador, Ventrue, Lasombra e Banu Haqim, possui seis habilidades, divididas entre ataques, deslocamentos e poderes mentais. Desta forma, é possível misturar dons de outros clãs, mas sempre dentro de restrições. No papel, isso parece equilibrado. Na prática, limita as possibilidades de personalização. Com isso, temos como resultado uma experiência simplificada, mais acessível, mas também pouco profunda.
Não quebre a Máscara!
Um dos aspectos mais fascinantes dos vampiros sempre foi a questão da Máscara. Ou seja, a necessidade de manter o segredo vampírico dos humanos. No jogo, essa mecânica está presente e, felizmente, bem implementada. Fazer coisas como usar poderes em público, correr em velocidade sobre-humana ou se alimentar de alguém diante de humanos acaba preenchendo uma barra. Quando ela chega ao seu limite, agentes da Camarilla surgem para nos caçar. Com isso, precisamos escapar para sobreviver. Essa tensão constante entre o poder e a discrição cria alguns bons momentos. É o lembrete de que, por mais antigo e poderoso que seja, um vampiro ainda é refém das regras do mundo que habita.
Porém, o sistema não é explorado em todo o seu potencial. A inteligência artificial humana é ridiculamente previsível e, com o tempo, aprendemos a brincar com a coisa e, consequentemente, a driblar todas as restrições. A ideia é ótima, não nego, mas merecia muito mais camadas. Talvez se ela fosse mais complexa e difícil de escapar, pensaríamos melhor antes de tomar o sangue especial de alguns humanos.

Um combate bem morno
O combate em Bloodlines 2 é uma das áreas que mais me frustraram, sobretudo por ser em primeira pessoa. Ele combina ataques leves e pesados, esquivas, telecinese e o uso de habilidades vampíricas. Até posso dizer que é funcional, mas cansa, sobretudo por não ter um peso, sendo sempre repetitivo. No começo, há o prazer de dominar um vampiro que salta entre telhados, lança inimigos pelo ar e se alimenta em pleno confronto. Mas, após algumas horas, os combates começam a ficar muito sem graça, repetitivos e limitados. Inimigos, mapas e estratégias acabam sempre muito parecidas.
O sistema de parry, por exemplo, baseado em investir contra o inimigo no momento certo, é pouco intuitivo e acaba nem sendo muito usado. A variedade de poderes poderia compensar, mas o fato de só poder equipar quatro habilidades ativas limita as combinações. Isso é compreensível, sobretudo para jogadores de consoles, mas a gente sabe que existem alternativas.

Ainda assim, há algo bom em Bloodlines 2. Usar a telecinese, por exemplo, para manipular armas e dispará-las com a mente, ou atrair objetos do cenário, é divertido em qualquer jogo, convenhamos. Mas aqui, alguns poderes de clã, como o “Beijo Encantador” dos Toreador, dentre a força bruta dos Brujah e outras tantas habilidades dos outros clãs, trazem boas oportunidades táticas. Contudo, é nítido que falta refinamento. O combate deixa a desejar, tirando nossa vontade de continuar a jogar.
Missões secundárias são frustrantes
Um bom RPG pode ser medido tranquilamente, pela qualidade de suas missões secundárias. Aqui, Bloodlines 2 falha feio. Após tornar-se xerife de Seattle, Phyre recebe tarefas de três contatos: Onda, Niko e Mrs. Thorn. Porém, todas soam como variações de “vá até ali e mate alguém” ou “busque este item”. Isso é um saco, sobretudo se não tem uma narrativa para dar uma maior imersão.
Essas atividades não desenvolvem personagens, não adicionam contexto ao mundo e não têm consequências narrativas. Parece mero preenchimento, pois não fazem diferença alguma. A ausência de linhas de história interligadas ou de dilemas morais relevantes enfraquece o conjunto. O jogo poderia usar essas missões para explorar melhor os clãs, as seitas ou o próprio passado de Phyre. É uma pena, porque o universo Vampire: The Masquerade merecia mais.

Parte técnica
Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é um jogo esteticamente bonito, embora alterne lugares com mais detalhes e outros muito simplórios, como boa parte das ruas de Seattle. Além disso, sofremos ao ver os NPCs que andam pelas ruas, sendo sempre iguais, tirando boa parte da imersão. Nem a névoa do mapa consegue esconder isso. Já os detalhes dos personagens, felizmente, são bem explorados, com boas expressões e texturas. Mas, sei lá. Fica a impressão de que está faltando algo.
Na parte de áudio, o jogo é caprichado, com dublagens excelentes e bem fiéis, sobretudo nos diálogos entre Phyre e Fabien. Ao ouvirmos ambos discutindo, temos realmente a sensação de estar ouvindo uma “voz na consciência”. Nos outros personagens, a coisa também segue o mesmo ritmo. Nas ruas, novamente, somos levados a repetições de diálogos e limitações de respostas definidas pelo próprio jogo. Falta profundidade, de novo.

Por fim, vale ressaltar que, ao jogar Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 no PlayStation 5, o jogo apresenta oscilações de quadros por segundo no modo qualidade, algo já esperado. No entanto, o título apresenta travamentos em excesso, algo desagradável aos nossos olhos. No modo de desempenho, a situação melhora um pouco, mas sacrificando a parte gráfica. Aí fica fácil…
Vale a pena jogar Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2?
Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é até um bom jogo, mas viverá sempre à sombra de algo que poderia ter sido e, pior, de uma franquia repleta de possibilidades. Ele acerta na ambientação, entrega um enredo sólido e um protagonista intrigante, mas falta alma na jogabilidade. É como um vampiro elegante, que entra no salão com postura nobre — mas que, ao dançar, revela que esqueceu o ritmo. Os desenvolvedores fizeram um trabalho interessante, porém extremamente contido, e talvez essa seja a melhor definição possível: Bloodlines 2 é seguro demais para ser memorável.
No fim, a longa espera para jogar acaba sendo exatamente o contrário esperado, algo que julgo como bastante frustrante. O mistério do começo, aquele que você sente logo ao abrir o jogo e a entender os propósitos de Phyre, se revela agora: Bloodlines 2 não é o título que eu esperava, mas também não é a pior coisa do mundo. É apenas um reflexo pálido de uma lenda que, felizmente, ainda se recusa a morrer – e que pode ter uma vida digna em outra oportunidade.
*Review elaborada em um PlayStation 5, com código fornecido pela Paradox.
Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2
R$ 219,99+Prós
- Narrativa bem escrita, com mistério consistente e ótima dinâmica entre Phyre e Fabien
- Jogo legendado em português brasileiro
- Personagens principais interessantes e com motivações críveis
Contras
- Combate se torna repetitivo; sistema de parry pouco intuitivo e pouco útil
- Missões secundárias genéricas e desconectadas, desperdiçando o potencial do cenário
- Mundo pequeno e exploração rasa; repetição visível de modelos de NPC
- IA previsível e pouca consequência prática para várias escolhas de diálogo
- Rejogabilidade modesta: trocar de clã altera pouco a experiência geral


