Winter Burrow | Review
Winter Burrow chegou até mim como aqueles jogos discretos à primeira vista, mas capazes de revelar, aos poucos, um encanto próprio. Aliás, favoritei o título porque logo de cara gostei dos visuais e de sua proposta: voltar para casa – ou para o que restou dela – é o ponto de partida dessa aventura aconchegante de sobrevivência, exploração e pequenos rituais cotidianos. E foi justamente essa mistura de familiaridade, frio cortante e descoberta constante a me acompanhar durante toda a experiência.
Desenvolvido por Pine Creek Games e publicado por Noodlecake, Winter Burrow está disponível PC, via Steam, Xbox Game Pass, Xbox e Nintendo Switch. É um jogo acessível em praticamente todas as plataformas modernas. Se quiser descobrir se Winter Burrow é para você, confira a análise para o Pizza Fria!
História
Abri Winter Burrow no meu Nintendo Switch 2 e, como primeira ação, mudei o idioma para português do Brasil nas opções. Em seguida, comecei um novo jogo. Como nas coloridas ilustrações de livros infantis, nosso protagonista conta sua história. Na primeira página, um camundongo corta lenha diante do tronco de uma árvore já abatida. Sem dublagem, lemos frases curtinhas que ambientam o jogador. A cada trecho, uma nova ilustração revela a triste história da família de roedores.
“A toca era o lar dos sonhos do papai e da mamãe. Um lugar onde todos poderiam se manter quentes e seguros. A tia Betulina sabia muito mais sobre sobreviver na natureza do que conseguiu me ensinar. Mas não durou muito, pois a natureza parecia preocupar meus pais. A promessa de uma cidade em crescimento não desapontou, inicialmente. Os únicos empregos disponíveis eram nas minas, e isso era difícil para os meus pais. Eles quase conseguiram ganhar o necessário para comprar os bilhetes de volta para casa antes de falecerem. Eu vendi tudo. Arrumei minhas coisas e parti para minha casa de verdade. A antiga toca estava irreconhecível agora. Por que a tia Betulina não cuidou dela?”

Diário de um camundongo sobrevivente
Começando pelo começo: depois do conto de abertura, o camundonguinho órfão estava em sua antiga casa na floresta. Neve cercava a toca, agora destruída pelo abandono. As escadas para o segundo andar estavam tomadas por raízes que impediam a passagem, a poltrona estava destruída e havia gravetos por todos os cantos. A porta para o porão permanecia trancada com um cadeado sem chave.
Com o controle do ratinho finalmente em minhas mãos, a tela exibiu pelas bordas vários elementos ainda sem muita explicação. O relógio no canto mostrava quatro estágios do céu durante o dia – amanhecer alaranjado, dia ensolarado, entardecer alaranjado e noite escura. Logo abaixo, uma tira de texto indicava a missão da vez: “Acenda o fogo”. Do outro lado, à direita, ficavam os ícones da mochila e do diário, que se atualizava com minhas tarefas.
Na parte inferior, cinco quadradinhos revelavam suas funcionalidades para exploradores experientes: ferramentas como machado e picareta apareceriam ali, assim como os itens encontrados. Também vi quatro barras coloridas: a vermelha, da saúde; a amarela, do queijo, representando a fome; a laranja, com uma chama, indicando conforto térmico; e a azul, com pulmõezinhos, o vigor para correr. Imagine o tamanhico dos pulmões de um ratinho que não é mais alto que um polegar.

Para começar pelo começo, resolvi recolher os gravetos. A poltrona e o antigo fogão a lenha precisariam ser reparados. Felizmente, os galhos serviram para acender a lareira e me aquecer um pouco. A ação me presenteou com uma nova receita: um machado rústico. As instruções diziam para visitar a estação de trabalho – uma mesa de madeira com uma marreta em cima, o ateliê onde os objetos seriam fabricados.
Na mesa, a aba de marcenaria exibia quais materiais seriam necessários para criar o “Machado de Arenito”: um graveto, uma pedra e algumas fibras. Era hora de sair pelo mundo em busca da matéria-prima da minha primeira ferramenta.
Com os pezinhos para fora da toca, o ratinho corre e deixa pegadas na neve que mais parecem pontinhos feitos pela ponta de uma caneta. A bela paisagem invernal revela como será minha aventura em Winter Burrow: neve por todos os cantos e um bosque com estilo desenhado à mão, com tinta, bordas grossas e perspectiva isométrica. Todos os elementos em duas dimensões repousam sobre um mapa que parece projetado.
Foi então que lembrei do mapa. Apertei “+” (lembre-se, joguei no Switch) e naveguei pelos menus – nada além do diário e do meu equipamento, que eu podia tirar ou reorganizar. Tudo bem. Algo me dizia que, dali em diante, eu precisaria prestar atenção ao terreno, pois não teria um mapa. Como ainda amanhecia, continuei explorando. Encontrei pedras e galhos, e folhas ressecadas formavam uma trilha que se dividia mais adiante.

Enquanto procurava a fibra, notei que algumas barras começavam a diminuir. O ratinho correu porque segurei um botão, e a barra azul de vigor se esvaziou. Sem fôlego, nada de corridas. Com o passo normal, ela voltava aos poucos. Aprendi que o frio do lado de fora também o afetava: o desconforto aumentava rapidamente conforme a barra da chama diminuía. A barra da fome também caiu um pouco, embora mais devagar. Ainda bem que a saúde estava intacta!
Assim que recolhi a fibra, corri de volta para a toca e construí o machado. Rá! Um mundo de possibilidades se abriu agora que eu tinha uma ferramenta em mãos. Fiquei lá apenas o necessário para encher a barra de conforto térmico e logo saí novamente para explorar Winter Burrow. Nesse meio-tempo, o relógio marcava o início do dia ensolarado, e percebi uma correlação: com o sol, o frio era menos intenso e o desconforto térmico desacelerava.
A barra da fome, porém, diminuía. Mas nada que impedisse uma boa vasculhada. Peguei mais pedras, galhos e até um mirtilo. Cortei troncos e encontrei uma ponte quebrada, desgastada pelo tempo. Para consertá-la, eu precisaria de tábuas e cordas – materiais que eu ainda não sabia fabricar.
Quando a barra de temperatura ficou abaixo da metade, o efeito de congelamento tomou as bordas da tela como um lembrete claro: “hora de voltar para ficar quentinho”. Ao tentar entender melhor os arredores, vi um besourinho andando por perto, mas não interagi – voltei à toca. Já que estava ali e tinha a matéria-prima necessária, construí uma cama.

Nesse momento, Winter Burrow revelou sua faceta de jogo de decoração – talvez o lado mais aconchegante dele. Com a cama pronta, descobri o modo decoração, que me permitia organizar a casinha, girar objetos e colocá-los onde quisesse. Ainda assim, a poltrona e o fogão esperavam reparos. Ajeitei a cama, e o objetivo mudou para: “Um lugar para tricotar – repare a poltrona empoeirada”. Ao investigá-la, vi que precisaria de mais materiais, alguns diferentes. Uma vez quentinho, era hora de sair de novo.
Desta vez, saí decidido a pegar tudo que pudesse. O ratinho corria perto de um lago, entre folhas secas e muitos obstáculos naturais intransponíveis. A natureza oferecia materiais mais variados e, num piscar de olhos, a bolsa ficou cheia de galhos, fiapos de pelos de animais grandes… Também passei perto de um dos besouros – eles não representam grande ameaça; bastam uma machadada, uma esquiva, outra machadada, até cair e deixar um pedaço de carne.
O dia já escurecia e o frio entrava mais rápido pela roupa simples do roedor. Era hora de voltar, restaurar a poltrona e dormir na nova cama para recuperar o pouco de saúde e todo o conforto térmico perdidos durante o dia.

Ciclo de jogabilidade
Um dia durou cerca de quinze minutos, e Winter Burrow se propõe a algo simples e gostoso: sair da toca, recolher insumos pelo mundo nevado enquanto for possível e voltar para casa quando necessário. Na visita à toca, aproveite para construir mais objetos e aprimorar seu cantinho.
No segundo dia, por exemplo, restaurei a poltrona e, de repente, pude tricotar linho, cordas e roupas novas – mais quentinhas, como um gorro, um suéter e calças capazes de enfrentar melhor o frio congelante. Mais tarde, já era possível fabricar sapatos próprios para a neve, com os quais o ratinho corria mais rápido. Besouros e seus primos estranhos dificultavam o caminho, mas o combate se manteve sempre simples, sem gerar pânico.
Assim que pude, também consertei a ponte e, conforme minhas expedições avançavam, conheci personagens caricatos pela jornada – como Bufo, o sapo que deixou o filho partir por causa de um desentendimento, ou o esquecido esquilo Gnawtusk, incapaz de lembrar onde enterrou nozes e sachês de ervas medicinais.

Eles me presentearam com melhorias para as ferramentas, que passaram a cortar diferentes tipos de madeira, cavar solos variados e quebrar pedregulhos resistentes. Até mesmo uma lamparina apareceu em boa hora, útil para navegar pela parte sombria da floresta ou caminhar à noite. Para sobreviver ao frio longe do lar, o camundongo aprendeu também a fazer fogueiras – um ótimo facilitador, embora isso significasse administrar o inventário com mais cuidado.
Felizmente, às vezes alguém me presenteava com o molde de uma mochila maior. Também ganhei itens para decorar a toca, agora com um porão aberto onde planto cogumelos e com escadas reparadas para o segundo andar, que se transformou num quarto cheio de plantas e flores.
Falando em cogumelos, eles aparecem em várias espécies e, assim como as frutas encontradas, servem para preparar refeições. Além de encherem a pança do protagonista, algumas receitas oferecem efeitos especiais – como a sopa, que restaura o conforto térmico.
E o que acontece quando as barras de temperatura e fome se esvaziam? Nosso herói começa a tomar dano aos poucos até conseguir repor as energias. Apenas uma vez calculei mal a rota e deixei que ele desmaiasse de exaustão no caminho. Os itens da mochila ficaram exatamente onde ele caiu e… foi isso. Winter Burrow não está interessado em punir o jogador, mas em permitir que a história de sobrevivência seja vivida aos poucos.
Por fim, não existe um mapa, então você precisa criar referências com notas mentais e elementos únicos do cenário – a ponte, o caldeirão do esquilo Gnawtusk, a carapaça abandonada de um caracol… E navegar é simples, pois a ideia do jogo é justamente aproveitar tudo no seu ritmo.

Controles, visuais, som e dificuldade
Os controles de Winter Burrow respondem quase sempre bem. Se pudesse alterar algo, talvez permitisse mais do que seis direções de movimento para o ratinho… Ainda assim, entendo a limitação imposta pela proposta artística dos visuais isométricos.
Organizar o inventário, por sua vez, pode se tornar um pequeno exercício de paciência. Na mochila ou no baú, pegamos objeto por objeto e os colocamos em suas respectivas caixinhas – não há um atalho para filtrar tudo automaticamente ou separar itens por tipo de material. Isso significa que, se quiser tirar algo do baú, você terá de navegar manualmente. Aliás, uma vez dentro da toca, todos os baús e a mochila são interconectados, o que ao menos facilita o acesso aos recursos.
Durante a exploração ao ar livre, encher a mochila não é frustrante: tudo permanece no lugar onde foi deixado, mesmo que você largue itens pelo caminho. A comida não é perecível e as ferramentas não se desgastam, reforçando a ideia de que um jogo de sobrevivência não precisa ser angustiante para funcionar.
O material oferecido pelos criadores afirma que o título nasceu do sonho de desenvolver um jogo de sobrevivência menos intenso do que os tradicionais, mas ainda assim cheio de desafio e profundidade. Eles também mencionam suas referências para a ambientação – entre elas, livros infantis clássicos como O Vento nos Salgueiros e a série animada Para Lá do Jardim, do Cartoon Network.
Nesse sentido, os visuais cumprem a proposta com maestria e são um verdadeiro colírio para jogadores de todas as idades. Em uma era marcada por polígonos hiperestilizados, pixel art ou flat design de cores saturadas, a paleta invernal e pastel de Winter Burrow, somada às ilustrações orgânicas feitas à mão, funciona como um oásis.
As composições musicais acompanham o mesmo capricho: melodias delicadas embalam a narrativa e escalam rapidamente para notas graves quando o perigo se aproxima. Winter Burrow pode não soar – nem parecer, à primeira vista – muito variado em temas, mas oferece uma dose concentrada e acolhedora de arte visual e sonora, aquecendo um mundo frio visto bem de pertinho.

Vale a pena jogar Winter Burrow?
Eu vejo Winter Burrow como um jogo que acerta em cheio naquilo a que se propõe: ser uma aventura gostosa, aconchegante, quase uma fábula digital, sem punir ou sufocar jogadores. Sei que fui devagar e gosto de coletar mais do que o necessário, o que fez com que meu tempo de conclusão ultrapassasse as nove horas. Depois de viver a história, a única motivação para retornar seria decorar eternamente a toca, sem muito mais. O mundo não é gigante, nem sequer enorme, mas é um labirinto – especialmente se você for um camundongo.
O mapa não faz falta, e é encantador perceber, em retrospecto, como sua ausência retirou a conveniência de um simples botão para me forçar a exercitar o cérebro e compreender melhor para onde ir na floresta gelada. O fato de Winter Burrow estar muito bem traduzido para o português do Brasil garante pontos extras – embora eu tenha encontrado um ou outro errinho bobo de digitação.
Sei que nem todo mundo é fã de jogos aconchegantes ou que muitos julgarão Winter Burrow como infantil por causa dos visuais. Mas ainda assim, recomendo com muita facilidade a quem quiser sair da rotina com um pouco de “nostalgia inédita”, se é que isso faz sentido; a quem, independentemente da idade, quiser jogar ao lado dos filhos, sobrinhos ou sobrinhas; e a quem busca um pouco de escapismo – mas não aquele escapismo vazio, sem propósito.
Winter Burrow guarda um conto cativante, delicado e com um ritmo preciso, tão preciso que se ajusta a quem estiver jogando. E só por isso já deveria ganhar uma chance de todos que chegaram até aqui.
Winter Burrow
R$ 59,99+Prós
- Atmosfera aconchegante e reconfortante
- Sobrevivência sem punição frustrante
- Loop de progressão satisfatório
- Tradução ao português do Brasil
- Exploração sem mapa recompensadora
Contras
- Inventário tedioso de organizar
- Movimentação limitada
- Mundo relativamente pequeno
- Combate simples demais
- Pouca motivação para continuar após a história


