STEINS;GATE RE:BOOT | Review
Nunca imaginei que as visual novels se tornariam o gênero de jogo que eu mais consumiria regularmente.
Hoje, tenho uma oportunidade única de falar sobre Steins;Gate, uma das visual novels mais famosas do mundo, especialmente após a excelente adaptação para anime que recebeu em 2011.
STEINS;GATE RE:BOOT marca o terceiro lançamento da franquia, que também recebeu, em 2018, um remake intitulado STEINS;GATE ELITE, que utiliza cenas do anime e apresenta um roteiro reduzido.
Venha comigo revisitar esse clássico moderno da ficção científica e descobrir o que essa nova versão adiciona, modifica ou melhora em relação às anteriores, em mais uma análise do Pizza Fria!
Ficção científica e slice of life se encontram
Os eventos de Steins;Gate se passam em 2010. Acompanhamos os experimentos e o cotidiano de Rintaro Okabe, um jovem aspirante a cientista (mais do que excêntrico) que mantém um clube de ciências improvisado em seu apartamento. Ali, reúne seus poucos amigos para criar as invenções mais malucas que sua mente consegue imaginar.
Durante uma visita a uma palestra sobre viagem no tempo, Okabe se depara com uma situação impossível: encontra uma jovem que acabara de conhecer morta em uma das salas do prédio onde ocorreria o evento. Após fugir desesperado, envia uma mensagem ao seu amigo hacker Daru, contando o ocorrido.
Só que, na verdade, nada daquilo havia acontecido. A palestra sobre viagem no tempo tinha sido cancelada e Kurisu Makise, a jovem que encontrara morta, estava viva.

A partir daí, Okabe inicia uma busca para entender o fenômeno que vivenciou, descobrir sua causa e encontrar uma maneira de replicar essa estranha alteração temporal.
Descrita dessa forma, a história pode parecer séria e focada no drama desde o início. É justamente nesse aspecto que Steins;Gate pode decepcionar ou demorar a empolgar alguns jogadores. Apesar das constantes explicações científicas, muitas delas incrivelmente detalhadas e coerentes (às vezes, até lembrando o filme Primer), a narrativa passa várias horas dedicada ao humor e ao slice of life.
Esse período cria uma base sólida, que será explorada de maneira mais intensa e provocativa quando todas as cartas estiverem devidamente na mesa. Para mim, essas duas facetas são complementares e bastante equilibradas. O drama não teria o mesmo impacto sem o humor, e vice-versa.
Mesmo sendo uma experiência majoritariamente linear, STEINS;GATE RE mantém diversas escolhas realizadas por meio do celular. Considero isso um acerto, já que a versão ELITE simplificou bastante essa mecânica. Ainda assim, o sistema continua sendo alvo de debates na comunidade, apesar de representar uma das características mais marcantes da obra.
O acesso às diferentes rotas e a identificação das escolhas que levam a outros desdobramentos narrativos estão longe de ser amigáveis. Salvar o jogo em diversos pontos e recarregar arquivos de salvamento é uma prática constante para conhecer todas, ou pelo menos boa parte, das possibilidades.
Isso, somado a uma narrativa que inicialmente não transmite tanta urgência, pode afastar alguns jogadores.

As novidades de STEINS;GATE RE:BOOT
O maior atrativo de STEINS;GATE RE:BOOT está nas novas ilustrações e na implementação do sistema E-mote, que permite aos personagens apresentarem movimentos relativamente constantes. Na versão de 2009, apenas as bocas dos sprites se mexiam, enquanto agora é possível perceber movimentos da cabeça, dos olhos, dos braços e até dos cabelos.
Gostei da atenção dedicada aos movimentos de cada personagem, que respeitam muito bem suas personalidades. A energética Faris, por exemplo, é muito mais agitada e expressiva do que a estoica e determinada Kurisu. Ainda assim, os trejeitos e a identidade de cada uma são facilmente reconhecíveis.
A nova direção artística merece elogios, especialmente pela quantidade de CGs inéditas e pela qualidade dos cenários. Estes, em particular, estão extremamente detalhados e, a meu ver, representam uma evolução perfeita do que tínhamos no jogo original.
As CGs também contribuem para o ritmo da narrativa, aparecendo com muito mais frequência do que na versão de 2009, enquanto os sprites estão mais vivos do que nunca. Mesmo para quem já conhece a história, a experiência flui muito bem.

No jogo original, a ausência de uma rota dedicada a Moeka Kiryu era notável. STEINS;GATE RE:BOOT corrige isso ao adicionar uma rota inteira focada na personagem. E, apesar de seu desenvolvimento não ser tão empolgante quanto os acontecimentos que a iniciam, a altíssima qualidade do roteiro se mantém, enriquecendo o conteúdo de Steins;Gate e até mesmo da franquia Science Adventure!
Outra adição muito bem-vinda é a possibilidade de consultar acontecimentos anteriores por meio de uma nova aba chamada Observer. Ela apresenta um registro bastante detalhado dos eventos, com datas e horários de praticamente todos os acontecimentos relevantes do jogo. Inclusive, algumas especulações antigas podem ser confirmadas por meio dessa ferramenta.
Quanto aos visuais dos personagens, além da atualização gráfica, alguns designs foram modificados. Inicialmente, estranhei o fato de o estilo mais “cru” do original, que também contribuía para a atmosfera de suspense da obra, ter sido quase totalmente abandonado.
Mas essas são impressões que tive ao comparar as duas versões. O sistema E-mote e a qualidade excepcional das dublagens dão tanta vida aos personagens quanto seus próprios visuais, se não até mais.
Os novos sprites continuam muito bem-feitos, embora eu não os considere necessariamente uma evolução da arte de 2009, que permanece mais marcante e reconhecível do que a de RE. A versão de 2026 ganha muito mais força quando vista em constante movimento do que quando suas ilustrações são analisadas isoladamente.

O que não funciona em STEINS;GATE RE:BOOT
A localização para o inglês de STEINS;GATE RE:BOOT apresenta alguns problemas que merecem atenção. Eles não estão relacionados à tradução em si, que continua excelente e é assinada pela dupla Steiner e Blick Winkel, também responsável pela tradução do título original de 2009.
Os problemas aparecem na maneira como o texto traduzido foi implementado. Em diálogos que chegam a ocupar quatro linhas, as letras ficam consideravelmente comprimidas.
Apesar de perfeitamente legíveis, essas situações acontecem cerca de duas a três vezes por capítulo, causando um breve estranhamento durante a narrativa. Outro detalhe é que as CGs que apresentam textos em japonês nos cenários não foram localizadas para o inglês. Isso já é perceptível na primeira hora de jogo, durante a palestra de Kurisu sobre viagem no tempo.
Em comparação com os textos comprimidos, esse segundo problema aparece com muito menos frequência, ocupando apenas alguns minutos das mais de 25 horas de STEINS;GATE RE:BOOT. Ainda assim, considerando que o lançamento original de 2009 já apresentava esses trechos traduzidos, achei necessário ressaltar essa ausência.

Com o roteiro baseado na versão ELITE de 2018, RE:BOOT mantém algumas omissões, principalmente de monólogos internos, que foram removidos com a justificativa de melhorar o ritmo da narrativa.
Considerando a quantidade maior de CGs e a implementação do sistema E-mote, o ritmo de RE:BOOT é, possivelmente, o melhor que as visual novels de Steins;Gate apresentaram até hoje. Embora isso ainda seja discutível.
Mesmo assim, alguns elementos omitidos em ELITE poderiam ter retornado aqui, especialmente o personagem Shido, uma figura importante para a jornada de Faris. Considerando que STEINS;GATE RE:BOOT pretende estabelecer conexões melhores com os conteúdos lançados posteriormente ao título original e com a franquia Science Adventure em geral, algumas oportunidades parecem desperdiçadas pela ausência desses segmentos.
E chegamos ao elefante na sala: o preço de US$ 60, ou R$ 250.
Apesar dos cenários, dos visuais, das vozes e das trilhas sonoras completamente refeitos, a quantidade de conteúdo inédito ainda é muito pequena diante de tudo o que retorna do lançamento original. Pelo mesmo valor, é possível adquirir Steins;Gate, Steins;Gate 0 e My Darling’s Embrace. E ainda sobra dinheiro!
O preço se aproxima do cobrado por um jogo inédito da franquia, como Anonymous;Code, mas infelizmente o conteúdo adicional está muito distante do que seria esperado por esse valor.
Apesar dos meus elogios à quantidade de novas CGs, também não entendi a remoção de algumas ilustrações que já existiam no original. Isso incomoda especialmente nos segmentos mais dramáticos, que parecem ter sido simplificados e perdido parte de seu impacto visual e narrativo.
Para evitar spoilers, não vou mencionar as cenas específicas, mas essas ausências são facilmente perceptíveis nas conclusões de algumas rotas.

Vale a pena jogar STEINS;GATE RE:BOOT?
Apesar das adições narrativas bem-vindas, de forma alguma consigo justificar a compra pelo preço cheio, seja para jogadores iniciantes ou para quem está retornando à obra.
Isso não significa que seja uma experiência descartável. Muito longe disso. Com uma narrativa complexa, longa, repleta de detalhes e diferentes possibilidades, revisitar Steins;Gate é sempre muito bem-vindo. Especialmente com tantas CGs inéditas, cenários mais detalhados, trilha sonora refeita, vozes regravadas e bons conteúdos adicionais, mesmo que poucos.
A qualidade da história, dos personagens e das músicas continua intacta. E RE:BOOT realmente faz um bom trabalho ao renovar a experiência do jogo original, dando uma nova vida a esses elementos, mesmo sem substituir a identidade visual marcante da versão de 2009.
Em uma boa promoção, STEINS;GATE RE:BOOT é uma leitura extremamente recomendada, tanto para quem vai se aventurar pela primeira vez quanto para aqueles que desejam retornar às nostálgicas ruas de Akihabara de 2010.
STEINS;GATE RE:BOOT será lançado para Nintendo Switch 2, Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series X|S em 29 de outubro de 2026. O título estreou para PC, via Steam, em agosto.
*Review elaborada em um Nintendo Switch 2, com código fornecido pela Spike Chunsoft.



