Tales of Eternia Remastered | Review
Lançado originalmente em 2000 para o primeiro PlayStation, Tales of Eternia é o terceiro título principal da franquia de RPGs da Namco, atualmente Bandai Namco. Conhecido como Tales of Destiny II em seu lançamento norte-americano, o jogo retorna mais de 25 anos depois com uma edição remasterizada, trazendo melhorias gráficas e diferentes recursos de qualidade de vida para tornar a experiência mais acessível aos jogadores atuais.
Embora já tenha jogado outros títulos da franquia, esta foi minha primeira experiência com Tales of Eternia. E, apesar de apresentar sistemas interessantes e preservar características que ajudaram a construir a identidade da série, o game também possui limitações perceptíveis, mesmo com as melhorias implementadas. Mas será que essa remasterização consegue oferecer uma experiência interessante para quem está conhecendo a aventura agora? Confira as respostas agora, em mais uma análise antecipada do Pizza Fria!
Uma aventura entre dois mundos
A história de Tales of Eternia Remastered acompanha Reid, um jovem que vive tranquilamente na vila de Rasheans, localizada em Inferia. Ao lado de sua amiga de infância, Farah, ele acaba envolvido em uma situação inesperada quando uma misteriosa garota chamada Meredy chega de outro mundo em uma espécie de nave espacial.
O problema é que Meredy fala uma língua desconhecida, dificultando qualquer tentativa de comunicação. Para compreender o que aconteceu, Reid e Farah procuram Keele, um antigo conhecido que possui conhecimentos sobre magia e os mistérios que envolvem o mundo.
A partir desse encontro, os personagens descobrem uma ameaça muito maior: Inferia e Celestia, dois mundos que coexistem em Eternia, correm o risco de colidir em um evento catastrófico conhecido como Grand Fall. Assim, o grupo parte em uma jornada para impedir a destruição dos dois mundos, explorando diferentes regiões e conhecendo personagens que ajudam a desenvolver os acontecimentos.

A premissa é interessante, principalmente pela maneira como trabalha as diferenças culturais e as dificuldades de comunicação entre os habitantes dos dois mundos. Os protagonistas também possuem personalidades distintas, com Reid assumindo inicialmente uma postura mais despreocupada, enquanto Farah demonstra maior iniciativa diante dos acontecimentos.
Entretanto, apesar de apresentar uma boa proposta inicial, a narrativa não conseguiu me envolver tanto quanto eu esperava. A chegada de Meredy desperta curiosidade, e a relação entre os personagens ajuda a sustentar a aventura, mas o desenvolvimento da história não apresenta o mesmo impacto. Não considero o enredo ruim, mas também não encontrei nele elementos suficientes para torná-lo particularmente memorável.
Batalhas em tempo real e diferentes possibilidades estratégicas
Embora apresente uma estrutura tradicional de RPG, Tales of Eternia possui um sistema de combate diferente das batalhas por turnos encontradas em muitos títulos do gênero daquela época. Durante a exploração, os encontros com inimigos acontecem aleatoriamente, transportando o grupo para uma arena separada, na qual os confrontos são realizados em tempo real.

Procurei e encontrei o nome: o sistema é chamado de Aggressive Linear Motion Battle System (A-LMBS), e permite movimentar o personagem lateralmente, realizar ataques físicos, defender-se e utilizar técnicas especiais conhecidas como Artes. Conforme a aventura avança, novos equipamentos, habilidades e magias ficam disponíveis, ampliando as possibilidades durante os confrontos.
Entretanto, as batalhas não dependem exclusivamente dos comandos executados durante a ação. Por meio dos menus, podemos administrar os equipamentos dos personagens, selecionar as técnicas que desejamos utilizar e definir quais habilidades estarão disponíveis. Também é possível configurar estratégias individuais para os companheiros controlados pela inteligência artificial, ajustando suas prioridades de ataque, utilização de magias e recuperação dos aliados.
Outro recurso interessante é a possibilidade de modificar a formação do grupo, escolhendo o posicionamento dos personagens durante as batalhas. Já os Craymels, espíritos elementais relacionados ao sistema de magia, podem ser organizados nos chamados Craymel Cages, permitindo que Keele e Meredy tenham acesso a diferentes combinações de feitiços.

Essas possibilidades oferecem uma camada estratégica considerável, especialmente para quem gosta de administrar a equipe e experimentar diferentes configurações. É um sistema que possui suas qualidades e demonstra a preocupação dos desenvolvedores em oferecer alternativas além dos ataques convencionais. Ainda assim, a movimentação limitada às arenas bidimensionais e a repetição dos encontros podem tornar os confrontos menos interessantes com o passar das horas, especialmente para quem está acostumado às evoluções mais recentes do gênero.
Exploração, culinária e diferentes minigames
Fora dos combates, a aventura segue uma estrutura bastante conhecida pelos fãs de RPGs clássicos. Percorremos um mapa-múndi, visitamos cidades, conversamos com personagens, encontramos equipamentos e exploramos masmorras que apresentam obstáculos e quebra-cabeças.

Tales of Eternia também possui um sistema de culinária que permite preparar diferentes receitas utilizando ingredientes encontrados ou adquiridos durante a aventura. Os pratos oferecem benefícios ao grupo, como recuperação de pontos de vida, enquanto novas receitas podem ser aprendidas ao encontrar o Wonder Chef, personagem que aparece disfarçado em diferentes localidades.
Podemos escolher qual integrante será responsável por preparar os alimentos e até configurar o preparo automático após as batalhas. Cada personagem possui sua própria proficiência culinária, que melhora conforme prepara determinadas receitas, reduzindo as chances de falhar durante o processo.
Outro detalhe interessante é a quantidade de minigames espalhados pela aventura. Logo nas primeiras horas, por exemplo, precisamos atravessar um rio utilizando uma jangada, controlando sua direção para evitar obstáculos. Depois, temos uma competição envolvendo uma grande bola, enquanto outros desafios incluem perguntas e respostas e diferentes atividades opcionais.

Esses conteúdos ajudam a diversificar a exploração, demonstrando que Tales of Eternia oferece mais do que simplesmente atravessar masmorras e enfrentar inimigos. Contudo, o mapa-múndi não apresenta uma construção visual atraente, e alguns ambientes também deixam a desejar na maneira como apresentam seus caminhos e pontos de passagem. Em determinadas situações, a falta de clareza sobre os locais por onde podemos caminhar torna a navegação menos intuitiva do que deveria.
Uma apresentação que preserva a identidade original
Visualmente, Tales of Eternia Remastered apresenta uma abordagem bastante conservadora. Os personagens continuam representados por sprites bidimensionais, enquanto os cenários preservam praticamente toda a composição original, com ambientes predominantemente estáticos e uma aparência que remete aos RPGs da era dos 16 bits, apesar de o jogo ter sido desenvolvido originalmente para PlayStation.
As melhorias gráficas são perceptíveis, especialmente nos personagens e nos elementos que compõem os ambientes, mas não estamos diante de uma reconstrução visual como acontece nos remakes HD-2D de Dragon Quest. Aqui, a proposta é preservar a identidade original, realizando ajustes para melhorar a apresentação nas telas atuais.

Inclusive, é possível alternar entre os modos gráficos original e remasterizado, assim como escolher os efeitos sonoros de cada versão. Embora essa liberdade seja bem-vinda, os cenários nem sempre apresentam uma aparência agradável, principalmente no mapa-múndi, que continua visualmente simples mesmo com os ajustes realizados.
Um dos maiores destaques da apresentação, por outro lado, está nas sequências animadas em estilo anime. Produzidas pela Production I.G. para o jogo original, elas reforçam a identidade visual da franquia, que já utilizava esse recurso desde Tales of Destiny, lançado em 1997.
Embora hoje essa característica seja bastante conhecida pelos fãs, especialmente em títulos como Tales of Berseria e Tales of Arise, é interessante perceber como a série já apostava nessa linguagem visual há tantos anos. As animações continuam sendo um dos elementos mais interessantes de Eternia, principalmente pelo contraste com a apresentação tradicional encontrada durante a exploração.

Já a trilha sonora não consegue alcançar o mesmo destaque. As composições cumprem seu papel ao acompanhar a aventura, mas poucas músicas realmente chamaram minha atenção. Considerando a importância que a música pode ter na construção da atmosfera de um RPG, senti falta de temas mais marcantes durante a experiência.
As melhorias de qualidade de vida fazem diferença
Se a apresentação gráfica recebeu mudanças relativamente discretas, a jogabilidade foi contemplada com melhorias mais significativas. Uma das principais novidades é o sistema Boost, que permite modificar diferentes parâmetros da experiência, incluindo os ganhos de experiência e Gald, moeda utilizada no jogo, que podem ser multiplicados em até quatro vezes.
Também é possível acelerar o desenvolvimento de determinadas habilidades, ajustar o dano causado e recebido em até cinco vezes e controlar a frequência dos encontros aleatórios. Nesse último caso, podemos manter os confrontos na frequência normal, reduzi-los ou simplesmente desativá-los, permitindo explorar os ambientes sem interrupções constantes.

Vale destacar que o multiplicador de dano funciona para os dois lados, aumentando tanto os ataques realizados pelo grupo quanto os golpes recebidos dos inimigos. Portanto, embora possa acelerar determinados confrontos, também exige cuidado, especialmente diante de adversários mais poderosos.
Outras melhorias incluem a possibilidade de acelerar as batalhas realizadas no modo automático, utilizar o Battle Retry para repetir confrontos após uma derrota e acessar o Quick Recovery, que facilita a recuperação dos personagens diretamente pelo menu. Os marcadores de objetivos também ajudam a identificar os próximos destinos, reduzindo parte das dificuldades de navegação.
São mudanças muito bem-vindas, principalmente porque permitem adaptar a experiência ao tempo e às preferências de cada jogador. A possibilidade de evitar batalhas desnecessárias, por exemplo, torna a exploração mais agradável, enquanto os ajustes de progressão diminuem a necessidade de dedicar tantas horas à evolução da equipe.

Entretanto, essas facilidades não modificam a estrutura central da aventura. Quando reduzimos os encontros e aceleramos a progressão, a narrativa acaba assumindo uma responsabilidade ainda maior em manter nosso interesse. E, embora Tales of Eternia apresente uma história interessante, ela nem sempre consegue sustentar sozinha o envolvimento com a experiência.
Bom desempenho no PC e Steam Deck, mas sem português
Para esta análise, testei Tales of Eternia Remastered tanto no PC quanto no Steam Deck, e o desempenho foi bastante satisfatório nas duas plataformas. Não encontrei problemas técnicos, quedas perceptíveis de desempenho ou situações que prejudicassem a jogabilidade. Os carregamentos também são rápidos, permitindo transitar entre os ambientes sem interrupções prolongadas.
A versão para Steam ainda conta com sincronização de salvamentos pela nuvem, possibilitando continuar a mesma campanha no computador ou no portátil da Valve. O recurso funcionou adequadamente durante meus testes, tornando bastante conveniente alternar entre os dois dispositivos.

Naturalmente, considerando o escopo do jogo e suas características visuais, não era esperado que máquinas modernas enfrentassem grandes dificuldades para executá-lo. Ainda assim, é positivo encontrar uma experiência estável, especialmente no Steam Deck, cuja portabilidade combina muito bem com uma aventura desse tipo.
Uma ausência que incomoda, porém, é a falta de localização para português brasileiro. O jogo oferece dublagens em inglês e japonês, além de textos em diferentes idiomas, mas deixa de fora o nosso idioma.
Em um RPG no qual a narrativa, os diálogos e as interações entre personagens possuem tanta importância, essa ausência interfere na acessibilidade da experiência para parte do público brasileiro. Considerando que a Bandai Namco já estava trabalhando na atualização do jogo, teria sido uma boa oportunidade para disponibilizar uma localização oficial, permitindo que mais pessoas conhecessem a aventura sem depender de outro idioma.

Vale mencionar ainda que o multiplayer presente no PlayStation original, que permitia controlar diferentes integrantes da equipe durante as batalhas, não está disponível nesta edição, apresentada oficialmente como uma experiência exclusivamente para um jogador.
Vale a pena comprar Tales of Eternia Remastered?
Tales of Eternia Remastered consegue preservar a identidade de um RPG lançado há mais de 25 anos, oferecendo melhorias que tornam a experiência mais prática e acessível. Recursos como os ajustes de progressão, a aceleração das batalhas e a possibilidade de evitar encontros aleatórios são adições positivas, especialmente para quem deseja conhecer a aventura sem enfrentar todas as convenções de sua época.
Também há qualidades importantes em seus sistemas de combate, gerenciamento de equipe, culinária e atividades secundárias, que demonstram como o jogo já procurava oferecer diferentes possibilidades aos jogadores. A apresentação visual conserva parte de seu charme, especialmente pelas animações em estilo anime, embora os cenários e a trilha sonora não consigam se destacar da mesma maneira.
Entretanto, nem todas as limitações podem ser resolvidas com ajustes de qualidade de vida. A narrativa possui uma premissa interessante, mas seu desenvolvimento não consegue se destacar tanto quanto poderia. Já a exploração e os combates preservam características que demonstram a idade de algumas escolhas de design, mesmo com as melhorias introduzidas pela remasterização.
Considerando o preço de R$ 169,90 na Nintendo eShop brasileira, também é necessário avaliar o custo-benefício, especialmente diante da ausência de localização em português. Para os fãs que guardam boas lembranças do original, o retorno representa uma oportunidade de conhecer novamente a aventura com recursos modernos. Já para quem, como eu, está descobrindo Tales of Eternia pela primeira vez, o resultado é um RPG com qualidades que merecem reconhecimento, mas que nem sempre consegue proporcionar uma experiência tão envolvente quanto poderia.
Tales of Eternia Remastered chega nesta sexta-feira, 16 de outubro, para Nintendo Switch, PC, via Steam, PlayStation 5 e Xbox Series X|S.
*Review elaborado em um PC equipado com uma Geforce RTX, com código fornecido pela Bandai Namco.
Tales of Eternia Remastered
BRL 169,90Prós
- Melhorias de qualidade de vida tornam a experiência mais acessível
- Sistema de combate com boas possibilidades estratégicas
- Sequências animadas em estilo anime
- Boa variedade de minigames e atividades secundárias
- Ótimo desempenho no PC e Steam Deck
Contras
- Ausência de localização em português brasileiro
- Narrativa interessante, mas pouco marcante
- Mapa-múndi pouco atraente e exploração nem sempre intuitiva
- Trilha sonora sem grande destaque
- Melhorias gráficas relativamente discretas



