4PGP | Review
Existe um tipo de diversão que boa parte dos jogos de corrida deixou pelo caminho. Não falo dos simuladores, com regulagem de suspensão, desgaste de pneus e dezenas de menus. Falo daquela experiência em que você aperta o acelerador e, poucos segundos depois, já está completamente envolvido. Foi exatamente essa sensação que encontrei em 4PGP.
Sempre gostei mais dos arcades. Cresci jogando títulos que não exigiam estudo nem horas de adaptação. Bastava pegar o controle e correr. Virtua Racing, Daytona USA, Sega Rally Championship e Ridge Racer seguiam essa lógica. Cada um tinha personalidade própria, mas todos entendiam que diversão imediata também é uma qualidade. 4PGP segue esse caminho sem tentar esconder suas referências.
Depois de estrear no Nintendo Switch, o título finalmente chegou ao PlayStation 5 e ao PC, no começo de junho. A única ausência fica por conta do Xbox Series X|S, o que chama atenção em um jogo que parece feito para partidas rápidas e multiplayer local.
Mas será que ele consegue transformar essa nostalgia em algo que funciona hoje ou vive apenas da lembrança dos clássicos? É isso que você confere em mais uma review aqui no Pizza Fria!
O prazer de simplesmente acelerar
A inspiração nos arcades dos anos 90 aparece desde o primeiro menu. O visual em low poly, as cores vibrantes, os carros inspirados na Fórmula 1 do início daquela década e o desenho das pistas lembram imediatamente os clássicos da Sega. A impressão não é a de um jogo tentando parecer antigo apenas por estética. Existe uma tentativa clara de recuperar a linguagem daqueles títulos. E isso aparece na forma como ele foi construído.
Os controles são simples de entender. Em poucos minutos você já domina o básico, começa a abusar dos drifts e entra naquele ciclo de “só mais uma corrida”. A velocidade passa uma boa sensação de intensidade justamente porque o game não tenta imitar um simulador. As derrapagens são exageradas, os contatos entre os carros fazem parte da disputa e tudo favorece partidas rápidas. Só que essa simplicidade engana.

Simples na superfície, preciso nas curvas
Depois de algumas corridas comecei a perceber que 4PGP tem ritmo. Entrar forte demais em uma curva pode comprometer toda a reta seguinte. Em outras, aliviar o acelerador funciona melhor do que frear. Conforme você memoriza cada circuito, surgem ganhos de tempo que não aparecem nas primeiras voltas.
Foi exatamente o que aconteceu comigo. No começo eu freava demais nas curvas de média velocidade e perdia muito tempo na saída. Depois passei a confiar mais na aderência do carro, reduzindo apenas o acelerador. Meus tempos caíram de forma natural.
Essa evolução deixa a experiência muito mais interessante. É um arcade fácil de aprender, mas existe espaço suficiente para melhorar conforme você conhece o game.

Outro acerto está na dirigibilidade. Muitos jogos usam uma estética arcade, mas entregam carros sem peso ou sem personalidade. Aqui existe um bom equilíbrio entre acessibilidade e precisão. O carro responde rápido aos comandos, desliza de forma previsível e transmite confiança durante as disputas.
As pistas também merecem destaque. Algumas lembram circuitos famosos como Spa, Suzuka e Silverstone, mas sempre reinterpretados para favorecer corridas curtas e movimentadas. A inspiração é evidente, porém cada traçado consegue ter identidade própria. Em alguns, a velocidade faz diferença. Em outros, conhecer a sequência das curvas pesa muito mais do que simplesmente manter o acelerador no fundo.
4PGP muda quando entram mais pessoas
Também existe um elemento que faz bastante diferença na experiência: a tela dividida. Durante muitos anos esse era um recurso quase obrigatório nos jogos de corrida. Reunir os amigos na mesma sala, dividir a televisão e passar horas competindo fazia parte do pacote. Hoje quase tudo acontece online. Funciona bem, mas entrega outra dinâmica. 4PGP parece ter sido pensado justamente para recuperar esse tipo de encontro.
O próprio nome já deixa isso claro. Four Player Grand Prix gira em torno do multiplayer local para até quatro pessoas, e é nesse cenário que o jogo encontra sua melhor versão.

Além disso, o conteúdo disponível cumpre bem seu papel. Há campeonatos, corridas rápidas e carros para desbloquear conforme você avança. A estrutura é enxuta. Em alguns momentos até enxuta demais. Os campeonatos contam com apenas três corridas, e fiquei com a impressão de que poderiam durar um pouco mais para criar uma sensação maior de progressão.
Ainda assim, existe variedade suficiente para manter o interesse por várias sessões de jogo. A melhor lembrança que tive com 4PGP veio justamente no multiplayer.
Joguei com três colegas. Um deles gosta bastante de jogos de corrida e, nas primeiras disputas, consegui abrir vantagem porque já conhecia melhor os circuitos. Só que isso mudou rápido. Bastaram alguns campeonatos para a experiência dele falar mais alto. Aos poucos começou a encontrar os melhores traçados, errar menos e disputar cada curva comigo.

Os outros dois participantes tinham muito menos familiaridade com o gênero. Mesmo com algumas assistências disponíveis, sentiram mais dificuldade para acompanhar o ritmo.
Essa diferença entre os jogadores acabou reforçando uma impressão que tive desde o início. 4PGP é acessível, mas não simplório. Ele recebe bem quem está chegando agora, porém recompensa quem aprende as pistas e entende o comportamento dos carros. Não basta manter o acelerador pressionado o tempo inteiro. Existe um aprendizado que faz diferença conforme as corridas avançam.
Uma estética que sabe exatamente o que quer
A parte sonora segue a mesma filosofia do restante do projeto. Em vez de uma trilha chamativa durante toda a corrida, 4PGP aposta principalmente no ronco dos motores. A música ganha destaque apenas na volta final, criando uma sensação de urgência que combina bastante com as disputas. É uma escolha simples, mas funciona.
Visualmente, o resultado também convence. Os desenvolvedores abraçaram as limitações técnicas dos arcades daquela época sem tentar escondê-las. Os poucos polígonos, as texturas simples e as cores fortes fazem parte da identidade do jogo. Em vez de parecer datado, o visual transmite personalidade.
Gostei também da maneira como os carros remetem aos modelos clássicos da Fórmula 1 do começo dos anos 90. Os nomes são genéricos por questões óbvias de licenciamento, mas as referências ficam claras para quem acompanha automobilismo há mais tempo.

O que poderia ir um pouco além
Nem tudo funciona com o mesmo nível de acerto. Depois de algumas horas, senti falta de mais conteúdo. A estrutura principal acaba se esgotando relativamente rápido e os campeonatos curtos reforçam essa impressão. Não chega a comprometer a proposta, mas deixa aquela sensação de que havia espaço para oferecer um pouco mais de variedade, principalmente para quem pretende jogar sozinho.
Também gostaria de ver uma trilha sonora mais presente. A escolha de deixar os motores ocuparem quase todo o espaço sonoro faz sentido e combina com a proposta do game, porém algumas músicas adicionais durante as corridas ajudariam a dar mais identidade aos campeonatos sem descaracterizar o clima arcade.
Ainda assim, esses pontos não escondem a principal qualidade de 4PGP. Ele sabe exatamente o jogo que quer ser. Em vez de tentar disputar espaço com simuladores ou copiar tendências recentes, prefere olhar para uma época em que diversão vinha antes de qualquer preocupação com realismo extremo. Essa coerência aparece do início ao fim.

Foi difícil jogar sem lembrar dos antigos arcades da Sega. Não porque o jogo copie cada detalhe daqueles clássicos, mas porque entende o que fazia aquelas experiências funcionarem. Controles fáceis de aprender, corridas rápidas, pistas que convidam à repetição e uma dirigibilidade que melhora conforme o jogador ganha intimidade com cada traçado.
Também gostei de perceber que existe mais profundidade do que a aparência sugere. Quem olhar apenas algumas imagens pode imaginar um jogo simples demais. Depois de algumas corridas fica claro que existe uma curva de aprendizado suficiente para recompensar quem dedica tempo a dominar as pistas.
Vale a pena comprar 4PGP?
No fim das contas, 4PGP entrega exatamente aquilo que promete. É um arcade descomplicado, divertido e claramente apaixonado pelos jogos de corrida dos anos 90. Talvez não tenha a quantidade de conteúdo que alguns jogadores esperem, mas compensa isso com personalidade, boa dirigibilidade e um multiplayer local que lembra uma época em que dividir o sofá fazia parte da experiência tanto quanto vencer a corrida.
Se a ideia é procurar um simulador cheio de ajustes técnicos, este não é o caminho. Agora, se a intenção é reunir amigos, ligar o videogame e começar uma disputa poucos segundos depois, 4PGP acerta em cheio. Às vezes, recuperar uma fórmula antiga basta quando ela continua funcionando tão bem.
4PGP entende o valor da simplicidade. Resgata a essência dos arcades de corrida sem parecer apenas um exercício de nostalgia. Falta um pouco mais de conteúdo para prolongar a vida útil no modo solo, mas a excelente dirigibilidade e o multiplayer local fazem dele uma ótima pedida para quem sente falta desse estilo de gameplay.
4PGP está disponível para Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, PlayStation 5 e PC via Steam.
*Review elaborada em um PlayStation 5, com código fornecido pela 3goo.
4PGP
BRL 114,90Prós
- Atmosfera arcade extremamente nostálgica
- Multiplayer local em tela dividida é fantástico
- Jogabilidade simples, mas com profundidade
- Boa variedade de pistas inspiradas em circuitos reais
Contras
- Falta multiplayer online
- Progressão dos carros é desequilibrada
- IA pode ser frustrante e agressiva demais



