Denshattack! | Review
Um mineiro diria que esse jogo “é um trem diferente” – “trem” num sentido amplo, sobreposto com leve ironia sobre o tema do jogo. Denshattack! é basicamente um Tony Hawk’s Pro Skater sob trilhos e, ao mesmo tempo, muito mais que um Tony Hawk’s Pro Skater sob trilhos. A demo já havia me deixado obcecado e, agora, com a campanha completa zerada e com dor no pescoço de tanto buscar medalhas de ouro (e falhar miseravelmente em algumas), posso dizer com segurança: locomotivas controladas como um skate de dedo não só confirma a promessa, como a expande de formas que eu não esperava.
Denshattack! é uma loucura visual e sonora jogável que faz seu cérebro soltar dopamina a todo percurso perfeito. E, sim, tem tudo para ser um dos meus títulos favoritos no ano.
Desenvolvido pelo veterano estúdio barcelonês Undercoders e publicado pela Fireshine Games. Joguei a versão completa no PC e conto agora, em mais uma análise antecipada do Pizza Fria, por que você precisa dar uma chance a essa locomotiva insana.
Uma história em quadrinhos que sabe a hora de sair de cena
A abertura de Denshattack! situa o jogador em um Japão futurista, transformado por uma catástrofe climática. A civilização sobrevive sob domos protetores, enquanto o mundo exterior (com seus aviões e trens abandonados, estradas e trilhos sem manutenção) virou território marginal. É nesse cenário que Emi trabalha como entregadora de lámen por locomotiva.
A história é contada aos poucos, em sequências que lembram uma história em quadrinhos com dublagem – às vezes, até vemos uma breve sequência animada. Fernando, que também serve como seu guia nos tutoriais, e a própria Emi elaboram detalhes sobre esse universo: como ele funciona, quem vive fora dos domos, por que os trilhos ainda importam. São intervenções breves, que explicam o suficiente para manter você motivado sem jamais atrapalhar o fluxo da jogatina. Os criadores entendem que a estrela aqui não é a narrativa – e te colocam na ação com uma agilidade que eu gostaria de ver em mais títulos com essa pegada arcade.

O início: Kyushu e as Velodivas: o primeiro passo para a lenda
Contudo, para trazer um pouco da abertura, tudo começa na região de Kyushu. Nesta ilhota, você começa a entender os comandos básicos com a assistência de Fernando, que explica como os trens fazem manobras ao estilo de finger skate. E, apesar da narrativa minimalista inicial, Denshattack! constrói seu universo aos poucos. Este é o território das Velodivas, uma gangue obcecada pelo estilo acima da velocidade e por decorar os antigos e abandonados trilhos de trem da região.
A progressão é simples e satisfatória: você constrói sua reputação ganhando medalhas, escalando entre os membros da gangue até chegar à líder. Os oito destinos têm suas próprias gangues com personalidades fortes, estilos diferentões, e a sensação de evoluir de “entregadora anônima de lámen” para “lenda dos trilhos” funciona como um motor bem azeitado que te motiva sem jamais roubar o foco da jogabilidade.

Direto aos trilhos: a campanha é um playground meticuloso
Diferentemente da demonstração que joguei meses atrás, a versão final de Denshattack! liga e conta apenas com a campanha principal. O tutorial é integrado à narrativa: você aprende os comandos enquanto a história se desenvolve, fase após fase. E cada uma dessas fases é um pequeno parque de diversões com regras próprias.
Em um instante você passa por tutoriais para aprender como soar o apito, frear, trocar de trilhos e saltar com a locomotiva. Simples. Daí você vê que uma fase abre a seguinte no mapa-múndi e você escolhe avançar ou repetir níveis anteriores ponto a ponto pelo mundo. A estrutura é clara.
Bem ao estilo dos jogos de skate, todo cenário tem uma lista de coisas a serem feitas, mais ou menos assim: primeiro, supere uma pontuação predeterminada para ganhar medalhas de bronze, prata ou ouro; depois, supere um tempo – também vale medalha. Em seguida, quase sempre, aparece uma lista de cinco tarefas específicas do tipo “termine sem descarrilar o trem”, “execute um Back 360 Kick sobre a ponte quebrada” ou “destrua o castelo de areia”. E como se não bastasse, toda fase ainda esconde latas de spray e um rolo de filme.

Somente cumprindo todos esses critérios e com bom desempenho você consegue o ouro. A boa notícia é que é possível repetir a fase e ir riscando cada objetivo separadamente, em tentativas diferentes. Nada exige que você faça tudo de uma vez. É assim que você progride em Denshattack!: dominando cada centímetro dos mapas, voltando para fazer melhor, sempre no seu ritmo.
E, olha, agora de memória eu diria que “concluir a pista sem descarrilhar” está sempre presente. Este objetivo é o principal culpado pelas repetições, mas, ao mesmo tempo, meu favorito. Curti muito limpar o mapa nas primeiras corridas, encontrar os colecionáveis e deixar a corrida limpa como última meta pessoal. Há um aprendizado natural em memorizar o percurso, em dominar as curvas e os saltos, para eventualmente fazer uma corrida limpa e rápida, perfeita. E como é bom cruzar a linha de chegada voando e sem nenhum arranhão!

E, caso a premissa da lista de tarefas pareça repetitiva, não se engane. Todo lugar tem uma inovação maluca, com possibilidades inéditas de manobras que aparecem aos poucos – uma hora você dominará os grinds (os famosos corrimãos); em outra, wall rides (deslize por paredes). É… Imaginar tudo isso com sua locomotiva é uma doideira.
Fica ainda mais psicodélico: vai ter hora pro vagão se acoplar a uma roda-gigante que rola (quase) desgovernadamente e amassa antenas de satélites, ou se acoplar a um iate e fazer manobras loucas com saltos das ondas.
A mais louca e alucinante no começo, aquela que me fez falar “que p—- é essa?”, foi na primeira luta contra um chefe, quando a gangue das Velodivas uniram suas conduções num robô gigante e, numa batalha cheia de cinemáticas rápidas e empolgantes, você se vê no controle de um punho-foguete.
Desta forma, Denshattack! se mantém fresco o tempo todo, com a animação e o absurdo coerentes. Vale confirmar como os controles respondem muitíssimo bem à constante ação rápida. Por falar em controles…

Controles que viciam na primeira curva
Nos comandos, Denshattack! é um primor de resposta. As manobras são feitas com o analógico direito e têm uma boa variedade – confira a imagem do almanaque de manobras, o Manobrário. O trem salta com o gatilho direito e, ao pousar, pode fazer um manual com o nariz ou com a traseira – aquela manobra inclinada apenas com um eixo, exatamente como nas pranchinhas sobre rodinhas. A velocidade insana exige reflexos rápidos e atenção total ao percurso.
Inevitavelmente, você vai repetir uma fase algumas vezes na busca pelo ouro. E isso nunca é frustrante, porque o sistema de controles é responsivo o suficiente para que os erros pareçam seus, e cada acerto, sua conquista genuína. A velocidade é pura, de arcade. Lembra muito o ritmo frenético dos jogos de Dreamcast – aquela sensação de que estamos ali apenas para nos divertir, sem desculpas nem pretexto.
Aliás, é curiosíssimo como o nosso corpo se acostuma à velocidade insana, como a coordenação olho-interpretação-mão se molda e se adapta. Digo isso porque, quando abri Denshattack! pela primeira vez, minha impressão foi algo do tipo, “tô velho demais pra acompanhar esse frenesi”. Balela! O tempo e a prática me deram o superpoder de organizar o caos e ver tudo numa câmera lenta. E que p— sensação boa perceber um “eu dou conta”!

Visuais: uma revista em quadrinhos em movimento
A direção de arte abraça essa nostalgia com uma personalidade que falta a muito jogo grande. Os visuais são extremamente saturados, com cores básicas chapadas que berram personalidade. Os trilhos, por exemplo, ganham um tom amarelo muito vivo quando está próximo do trem – que é o seu ponto focal – e faz um gradiente levando ao laranja à medida que se distancia.
Para colaborar com o efeito de velocidade, existe uma vinheta muito suave e rabiscada em diversas posições na tela. É o estilo de uma revista em quadrinhos: todas as linhas indicam o centro ou ficam paralelas ao vagão da locomotiva, e a imagem sempre tremula um pouquinho, com o intuito de dar a sensação de aceleração constante. É cel-shading com bordas grossas, cores neon, animações fluidas. A inspiração em Jet Set Radio e animes – citada pelo diretor David Jaumandrau – transparece em cada quadro. Vale reforçar que as entrevistas com os criadores no YouTube são fascinantes, pois eles contam das viagens ao Japão na infância e do fascínio pela rede ferroviária do país.
O desempenho no PC* estava ótimo (e melhorou em relação à demo), com taxa de 60 quadros por segundo estável mesmo nos momentos mais caóticos, com a configuração no máximo. Aproveitei também para jogar no Bazzite – aqui também rodou de forma excepcional. Contudo, tive bastante dificuldade em gravar com o OBS por algum motivo, por isso deixo apenas a abertura aqui:
* Lenovo Legion, processador AMD Ryzen 7 5800H, 32 GB de RAM DDR4, Nvidia RTX 3060
Tee Lopes entrega uma trilha sonora que é, ela mesma, um personagem
Não dá para falar de Denshattack! sem dedicar um parágrafo inteiro à trilha sonora. Tee Lopes – o compositor por trás de Sonic Mania, Streets of Rage 4 e TMNT: Shredder’s Revenge – assina as músicas, e o resultado é simplesmente espetacular.
A trilha é extremamente rica e traz uma mistura de gêneros hip-hip com pop e rock, tudo numa pegada meio música pirulito que gruda na cabeça por dias. Mas o mais impressionante é como ela sonoriza o game em sincronia com a ação: a música se intensifica conforme você acumula combos, criando uma sinergia entre som e jogabilidade que beira o perfeito. Os temas musicais mudam o ambiente e incentivam, de alguma forma, a aceleração constante.
Melhor que conferir a trilha? Só jogando mesmo. Pega um gostinho nos primeiros minutos que publiquei acima e, se quiser, ouça em seu tocador de música: https://kidkatana.ffm.to/denshattack-ost

Conteúdo generoso, mas que respeita seu tempo
É difícil cravar exatamente quanto tempo dura a jornada, porque Denshattack! não é um jogo curto – e também não se arrasta. A jornada dura algo entre 8 e 12 horas, dependendo de quão bem você se sair. São oito regiões (com seus respectivos chefes e loucuras) e muito conteúdo desbloqueável. Encontrar cada item e riscar todas as tarefas listadas vai ser um teste de habilidade, não de paciência.
A rejogabilidade é o coração do jogo. Terminar a campanha é só o começo. Voltar para buscar ouro em todas as fases, testar diferentes locomotivas (cada uma com atributos próprios de velocidade, altura de salto e bônus de manobras) e dominar cada movimento é onde Denshattack! realmente brilha e te segura por mais tempo.
Denshattack! ainda trará diversas opções de acessibilidade com a atualização de lançamento, mas volto aqui para comentar a respeito assim que possa explorá-las.

Vale a pena comprar Denshattack!?
Denshattack! é um daqueles jogos que me fazem lembrar por que eu amo videogames. Ele não quer ser um épico cinematográfico, não quer fazer comentários sociais profundos, não quer reinventar a roda. Ele quer apenas que você pilote trens em velocidades absurdas, faça manobras como se estivesse jogando Tony Hawk’s Pro Skater e saia da experiência com um sorriso idiota no rosto. E consegue. Com sobras. (Bom, também passei raiva por perder uma corrida perfeita num detalhe bobo, mas acontece.)
A estrutura de fases com múltiplos critérios para o ouro, as gangues que dão personalidade ao mundo, a história em quadrinhos que contextualiza sem atrapalhar, a trilha sonora de Tee Lopes e os controles absurdamente responsivos fazem de Denshattack! um dos jogos mais divertidos do ano. A campanha é generosa, o conteúdo desbloqueável é farto, e a localização em português do Brasil é a cereja do bolo.
Para fãs de Tony Hawk, OlliOlli World, Jet Set Radio ou da criatividade descompromissada dos anos 2000, a recomendação é imediata. Para quem nunca experimentou nada do gênero, Denshattack! é a porta de entrada perfeita. O mais puro suco de videogame é um trem que você não vai querer perder, especialmente pela diversão proporcionada a um ótimo preço.
Eu aposto que se você escolher embarcar agora, estará a bordo de um dos títulos mais fantásticos e originais da história recente nos jogos eletrônicos.
Denshattack! já está disponível para PC, via Steam, PlayStation 5, Xbox Series X|S, e Nintendo Switch 2, com textos em português do Brasil.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Fireshine Games.
Denshattack!
BRL 59,99Prós
- Controles absurdamente responsivos que recompensam o domínio
- Estrutura de fases com múltiplos critérios que incentivam a rejogabilidade
- Trilha sonora espetacular em sincronia com o jogo
- Direção de arte vibrante e coesa, com personalidade de sobra
- Localização em português do Brasil
Contras
- A busca pelo ouro exigirá alguma repetição



