Ghost of Tsushima Director’s Cut | Review

Um dos títulos mais aclamados pela comunidade PlayStation em 2020, e analisado por mim na época, Ghost of Tsushima, título desenvolvido pela Sucker Punch, fez sucesso por seus gráficos incríveis e temática repleta de samurais e lutas de espadas. E em Ghost of Tsushima Director’s Cut, o jogo fico ainda mais incrível no PlayStation 5, com gráficos aprimorados em 4K e 60 FPS, áudio 3D, uma nova ilha e muito mais itens e armaduras adicionados.

E, para fazer essa análise, além de ter jogado as duas versões e me deleitado em ambas, concluindo todas as missões e abrindo todo todo o mapa, fui cada vez mais fundo nos aspectos históricos e estéticos do game, onde maratonei diversos filmes de Akira Kurosawa, diretor responsável por filmes de grande influência para a equipe de desenvolvimento do game. Inclusive elaborei uma lista especial com 7 filmes para serem vistos antes de jogar Ghost of Tsushima. Confesso que o game foi a grande causa da minha aproximação com a cultura japonesa, me levando a conhecer mangás, animes e livros como O Livro dos Cinco Anéis, escrito pelo lendário Miyamoto Musashi.

Sem mais delongas, a partir de agora, você saberá tudo sobre esta incrível versão do diretor do consagrado título da Sucker Punch. Vem ver!

O lado real da história: A invasão de Tsushima

Antes de mais nada, é importante ressaltar que o pano de fundo de Ghost of Tsushima Director’s Cut tem um quê de real, e eu explico. O game situa-se no ano de 1274, durante o período do Xogunato Kamakura, na Ilha de Tsushima, localidade real que fica entre a atual Coréia do Sul e o Japão. Neste período, aconteceu a primeira invasão Mongol ao Japão, comandada por Kublai Khan, que já havia estabelecido uma dinastia na China e, posteriormente, conquistado a Coréia. Dando sequência ao seu plano de expansão, Tsushima era o próximo destino antes de chegar à ilha principal. Contudo, o Khan tentou negociar com o imperador Go-Uda, encorajando-o a submeter o reino japonês ao regime mongol.

Contudo, já esperando que o imperador fosse recusar as propostas, o Grande Khan montou uma frota de invasão e seguiu em direção à Tsushima. Vale ressaltar que a ilha é um local estratégico tanto para defesa, quanto para questões mercantes do império nipônico. Por fim, no dia 5 de outubro daquele ano, as tropas mongóis desembarcaram na praia de Komodahama, derrotando facilmente o governador local e sua cavalaria e, assim, conquistando a ilha e massacrando sua população.

tsushima mapa
No meio do mapa apresentado em trailer, é possível se observar Tsushima, descrito em Kanji. (Imagem: Reprodução)

A história de Ghost of Tsushima Director’s Cut

Com o enredo acima, inicia-se a jornada do game. Ao se perdido em meio a uma ilha devastada pelos mongóis, Jin Sakai, o grande protagonista do jogo, se vê em uma situação delicada, tendo de adequar sua conduta samurai de acordo com as necessidades da situação, onde a ilha encontra-se dominada. Essa questão pessoal de Jin vai ficando cada vez mais notável ao longo do jogo, que mostra de forma muito marcante a transformação do protagonista, que acaba seguindo um caminho distinto do que é treinado um verdadeiro samurai. Como se sabe, o código seguido por esses lendários guerreiros preza pelo combate leal entre dois indivíduos, seja com a espada ou com o arco. E Jin, para salvar a ilha, acaba fazendo muito mais do que isso.

Ao analisar a narrativa do game de forma histórica, é possível perceber que alguns samurais realmente tenham se adaptado ao método mongol, descartando o combate individual, mesmo que isso fosse contra o código. E Jin se vê obrigado a ser um deles, se vendo em um denso conflito pessoal (e familiar) que coloca todo o seu aprendizado ao longo da vida em cheque.

Ghost of Tsushima de fato conta com um pano de fundo incrível, realmente nos trazendo a sensação de estar no Japão do século XIII. E isso foi feito graças ao trabalho da desenvolvedora, que além de imergir no cinema samurai do lendário diretor Akira Kurosawa (e ter a aprovação da família do cineasta), foi ao Japão conhecer mais detalhes locais para compor o jogo. Mas, o que mais surpreende mesmo são as questões vividas por Jin, sendo essa a parte mais brilhante da narrativa. Na versão do diretor, onde encontramos a ilha de Iki, a narrativa de Jin se torna ainda mais pessoal, colocando o nosso herói diante de questões do passado.

É impressionante a imersão obtida ao longo das várias missões da Jornada do Jin, dos Contos Místicos, que colocam o jogador em meio a lendas de heróis e divindades contadas por lindas animações, ou dos vários Contos de Tsushima, onde você ajuda o povo da ilha e alguns personagens secundários, criando laços, conhecendo histórias paralelas e, assim, aprofundando ainda mais na narrativa. Todavia, não irei dar maiores detalhes para não dar nenhum spoiler. O que posso adiantar é que o jogo se inicia na invasão da ilha, onde Jin, seu tio, lorde Shimura, e outros 78 samurais se veem contra o grande exército mongol, liderado pelo fictício Khotun Kahn, primo de Kublai Khan e neto de Gengis Khan, considerado por muitos como o maior conquistador da história da humanidade.

Ghost of Tsushima
O início da jornada de Jin Sakai, o Fantasma de Tsushuima. (Imagem: Reprodução)

Khotun, personagem bem desenvolvido ao longo de Ghost of Tsushima, apresenta aos residentes da ilha que antes da invasão aprendeu a língua do inimigo, suas tradições, crenças e todos os pontos cruciais da vida de sua população. Por fim, a batalha se encerra e os samurais são massacrados, tal como na história real do combate. No entanto, aqui, Jin é salvo por uma ladra, Yuna, que o coloca de volta ao jogo e seu tio, principal liderança da ilha, é capturado pelo implacável Khan.

Ghost of Tsushima me tocou demais por trabalhar muito bem com detalhes da história real e, ao mesmo tempo, com a ficção, aprofundando a parte humana de uma guerra. Questões como honra, legado e família são constantemente citadas, e a trama de Jin, o Fantasma de Tsushima, se transforma de uma maneira gradativa e natural, em meio a múltiplos acontecimentos e flashbacks. Outro detalhe extremamente bem pensado é a sensação de guerra que é possível de se perceber ao longo de toda a ilha. Corpos espalhados, vilas destroçadas, incêndios, rondas e acampamentos inimigos, tudo isso pode ser visto, trazendo a sensação do horror vivido em uma ilha dominada por inimigos poderosos.

Ghost of Tsushima
A ambientação do game é incrível. (Imagem: Reprodução)

O território de Ghost of Tsushima Director’s Cut

A belíssima ilha de Tsushima é dividia em três partes: Izuhara, que se situa na região sul; Toyotama, na região central e Kamiagata, mais ao norte. No entanto, a versão do diretor traz a ilha de Iki, uma ilha local onde Jin morava com sua família. Cada uma conta com um tipo de vegetação específico, indo de florestas densas a montanhas cheias de neve. Todo o extenso território presente no jogo foi muito bem elaborado, contando com uma qualidade gráfica absurda, que foi aprimorada nesta nova versão pra PS5, sobretudo no que diz respeito à iluminação.

Isso fica nítido com os dias e noites passando e a variedade de climas e biomas percebidos ao longo da jogatina. De chuvas a nevoeiros, Tsushima é recriada com um dos melhores gráficos desta geração, trazendo uma riqueza de detalhes e cores que até mesmo Kurosawa se impressionaria. Aliás, diga-se de passagem, o jogo é uma baita homenagem ao lendário cineasta. Ao longo da ilha, é impressionante perceber a quantidade de coisas que podem ser feitas ao se focar na exploração. Você poderá encontrar uma série de pontos de interação que aprimoram a vida de Jin em suas andanças, trazendo pontos, itens e outros apetrechos.

Ghost of Tsushima
Ghost of Tsushima Director’s Cut proporciona cenas lindas aos jogadores. (Imagem: Reprodução)

Tal como em outros jogos de mundo aberto, você poderá tomar acampamentos e fortes inimigos escolhendo a melhor maneira de invadi-los, seja de forma sorrateira, saindo do caminho do samurai, ou por meio de confronto direto com vários guerreiros inimigos, de uma forma vista pelo código samurai como “mais limpa”. Porém, diferentemente de outros jogos, esse tipo de abordagem não se torna repetitiva, sendo cada vez mais difícil encurralar os inimigos ao longo do mapa. Aliás, tive a impressão de que quanto mais ao norte chegamos, mais difíceis e intensas as batalhas ficam, com mongóis cada vez mais bem equipados e preparados para te derrubar.

As técnicas: A Lenda do Fantasma

Ao longo do jogo, o personagem aprenderá diversas habilidades e golpes, algo que é naturalmente introduzido pela própria narrativa, de forma gradativa e bem explicada. No entanto, algumas dessas novas técnicas só serão liberadas através de missões secundárias. Assim, vai do desejo de cada jogador a melhor maneira de conduzir Jin pela história, ao construir a Lenda do Fantasma, um criativo sistema de níveis do jogo que permite escolher quais pontos do personagem melhorar.

As Técnicas de Samurai envolvem especificamente o que pode ser feito com a katana, tal como evasão e aparo de golpes, artes de combate lendárias e habilidades de exploração por meio do Vento Guia que, como o próprio nome diz, nos mostra, na maior parte do tempo, para onde ir. Já as quatro Posturas facilitam bastante a vida do Fantasma ao lidar com diferentes tipos de inimigos. Ao serem desbloqueadas, algo feito ao matar inimigos específicos, cada uma abre quatro técnicas para lidar com espadachins, escudeiros, lanceiros e brutamontes.

Ghost of Tsushima
As lutas são sanguinolentas e desafiadoras nos níveis mais altos. (Imagem: Reprodução)

Existem também as habilidades Fantasmas, que saem completamente do caminho do samurai. Elas são focadas em Armas Fantasmas como kunais e bombas. As Táticas Evolutivas focam em recuperação de vida, aumento de concentração no tiro com arco, confrontos e assassinato. Ao observar a variedade de habilidades propostas pelo jogo, é possível escolher o estilo que mais se adeque à sua gameplay, que pode ser mais sorrateira ou totalmente focada em combates frente a frente. No entanto, o melhor caminho é saber articular entre os estilos, pois em muitos momentos o combate com grandes grupos é inevitável.

É interessante de se perceber através da jogabilidade o quão marcada fica a mudança de narrativa do Jin samurai para o Fantasma de Tsushima. Para alguns, pode parecer algo banal, mas faz todo o sentido ao analisarmos o contexto samurai ligado com a história do jogo, onde o protagonista se vê obrigado a tomar medidas drásticas para salvar seu povo, abandonando tudo o que aprendeu ao longo de sua vida.

Ghost of Tsushima
A vida de Jin é explorada durante todo o jogo. (Imagem: Reprodução)

Manejar Jin ficou ainda melhor!

Talvez o ponto mais incrível do game, a jogabilidade é algo simplesmente viciante! É bem simples, apresentando comandos como ataque forte e ataque normal, esquiva e defesa, mas sem ter toda aquela dificuldade exagerada do estilo soulslike. Porém, graças às técnicas citadas acima, o Fantasma é altamente capacitado para destruir os inimigos, cada um à sua maneira. E quando elas são colocadas em prática, surpreendem pela variedade de formas de ataque e defesa. A cada ponto aprimorado, fica mais gostoso guiar Jin, e o jogador vai se adaptando às possibilidades, aprendendo a lidar com as posturas, que agilizam o combate e permitem variações ricas e interessantes.

Assim, os combates, desde o início de Ghost of Tsushima, fluem de uma tal maneira que, ao longo da aventura, ficam cada vez mais desafiadores, com inimigos gradativamente mais bem preparados. E eles sabem que precisam estar à altura, pois o Fantasma de Tsushima pode aparecer implacável a qualquer momento, seja pelas sombras, assassinando silenciosamente um por um; com tiros de arco fatais; ou chamando os inimigos para um confronto à moda samurai, que lembram impasses de filmes de faroeste, mas é claro, com katanas e armas brancas.

Ghost of Tsushima
Os duelos são simplesmente incríveis! (Imagem: Reprodução)

Outro detalhe maravilhoso do jogo são os duelos ocorridos em momentos específicos, que tomam uma perspectiva diferente da jogabilidade normal, limitando Jin a lutar apenas com sua espada. Ou seja, por mais que o protagonista mude seu jeito de encarar as coisas, neste ponto ele mantém a tradição samurai e o respeito aos rivais ao se utilizar apenas de sua katana. Esse é o ponto mais difícil do game, mas é sensacional. Os movimentos fluem bem, a fotografia de cada luta é simplesmente estonteante. Concluindo esta parte, um aspecto que observo como essencial para que Ghost of Tsushima não se torne repetitivo é justamente a jogabilidade. E nisso o jogo se sustenta facilmente.

Gráficos incríveis e trilha sonora brilhante

Ghost of Tsushima, sem sombra de dúvidas chamou a atenção dos jogadores por conta de seus gráficos, que estão ainda mais lindos e aprimorados na versão do diretor, em 4K e 60 FPS. Tanto a beleza dos vastos campos floridos, como a qualidade gráfica das batalhas e expressões dos personagens, que agora traz o movimento de fala sincronizada com o áudio em japonês, deixam o jogo mais aprimorado e imersivo. Um ponto que não tem a ver com os gráficos, mas merece ser ressaltado na qualidade geral do jogo é a velocidade de carregamento no PlayStation 5, praticamente não apresentando nenhuma tela de loading.

Para os fãs de cinema samurai, Ghost of Tsushima oferece uma câmera especial, intitulada “Modo Kurosawa”. Nela, é possível ver Tsushima em preto e branco, tal como nos filmes de Kurosawa. E não é só isso, o jogo conta com uma espécie de efeito no som para ficar similar aos filmes antigos. Esse é um ponto extra, é verdade, mas também é uma baita homenagem à Kurosawa, mostrando mais uma vez que ele foi uma fonte de inspirações para a equipe do jogo, que apresenta um trabalho de fotografia nas cutscenes, que é formidável. Aliás, uma coisa é certa: o jogo pode ser considerado como um dos mais belos dessa geração, trazendo uma riqueza gráfica que impressiona.

Ghost of Tsushima
Novos personagens chegam junto com a ilha de Iki. (Imagem: Reprodução)

Outro ponto que merece ser mencionado, é a linda trilha sonora do jogo, criada por Ilan Eshkeri e Shigeru “Ume” Umebayashi. Tal como os filmes de samurai, ela dita o ritmo de cada momento com uma naturalidade impressionante. Aliás, ela nos deixa tão imersos que, ao mudar das batidas, você já sabe, por exemplo, da presença de inimigos pelas redondezas ou de algum altar para Inari. E é incrível perceber como tal aspecto, além de dar profundidade e emoção para a história, se torna algo tão natural e, consequentemente, útil ao longo da jogatina.

No entanto, ainda sobre a questão sonora e a imersão, a divina dublagem em japonês merece ser exaltada aqui, sobretudo após sincronizarem o movimento dos lábios dos personagens com a dublagem. Me apaixonei ainda mais no jogo por conta desse detalhe que, a meu ver, é extremamente imersivo. Contudo, vale lembrar que Ghost of Tsushima também conta com dublagem e legendas em português brasileiro e inglês.

Ghost of Tsushima
As cutscenes estão ainda mais bonitas em Ghost of Tsushima Director’s Cut. (Imagem: Reprodução)

Vale a pena comprar Ghost of Tsushima Director’s Cut?

Ao nos colocar imersos em uma cultura tão rica, reproduzindo maravilhosamente uma Tsushima virtual, me vi completamente encantado com tudo ao meu redor. Não só isso, mas as questões sobre legado, família e guerra são abordadas de uma forma leve e belíssima, que é tão interessante, que te faz querer saber mais dos outros contos e explorar tudo o que a ilha e seu povo podem oferecer. Ghost of Tsushima Director’s Cut é um título lindo e extremamente prazeroso de se jogar, e a nova versão ainda traz um DLC com mais algumas boas horas de história que seguem a alta qualidade do conteúdo original, mesclando momentos de combates intensos com alguns momentos de calmaria e reflexão, sendo também um jogo em que se pode contemplar as coisas ao seu redor.

Seus gráficos estonteantes agora em 4K e 60 FPS e trilha sonora espetacularmente bem feita, com áudio em 3D, além dos carregamentos imediatos graças ao poder do SSD do PlayStation 5, são pontos louváveis e que merecem ser também ressaltados nesta versão. O jogo consegue nos trazer diversas sensações. Em alguns momentos, você se pega admirando a paisagem, tirando fotos e analisando diversos detalhes. Em outros, você quer lutar, usando todas as armas e técnicas disponíveis para extravasar a raiva vingativa de Jin.

Esta versão do diretor coroa Ghost of Tsushima como um dos grandes jogos exclusivos da Sony, sobretudo por ter uma narrativa forte, sem abrir mão de diversos temas importantes como a invasão japonesa e a transformação de Jin e todo o povo de Tsushima; gameplay divertida, que agradará a boa parte dos jogadores; e a questão gráfica, cada vez mais importante no mercado atual. Sendo assim, recomendo Ghost of Tsushima Director’s Cut de olhos fechados para todos, desde os jogadores que já viveram essa aventura no passado, aos fãs da riquíssima cultura oriental ou para jogadores que gostem de uma boa história cheia de ação. A minha única ressalva é o alto preço do jogo, que segue sendo criticado pelos fãs (e com toda a razão).

*Review elaborada no PlayStation 5, com código fornecido pela Sony.

Ghost of Tsushima Director's Cut

R$ 299,00+
10

História

10.0/10

Jogabilidade

10.0/10

Gráficos e sons

10.0/10

Extras

10.0/10

Prós

  • História digna dos filmes de Akira Kurosawa
  • Gameplay de alta qualidade
  • Dublagem em japonês incrível e imersiva, agora com lipsync
  • O jogo mescla bem ação e contemplação
  • Gráficos aprimorados no PlayStation 5, além de 4K e 60 FPS

Contras

  • O preço desta edição ainda está muito alto

Álvaro Saluan

Historiador e cientista social de formação, é completamente apaixonado por videogames e escreve sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte.