Legacy of Kain: Ascendance | Review

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Poucas franquias conseguiram construir uma identidade tão própria quanto Legacy of Kain. Entre conflitos morais, personagens marcantes e uma mitologia densa, a série se consolidou como um dos universos mais interessantes dos games. Após anos de silêncio, Legacy of Kain: Ascendance surge com a proposta de revisitar Nosgoth sob uma nova perspectiva, apostando em uma abordagem mais direta, tanto na forma de jogar quanto na maneira de contar sua história.

A ideia de expandir esse universo é promissora. No entanto, ao longo da experiência, fica claro que o título oscila entre boas intenções narrativas e limitações estruturais que impedem um aprofundamento maior. Quer saber os detalhes de como isso acontece? A resposta eu trago agora, em mais uma review antecipada do Pizza Fria!

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Casos de Família

Se existe um ponto em que Legacy of Kain: Ascendance demonstra ambição, é na forma como tenta explorar relações pessoais dentro de um universo historicamente marcado por conflitos grandiosos.

A história encontra seu principal eixo na vampira Elaleth, irmã de Raziel, histórico protagonista da franquia, numa narrativa que visa trazer um olhar mais íntimo para os eventos que se desenrolam em Nosgoth. Antes de sua transformação, ela tinha um relacionamento com Mathias, seu amigo de infância e seu grande amor. Esse vínculo serve como base emocional para o que vem a seguir.

Legacy of Kain: Ascendance
A treta em Legacy of Kain: Ascendance envolve viagens no tempo (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Tudo muda quando Mathias é morto durante um ataque que envolve Raziel. Esse momento não apenas rompe um relacionamento, mas redefine completamente a trajetória de Elaleth. A partir daí, sua jornada passou a ser guiada por um desejo claro de vingança, estabelecendo um conflito direto com o próprio irmão.

Esse detalhe é especialmente interessante dentro do contexto da franquia. Em Ascendance, Raziel ainda atua como um caçador de vampiros, enquanto Elaleth já se encontra do outro lado desse conflito. Essa inversão de papéis cria uma dinâmica que dialoga diretamente com os temas clássicos de Legacy of Kain, como destino, transformação e dualidade.

Legacy of Kain: Ascendance
E uma sede de vingança familiar (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Ao mesmo tempo, o jogo utiliza de diferentes linhas temporais para revisitar eventos e personagens conhecidos, como Kain e o próprio Raziel em diferentes momentos de sua trajetória, funcionando tanto como expansão de lore quanto como uma espécie de releitura de acontecimentos já estabelecidos.

O problema é que, apesar de apresentar ideias interessantes, a narrativa raramente encontra espaço para desenvolvê-las com o peso necessário. As relações são estabelecidas, os conflitos existem, mas o ritmo um tanto acelerado da campanha impede que esses elementos ganhem maior profundidade. O resultado é uma história que tem bons pontos de partida, mas que não consegue explorá-los plenamente.

Legacy of Kain: Ascendance
O mais puro suco de “Casos de família” (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Uma nova abordagem para Nosgoth

Essa limitação narrativa está diretamente ligada à estrutura adotada pelo jogo. Diferente de títulos anteriores da franquia, Legacy of Kain: Ascendance opta por uma abordagem em 2D com rolagem lateral, dividida 11 fases + um epílogo.

A progressão é linear e direta, com foco constante na ação. Em termos de duração, a campanha pode ser concluída em aproximadamente cinco a seis horas, podendo ser ainda mais curta dependendo da dificuldade escolhida, onde não há dificuldade em se eliminar inimigos.

Legacy of Kain: Ascendance
Raziel vs Raziel (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Essa escolha torna o jogo mais acessível e dinâmico, mas também reduz significativamente o espaço para construção narrativa. Momentos que poderiam ser melhor trabalhados acabam sendo apresentados de forma rápida, sem o desenvolvimento necessário para gerar maior impacto. É uma decisão de design que privilegia o ritmo, mas que cobra seu preço na profundidade.

Combate funcional, mas limitado

O combate é o principal pilar da experiência e funciona dentro do que se propõe. A base é simples: ataques corpo a corpo, esquivas, parrys e habilidades específicas de cada personagem.

Nos primeiros momentos, essa simplicidade funciona a favor do jogo. As batalhas são rápidas e ajudam a manter o ritmo da campanha. No entanto, conforme o jogador avança, as limitações começam a se tornar mais evidentes.

Legacy of Kain: Ascendance
Kain é a grande estrela do combate do game (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

O sistema de ataque é restrito, permitindo basicamente investidas frontais. A ausência de variações direcionais, como golpes para cima ou para baixo, reduz as possibilidades estratégicas e impacta diretamente o combate.

Essa limitação se torna ainda mais perceptível em situações com múltiplos inimigos posicionados em diferentes alturas. Em vez de incentivar adaptação e criatividade, o jogo frequentemente força o jogador a lidar com essas situações de forma menos eficiente, pulando ou se abaixo para atingi-los, isso quando não estamos voando com Elaleth.

O combate aéreo, que poderia ser um diferencial, acaba sofrendo com essas mesmas restrições. Há momentos em que o jogo sugere maior mobilidade, mas não oferece ferramentas suficientes para explorá-la de forma satisfatória.

Legacy of Kain: Ascendance
As variações de Raziel no novo game chamam atenção (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Quando mudar não é o suficiente

A presença de múltiplos personagens jogáveis é uma tentativa clara de diversificar a experiência. Cada um possui características próprias, com pequenas variações de habilidades e abordagem. Ainda assim, essas diferenças não chegam a transformar significativamente o gameplay.

Kain, claro, é o destaque mais evidente. Seu estilo mais agressivo, aliado à velocidade e ao impacto de seus ataques, torna os combates mais fluidos e interessantes. Jogar com ele evidencia o potencial que o sistema poderia alcançar se fosse mais explorado, principalmente porque seus golpes não vão para frente, mas sim, na diagonal.

Por outro lado, personagens como Elaleth e Raziel não conseguem manter o mesmo nível de engajamento. As diferenças existem, mas muitas vezes parecem mais superficiais do que estruturais. Isso acaba diminuindo a sensação de progressão e variedade ao longo da campanha.

Legacy of Kain: Ascendance
Algumas cutscenes lembram animações da época do PlayStation 1 (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Estrutura previsível e pouca exploração

A progressão segue uma fórmula bastante clara: avançar pela fase, derrotar inimigos e, eventualmente, enfrentar um chefe ao final. Essa estrutura funciona e remete aos clássicos da década de 1980 e 1990.

Os coletáveis reforçam essa simplicidade. Em vez de incentivar exploração mais cuidadosa, a maioria são visíveis e acessíveis, funcionando mais como elementos complementares do que como parte essencial da experiência.

Essa abordagem contribui para um ritmo constante, mas também limita a profundidade do jogo. Para um universo tão rico quanto o de Legacy of Kain, a sensação é de que havia espaço para algo mais elaborado.

Legacy of Kain: Ascendance
A briga foi feia (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Estética consistente, mas pouco variada

Visualmente, Legacy of Kain: Ascendance aposta em uma pixel art bem executada, com personagens expressivos no momento dos diálogos e efeitos que valorizam o combate. A direção de arte funciona bem e ajuda a reforçar a identidade do título.

No entanto, há uma certa repetição perceptível nos cenários. Apesar da qualidade visual, os ambientes tendem a se tornar semelhantes ao longo da jornada, reduzindo o impacto estético com o passar do tempo.

Por outro lado, a trilha sonora acompanha bem a proposta, reforçando o tom sombrio, mas sem se destacar de forma marcante.

Legacy of Kain: Ascendance
A estética dessa fase é incrível (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Vale a pena comprar Legacy of Kain: Ascendance?

No fim das contas, Legacy of Kain: Ascendance cumpre seu papel como um retorno para a franquia. Há aqui uma tentativa legítima de expandir o universo, explorar novas perspectivas e tornar a experiência mais acessível.

Ainda assim, suas limitações são evidentes. A falta de aprofundamento narrativo, somada a um sistema de combate restrito e uma estrutura previsível, impede que o jogo alcance um nível mais alto. Como experiência pontual, funciona. Como evolução da franquia, deixa a sensação de que poderia ter ido além.

Legacy of Kain: Ascendance será lançado nesta terça-feira, 31 de março, para PlayStation 5Xbox Series X|S, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2 e PC, via Steam e Epic Games Store.

*Review elaborada em um Steam Deck, com código fornecido pela Crystal Dynamics.

Legacy of Kain: Ascendance

6.6

História

7.0/10

Gráficos e Sons

7.0/10

Gameplay

6.5/10

Extras

6.0/10

Prós

  • Expande o universo de Legacy of Kain com novas perspectivas narrativas
  • Kain oferece o gameplay mais fluido e satisfatório do jogo
  • Direção de arte em pixel art bem executada
  • Ritmo ágil, com campanha curta e direta
  • Legendas em português do Brasil

Contras

  • Combate limitado, com pouca variação de ataques
  • Falta de profundidade na narrativa e no gameplay
  • Estrutura repetitiva ao longo das fases

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.