FIRE AND ASHES | Review

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Jogos de terror em primeira pessoa precisam encontrar maneiras de manter os jogadores tensos praticamente o tempo todo, seja por meio de uma atmosfera opressora, falta de recursos ou de mecânicas capazes de tornar cada encontro uma ameaça. Em FIRE AND ASHES, a proposta é apostar na própria voz do jogador, permitindo que o microfone seja utilizado em determinadas interações com o mundo e seus inimigos.

Desenvolvido pela ASDstudio, FIRE AND ASHES leva os jogadores a uma jornada de terror que mistura combate, exploração e resolução de enigmas, tentando construir uma experiência que surpreenda, tanto pela ambientação quanto pelas possibilidades oferecidas por sua mecânica central.

Mas será que o jogo consegue transformar essas ideias em uma experiência realmente interessante, ou acaba tropeçando na própria execução? Prepare um lanchinho e vem comigo descobrir tudo o que você precisa saber sobre FIRE AND ASHES em mais uma review antecipada aqui no Pizza Fria!

Uma voz que não encontra seu propósito

Falar sobre FIRE AND ASHES sem passar pela sua mecânica de voz é praticamente impossível. Para aqueles que não sabem, a ASDstudio implementou um sistema bastante parecido com o de Alien: Isolation, onde você poderia usar seu próprio microfone para emitir ruídos no mundo do jogo e observar efeitos variados ao fazer isso. Apesar de a ideia ser bastante interessante no papel, quem está jogando não tem controle sobre ruídos indesejados, e isso poderia acabar com uma sessão inteira.

FIRE AND ASHES vai para um caminho bastante parecido, mas traz algumas formas de combater esse problema. Primeiramente, ao menos na minha gameplay e com meu headset (essa experiência pode e irá ser afetada com base nos seus equipamentos), barulhos mais baixos até eram registrados na barra de volume que aparece na lateral da tela, mas não ultrapassavam o limite necessário para causar reações no ambiente. Além disso, aqueles que não conseguem garantir um ambiente silencioso podem desativar o uso do microfone nas opções e usar o triângulo do controle para produzir o mesmo efeito.

FIRE AND ASHES
A barra no canto inferior esquerdo da tela informa se o microfone do jogador está sendo captado. (Captura de tela: Reprodução/PS5/Bruno Josué)

Porém, apesar das melhorias, a execução não me agradou. Atrair uma criatura para algum lugar pode ser legal na primeira vez, mas logo perde força, principalmente quando a mecânica não funciona como esperado. Gritar no seu microfone irá, sim, afetar os inimigos. Mas, ao menos na minha gameplay, várias das vezes nas quais eu tentava utilizá-lo, os oponentes ficavam confusos, travados em uma parede, ou girando de um lado para o outro até retornarem aos seus estados normais.

Os problemas também se estendem a outras mecânicas que, em princípio, nem deveriam depender da captação de áudio. O sistema de parry, por exemplo, pode ser acionado tanto pelo botão de bloqueio quanto pelo comando que simula a voz. Entendo a intenção de oferecer alternativas para quem não quer falar ou gritar durante os combates, mas a implementação acaba criando uma situação bastante peculiar: ao pressionar repetidamente os dois botões, consegui executar parries com uma facilidade que praticamente eliminava a necessidade de precisão.

No fim, uma mecânica que deveria ser um dos grandes diferenciais de FIRE AND ASHES acaba comprometida por problemas de consistência e decisões de implementação questionáveis. A ideia continua interessante, mas, pelo menos na minha jogatina, o jogo não consegue transformá-la em algo que justifique sua presença para além da curiosidade inicial.

Uma gameplay pouco profunda…

A gameplay de FIRE AND ASHES é tão problemática quanto suas demais características. Apesar de apresentar algumas ideias interessantes, ele falha em executá-las de maneira consistente, resultando em uma experiência marcada por mecânicas pouco refinadas e situações que comprometem até mesmo o básico de um jogo de terror.

A exploração é um dos primeiros aspectos que me decepcionou. O início, ambientado em um hospital psiquiátrico, dá a impressão de que teremos liberdade para investigar os ambientes e descobrir seus segredos, mas essa expectativa logo se desfaz. A maioria das celas está fechada, há poucos itens relevantes espalhados pelos cenários e, depois dos primeiros momentos, explorar acaba dando lugar a simplesmente seguir em frente. O jogo até tenta construir uma atmosfera de mistério, mas oferece poucos motivos para que o jogador se interesse pelo que existe ao seu redor.

FIRE AND ASHES
Enquanto o começo de FIRE AND ASHES flerta, mesmo que de forma leve, com cenários um pouco mais livres para exploração, os próximos ambientes se tornam apenas “simuladores de W”, como a Floresta dos Segredos da imagem. (Captura de tela: Reprodução/PS5/Bruno Josué)

O combate também não é satisfatório. O protagonista é extremamente lento, tornando as lutas bastante complicadas, especialmente porque os inimigos são mais rápidos e causam muito dano. As animações também são bastante arcaicas, fazendo com que, em alguns momentos, seja difícil até mesmo entender o que está acontecendo. O resultado são confrontos frustrantes, que tornam as lutas obrigatórias particularmente cansativas.

As batalhas contra chefes me deixaram um pouco mais interessado, mas parecem deslocadas do restante da campanha. É estranho encontrar mecânicas, como atirar em objetos do cenário para causar dano aos inimigos, apenas nessas seções, sem que elas pareçam fazer parte de um sistema de combate mais amplo. São ideias que poderiam trazer alguma variedade aos confrontos comuns, mas acabam restritas a momentos específicos.

Os puzzles, por sua vez, me deixaram um pouco dividido. Eles não são necessariamente difíceis, o que pode agradar a quem procura uma experiência mais casual, mas tampouco apresentam soluções particularmente criativas. Em alguns momentos, as respostas parecem arbitrárias, dependendo de ações que não são naturalmente sugeridas pelo ambiente. Em outros, o próprio jogo entrega soluções por meio de dicas excessivamente explícitas, reduzindo a satisfação de resolver os desafios. No fim, os quebra-cabeças raramente se destacam de maneira positiva.

Aspectos técnicos que não convencem

Visualmente, FIRE AND ASHES até consegue causar uma boa primeira impressão, mas a qualidade dos cenários é inconsistente. Algumas áreas parecem bem apresentadas, enquanto outras apresentam uma queda considerável no cuidado visual. A distância de renderização é bem curta e ver objetos aparecendo na sua cara não é incomum. O áudio, por sua vez, apresenta uma qualidade apenas mediana, sem compensar as limitações encontradas nas demais áreas.

Outro problema é a falta de identidade em determinados elementos. A tela de morte, por exemplo, reproduz a apresentação de Dark Souls de maneira extremamente semelhante, incluindo fonte, texto e animação. Outros elementos da interface também parecem assets tirados de outros títulos. Isso não é um problema por si só. Jogos reutilizam elementos de outros o tempo todo. Mas fazer isso de forma tão descarada, sem se importar com sua identidade própria é bastante problemático.

FIRE AND ASHES
A tela de morte de FIRE AND ASHES é idêntica à de Dark Souls. Não apenas a tela de morte, mas também outros elementos que parecem cópias de outros jogos acabam comprometendo a identidade que o título poderia ter. (Captura de tela: Reprodução/PS5/Bruno Josué)

O desempenho no PS5 também é decepcionante, com quedas frequentes na taxa de quadros. Também me deparei com travamentos completos, ou situações em que eu precisei reiniciá-lo por conta própria. Além disso, durante minha jogatina, encontrei um problema gravíssimo: um dos desafios não era contabilizado mesmo após sua resolução correta. Como consequência, fiquei impossibilitado de avançar e concluir a história, mesmo após tentar contornar o problema recarregando o checkpoint e reinstalando o jogo.

A localização de FIRE AND ASHES também merece uma crítica separada. As legendas aparecem de maneira dessincronizada em relação às falas, muitas vezes surgindo apenas no final das frases e permanecendo na tela por um tempo extremamente curto. Acompanhar os diálogos se tornou uma verdadeira experiência de terror dessa forma.

História misteriosa, ou apenas confusa?

A narrativa de FIRE AND ASHES é tão confusa quanto sua execução. A jornada começa em um hospital psiquiátrico, mas logo passa por cenários e situações que parecem ter pouca conexão entre si. Em determinado momento, estamos explorando corredores de uma instituição; em outro, o jogo nos leva a um laboratório cheio de indivíduos que parecem robôs esquisitos e, posteriormente, a uma floresta habitada por criaturas voadoras. Mudanças inesperadas podem funcionar muito bem em um jogo de terror, mas, aqui, a transição entre essas ideias não consegue despertar curiosidade suficiente para compensar a sensação de desconexão.

O problema não está na variedade de ambientes ou na presença de elementos surrealistas, mas na dificuldade de compreender como eles se relacionam dentro da narrativa. Em vez de criar um mistério que incentive o jogador a descobrir o que está acontecendo, FIRE AND ASHES apresenta situações que tornam difícil até mesmo entender o contexto da própria jornada.

FIRE AND ASHES
Apesar de começar em um hospital psiquiátrico e se apresentar como uma campanha mais puxada para um lado mais violento e psicológico, FIRE AND ASHES logo perde essa identidade ao trazer cenários completamente desconexos com os anteriores. (Imagem: Divulgação)

Como resultado, a história não consegue sustentar o interesse que sua premissa poderia despertar. O terror depende bastante da capacidade de nos envolver em situações perturbadoras, nos instigando a descobrir o que existe por trás delas, mas é difícil se importar com os mistérios apresentados quando falta clareza para compreender o que está acontecendo. Pelo trecho que consegui jogar, FIRE AND ASHES não me mostrou uma maneira convincente de conectar suas ideias e transformar essa jornada em uma narrativa envolvente.

Vale a pena jogar FIRE AND ASHES?

FIRE AND ASHES é um jogo que desperdiça boa parte do potencial de sua proposta. A mecânica de voz chama a atenção e poderia oferecer uma abordagem diferente para o terror, mas sua execução inconsistente, junto com combates pouco satisfatórios, exploração superficial e puzzles pouco inspirados, faz com que a experiência raramente consiga se destacar de maneira positiva. Os problemas técnicos agravam ainda mais a situação, com quedas frequentes de desempenho, falhas de localização e até um bloqueio de progressão que me impediu de concluir a campanha.

É difícil recomendá-lo mesmo para quem procura um jogo de terror mais casual. Embora algumas ideias demonstrem potencial, falta refinamento para transformá-las em algo realmente interessante, e a quantidade de problemas encontrados torna complicado aproveitar aquilo que funciona. Sua duração também não ajuda. Uma campanha que aparenta durar apenas três horas, sem muitos elementos extras para explorar, acaba tornando a experiência extremamente curta.

No fim, FIRE AND ASHES deixa a impressão de uma experiência que precisava de mais tempo de desenvolvimento e testes antes de chegar aos jogadores, pelo menos em sua versão de PlayStation 5. Como não consegui concluir a campanha devido ao bloqueio de progressão, esta análise se limita ao conteúdo que pude experimentar. Ainda assim, os problemas encontrados até esse ponto foram suficientes para comprometer consideravelmente minha jogatina. No estado em que o encontrei, não consigo recomendá-lo.

FIRE AND ASHES será lançado em 23 de outubro de 2026 para PlayStation 5 e Xbox Series X|S. A versão de PC já está disponível na Steam por R$ 46,99 (o preço pode variar de acordo com a plataforma).

*Review elaborada utilizando a versão de PlayStation 5, com código fornecido pela ASDstudio.

FIRE AND ASHES

BRL 114,90
3

História

3.0/10

Gráficos e Sons

3.0/10

Gameplay

4.0/10

Extras

2.0/10

Prós

  • Ideias interessantes, mesmo que pouco aprofundadas
  • Interface localizada em português brasileiro, apesar de todos os seus problemas

Contras

  • Exploração superficial, puzzles pouco inspirados e combate pouco refinado
  • A mecânica de voz é inconsistente
  • Problemas técnicos graves
  • Localização problemática, com legendas completamente fora de sincronia
  • Bugs gravíssimos que bloqueiam a progressão

Bruno Josué

Bruno Josué, ou God_BrunoBH, como é conhecido em suas redes sociais, é amante de jogos desde pequeno. Gosta de jogos que rendem histórias emocionantes, mundos cativantes e discussões mais longas do que deveriam. Quando não está escrevendo análises até altas horas da noite, está atrás de alguma platina em seu PlayStation 5, ou tentando explicar aos outros como uma simples música de menu ou atividade secundária o deixou emocionado. Até o momento, ninguém conseguiu convencê-lo de que isso não pode ser considerado um belíssimo trabalho.