Peregrino | Review

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Peregrino, jogo da Inverge Studios lançado para PC via Steam, é um título realmente diferente. Enquanto existem tantos jogos de sobrevivência que fazem questão de nos orientar a cada passo, ele nos coloca diante de um ambiente incomum… que eu diria ameaçador, trazendo o mínimo de instruções e informações, deixando tudo para cada tentativa. Erros, observação e insistência são aspectos muito comuns, que mexem com a nossa cabeça. É exatamente isso que espero de um survival.

Peregrino, embora com um nome bem “inocente”, se apresenta como uma aventura isométrica de sobrevivência em que exploramos uma floresta amaldiçoada durante o dia e tentamos cuidar de uma caravana durante a noite, sempre em busca do chamado Novo Éden. Ah… aquela promessa de um novo mundo! A descrição do jogo no Steam resume bem sua base: coletar recursos, caçar criaturas letais, expandir o acampamento móvel, cuidar dos companheiros e atravessar um território vasto e sombrio. Felizmente, o jogo para nós com menus e textos em português do Brasil, algo importante para um título tão dependente de leitura de interface e compreensão de sistemas.

O ousado título mistura gerenciamento, exploração, tensão constante, em uma ambientação que flerta com o místico, o religioso e o inquietante. Em vez de apostar em construção livre nos moldes mais populares, ele prefere um recorte mais controlado, mais denso e mais focado em sobrevivência. Como deve ser. É um jogo que quer testar o jogador, mas também quer envolvê-lo por atmosfera, por descoberta e pela sensação de vulnerabilidade. Mas será que essa ousadia toda funciona em um jogo? Veremos nesta review!

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Uma jornada massiva

A ideia de Peregrino pode parecer simples no papel, mas é bem eficaz no geral. Assumimos o papel de líder solitário de uma caravana que atravessa uma floresta sombria rumo ao Novo Éden, uma espécie de terra prometida em meio a uma ambientação que mistura elementos de faroeste, religiosidade e total decadência moral. É quase um purgatório em forma de jogo. Esse pano de fundo já nos apresenta uma personalidade que julgo bem interessante. Não se trata apenas de sobreviver, tal como tantos jogos atuais, mas de conduzir a caravana por uma jornada marcada por privação e ameaças… mas com alguma esperança. Essa caravana, vale ressaltar, é nossa base, onde fazemos todo o tratamento dos materiais, funcionando muito bem.

A narrativa não é entregue de forma excessivamente expositiva. Ela surge aos poucos, por meio do mundo, dos poucos aliados encontrados pelo caminho, das missões secundárias e da própria atmosfera complexa. Há um componente de mistério muito forte em tudo o que cerca a floresta que faz parte do mapa, e Peregrino se beneficia bastante disso. Em vários momentos, o jogo nos transmite a sensação de que existe algo maior operando naquele espaço, algo que vai além da mera hostilidade da mãe natureza. A ambientação frequentemente sugere contaminação espiritual, loucura e uma forma de corrupção incomum. Quase tudo aqui é extremamente hostil.

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Peregrino traz um mundo bem incomum a nós, jogadores. (Imagem: Divulgação)

Essa escolha funciona de uma forma incrível, porque amplia o peso desta jornada, que não se explica de imediato. Não estamos apenas administrando barras e recursos; estamos atravessando um lugar que parece resistir à própria ideia do tempo. Isso dá à campanha um sabor extremo. Cada pequeno avanço parece custar caro, e cada retorno seguro ao acampamento soa como pequena vitória. Bem pequena…

Decifra-me ou te devoro (de muitas maneiras)

Um dos traços mais marcantes de Peregrino é justamente a forma como ele lida com a curva de aprendizado. O jogo oferece algumas orientações básicas, afinal, ninguém consegue começar algo sem informação alguma, mas evita longas sequências de tutorial, para dar aquela sensação de desafio. Em outras palavras, ele não segura na nossa mão para fazer tudo bonitinho. Isso pode causar estranhamento no início, sobretudo para quem está acostumado a sistemas mais guiados. Felizmente, isso traz um gostinho de descoberta excelente.

Peregrino não quer que tudo seja imediatamente compreendido. Ainda bem, pois perderia toda a sensação de sobrevivência. O jogo quer que a gente observe, teste, explore, fracasse e volte cada vez mais preparado para seus desafios, dando uma genuína sensação de progresso. Mais do que subir números, avançar aqui significa entender o mundo ao seu redor: saber quando sair, quando voltar, o que coletar, quais riscos valem a pena e quais erros custam caro demais. Além disso, a ficar sempre de olho na chegada da temida noite, onde a verdadeira ameaça reside.

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Aqui a luta para sobreviver é constante! (Imagem: Divulgação)

Essa filosofia fortalece a imersão. Como o jogo não mastiga tudo, há uma sensação constante de exposição ao desconhecido. Explorar deixa de ser simples deslocamento entre pontos do mapa e vira uma análise ampla de cada passo, cada descoberta. Você passa a prestar mais atenção à luz, ao terreno, aos sons, à distância até um ponto seguro, à quantidade de itens e ao estado geral do personagem. Peregrino é um jogo exigente que requer presença, e isso é uma virtude essencial dentro de sua proposta.

A noite é diferente

Se durante o dia Peregrino já transmite certa cautela, é durante a noite que ele encontra sua forma mais… complexa. A escuridão muda completamente o ritmo da experiência de jogo. A visibilidade cai, a sensação de ameaça aumenta absurdamente (algo nítido pelo som do jogo), e nós, bravos desbravadores ou desbravadoras, sentimos com mais intensidade a própria fragilidade de ser alguém em meio a um mundo totalmente desconhecido. Assim, o que já parecia perigoso, assume um caráter quase demoníaco quando a luz desaparece.

Essa transição é uma das melhores sacadas apresentadas pelo sacana Peregrino. Não é só uma mudança de iluminação; é uma alteração de estado emocional, uma sensação de ameaça constante. A noite reorganiza prioridades. O impulso de explorar dá lugar à urgência de sobreviver. Estar longe de um farol, de uma fonte de luz ou do próprio acampamento se torna um problema real. Isso faz com que o ciclo de dia e noite não seja apenas um detalhe cosmético, mas uma peça central da tensão. E haja tensão!

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O desafio de Peregrino começa com a gestão de espaços do inventário. (Imagem: Divulgação)

Aliás, a excelente direção artística ajuda muito nesse aspecto. O jogo é visualmente bonito, com cenários naturais muito bem compostos, uso expressivo de sombras e uma paleta de cores que reforça o desconforto sem anular o apelo estético. Há ecos visuais de outras obras sombrias, e Peregrino consegue sustentar identidade própria graças à combinação entre ambientação. O pôr do sol, em especial, funciona quase como um aviso silencioso de que o mundo está prestes a ficar ainda pior.

No som, o jogo também acerta muito bem. A trilha sonora não é lá o elemento mais memorável do pacote, mas cumpre bem seu papel, enquanto os efeitos sonoros reforçam a tensão de maneira eficiente. Tudo trabalha a favor de uma atmosfera de constante vulnerabilidade.

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O som dos inimigos já nos apresenta uma tensão incrível. (Imagem: Divulgação)

Um survival padrão, mas com ideias únicas

Na jogabilidade, Peregrino trabalha com três indicadores principais: vida, fome e fé. Sim, há uma questão de fé. Os dois primeiros são muito comuns, mas a barra de fé dá ao jogo uma camada temática e mecânica bastante interessante e única. Se a alimentação acaba, a vida começa a se esvair. Mas se a fé se esgota, o personagem entra em um estado de insanidade e ameaças mais complexas surgem. Não é apenas uma questão de resistência física, mas também um estado de estabilidade mental e espiritual.

Essa tríade é um dos melhores elementos do design de Peregrino. Ela é simples o suficiente para ser entendida rapidamente, mas também ajuda a diferenciar o jogo de outros tantos survivals que temos por aí. Mais importante: ela conversa com o universo temático do game o tempo todo. Em vez de parecer um sistema arbitrário, a fé está diretamente integrada à identidade narrativa e atmosférica do mundo em que somos jogados. É uma mecânica funcional e coerente.

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A imersão do jogo é bem única. (Imagem: Divulgação)

O gerenciamento desses recursos também é bem distribuído. Há alimentos para recuperar nutrição, itens específicos para vida e objetos sagrados aleatórios ou livros para restaurar a fé do protagonista. Isso faz com que a coleta de recursos não seja apenas voltada para lidar com a vida ou ameaças. Aqui, a fé é tão essencial quanto o ar que nos rodeia. Com isso, não estamos apenas acumulando materiais aleatoriamente (tipo Arc Raiders); estamos montando condições para continuar mental e fisicamente aptos a seguir adiante.

Explorar é preciso

Outro grande mérito de Peregrino é fazer da exploração algo ativo, interessante e ousado, tal qual sua proposta. Muitos jogos do gênero caem rapidamente em um ciclo previsível e chato, baseado apenas em repetir coleta de madeira, pedra e comida até a exaustão. Felizmente, aqui, há mais intenção. O mapa possui pontos de interesse, áreas escondidas, locais de salvamento, trechos que liberam visão total da região e uma distribuição de elementos que valoriza curiosidade e atenção.

O sistema dos faróis é especialmente importante em Peregrino. Eu explico: eles funcionam como referência espacial, ponto de segurança e forma de salvar nosso progresso. Isso dá à exploração um aspecto tático e gradativo. Nós não podemos sair andando pelos caminhos; precisamos planejar deslocamento, medindo riscos, buscando os marcos que nos permitam seguir vivos em meio a tanta hostilidade. É uma estrutura que valoriza prudência sem matar o impulso da descoberta. Isso se você não for com muita sede ao pote, claro.

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Aqui, viver é muito mais do que comer e dormir. (Imagem: Divulgação)

Além disso, Peregrino tenta tornar atividades básicas em algo mais vívido, com mini-games específicos para diversas ações como cortar madeira, esfolar animais, minerar ou coletar certos recursos. No começo, isso é um diferencial claro. Em vez de reduzir tudo a segurar um botão, o jogo quer que cada tarefa tenha uma pequena participação dos jogadores e jogadoras. Isso reforça a materialidade da sobrevivência: conseguir recursos parece depender de habilidade, atenção e cuidado.

Mas preciso mencionar… Com o passar das horas, essa repetição pode nos desgastar um pouco. Ainda assim, no balanço geral, é uma escolha que ajuda muito a Peregrino para construir sua personalidade. O jogo tenta fugir do automatismo e, em grande parte da jornada, consegue. Por si só, o jogo já se destaca bastante com isso.

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Um problema desafiador é lidar com o tamanho da mochila. (Imagem: Divulgação)

Problemas também existem aqui

Mesmo funcionando muito bem dentro da proposta, Peregrino não sai ileso de alguns problemas, sejam eles técnicos ou não. Há momentos em que o desafio parece vir menos de escolhas duras e mais de limitações de execução do jogo. Alguns trechos de cenário têm leitura confusa, certos bloqueios de terreno não são totalmente intuitivos e a ausência de silhuetas para o personagem quando elementos visuais encobrem a visão pode atrapalhar… e muito. Em um jogo em que posicionamento e atenção são tão importantes, isso incomoda, infelizmente.

Os combates também nem sempre brilham. A lentidão das ações do protagonista e a imprecisão em comandos de esquiva e ataques corpo a corpo podem fazer alguns confrontos parecerem mais pesados do que deveriam. Não chega a arruinar a experiência, mas impede que o sistema de luta acompanhe o mesmo nível de interesse encontrado na exploração e na atmosfera.

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O mapa é vivo e essencial para a sobrevivência. (Imagem: Divulgação)

Além disso, a repetição dos mini-games de coleta, que a princípio é charmosa, tende a perder força nas horas mais avançadas. O que começa como detalhe criativo pode virar uma pequena trava de ritmo. Ainda assim, são problemas de calibragem e qualidade de vida, não de conceito. Para fechar, ainda existem alguns problemas nas animações que nos deixam meio perdidos, como quando vamos usar o arco e flecha. Fora isso, o jogo tem seu brilho, apresentando gráficos consistentes para a proposta e áudio bem imersivo para cada momento de tensão.

Vale a pena jogar Peregrino?

Olha… Peregrino não é um survival feito para todos os públicos, sendo bem nichado, sobretudo por ser um título bem exigente. Se você não é chegado ao gênero, talvez passe apertado por conta de tantos detalhes e poucas informações iniciais. Eu gosto da ideia, mas tenho toda a noção de que muitas pessoas precisam de mais direcionamento. O jogo até nos propõe algumas missões, mas não é tão simples assim.

O mais importante é que Peregrino tem um diferencial essencial: identidade. Em um gênero muitos saturado por fórmulas parecidas, o jogo consegue parecer ser bem particular. Seu mundo é hostil, seu tema é forte, sua atmosfera é consistente e sua estrutura de sobrevivência tem boas ideias próprias. Ele não tenta ser uma fantasia de poder; tenta ser uma travessia difícil, desconfortável e memorável. Nessa proposta, funciona melhor do que muitos títulos mais ambiciosos em escopo

Concluindo, Peregrino é um survival isométrico que encontra força justamente naquilo que pode afastar parte do público: sua dureza. A jornada rumo ao Novo Éden é tensa, misteriosa e cheia de obstáculos, mas também muito envolvente. O jogo acerta em cheio na atmosfera, apresenta uma direção artística marcante, trabalha bem sua tríade de sobrevivência e oferece um loop de exploração e aprendizado que prende com facilidade. Mas só de ser diferenciado, já merece destaque.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela Inverge Studios.

Peregrino

R$ 43,99
8

História

7.8/10

Jogabilidade

8.4/10

Gráficos e sons

8.4/10

Extras

7.4/10

Prós

  • Atmosfera excelente e muito bem sustentada por gráficos e sons
  • Exploração desafiadora, recompensadora e cheia de tensão
  • Legendado em português do Brasil
  • Sistema de sobrevivência com boas ideias, especialmente a barra de fé

Contras

  • Combate poderia ser bem mais preciso e responsivo
  • Alguns elementos visuais atrapalham a leitura das ações
  • Bugs em animações acontecem ocasionalmente

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.