Truck Driver: The American Dream | Review
Sempre achei relaxante a ideia de encarar um simulador de caminhões. Quando comecei a cobrir Truck Driver: The American Dream, logo me veio a curiosidade de ver o que me esperava. Após ter me divertido com Euro Truck, pensei que mudar de ares poderia ser divertido, sobretudo por trazer consigo uma narrativa, algo único para o gênero. No título, controlamos Nathan, um jovem adulto tentando encontrar algum rumo na vida enquanto carrega o peso da memória do pai, um caminhoneiro respeitado e lembrado por todos. Diferente, não é?
A ideia é bacana, trazendo um algo a mais para este gênero, que costuma se apoiar muito mais na rotina, na simulação e na contemplação do que em aspectos narrativos. Aqui, tentam fazer as coisas de maneira diferente. Com isso, a Kyodai misturou em Truck Driver: The American Dream entregas, conversas, lembranças, conflitos pessoais e muita estrada.
No papel, isso cria um ponto de partida interessante. Mas será que isso realmente funciona, ou é um penduricalho sem graça? Aliás, será que o jogo realmente traz uma sensação de simulador de caminhão, ou fica totalmente linear, seguindo apenas a narrativa? Vamos entender esses aspectos nesta review. Vamos lá!
Um pesadelo americano
A parte que mais tenta ser agradável em Truck Driver: The American Dream é, sem dúvida, a tentativa de dar contexto às missões com uma narrativa. O protagonista não está apenas aceitando trabalhos aleatórios em um mapa aberto. Ele está tentando seguir os passos do pai, lidar com expectativas familiares, entender a própria vida e provar que pode construir alguma coisa.
Isso até ajuda a criar um motivo para continuar dirigindo, pelo menos no começo, mas logo fica tudo genérico demais. A narrativa é previsível, cheia de clichês e não chega nem perto de ser um grande drama, mas funciona como um pano de fundo. O jogo traz 31 capítulos, e essa estrutura dá uma sensação de avanço. A cada etapa, uma nova conversa ou situação tenta justificar por que aquela viagem importa. Para um simulador, isso pode ser legal, mas aspectos como gráficos, jogabilidade e até a qualidade narrativa não ajudam a prosseguir.

No entanto, a dublagem até que é razoável. As vozes dão um pouco de personalidade aos personagens e tornam as conversas mais agradáveis do que as cenas em si, que deixam muito a desejar. É uma pena que o restante da apresentação de Truck Driver: The American Dream não acompanhe. As cutscenes têm um visual estranho, com personagens muito toscos, sendo bem genéricos, rostos pouco expressivos e um estilo meio borrado que deixa tudo esquisito.
Para piorar, a estrutura das missões também é problemática. Quase tudo gira em torno de sair de um ponto, ir até outro, acoplar carga, dirigir, entregar e repetir. É claro, essa é a premissa da vida de um caminhoneiro, mas nisso, o aspecto narrativo deveria fazer diferença, mas não faz. Às vezes, até há uma parada em posto, uma conversa, um abastecimento ou uma pequena variação de carga. Mas, no fundo, o ciclo muda pouco.

Dirigir é uma experiência sem graça
Em um jogo sobre caminhões, logo se espera que a direção seja excelente, certo? Errado! É exatamente aqui que Truck Driver: The American Dream desanda ainda mais. A estrutura básica até parece correta, seguindo à risca o padrão de qualquer jogo do gênero: acelerar, frear, ligar o motor, usar freio de estacionamento, acoplar carga, respeitar semáforos, abastecer e seguir até o destino. Só que a sensação ao volante não convence. Volante não, né, controle. Não consegui configurar meu volante de jeito algum.
De toda forma, O caminhão não passa peso e vira demais em diversos momentos. Assim, em vez de parecer que estou controlando um veículo enorme, pesado e difícil de manobrar, muitas vezes tive a impressão de estar guiando algo leve demais, quase como um brinquedo grande deslizando pelo asfalto. É bem esquisito. Mas o pior de tudo é a física. A pista parece ser escorregadia, mesmo quando o sol está rachando. É fácil demais derrapar em curvas simples, algo que não faz sentido algum. Aqui, a direção parece brigar contra nós, jogadores e jogadoras.

Isso cria uma frustração tenebrosa, porque a rotina de Truck Driver: The American Dream depende de trajetos longos e monótonos, algo perceptível desde a introdução do jogo. Se dirigir neste título fosse algo relaxante, o ritmo repetitivo poderia até funcionar como algo contemplativo. Mas, quando o caminhão não transmite confiança e a jogabilidade é ruim, cada entrega vira um exercício de paciência. Frustrante.
O trânsito é surreal de ruim
A inteligência artificial dos outros veículos em Truck Driver: The American Dream é um dos pontos mais irritantes do jogo, juntamente com os sinais que nunca abrem. Sinceramente, perdi a conta de quantas vezes um carro entrou na minha frente sem lógica, parou em lugar estranho ou simplesmente decidiu ignorar o fluxo normal da via ou quando o sinal travava e ficava 20 minutos agarrado. Se fosse para passar raiva no trânsito, eu iria para a rua!
Assim, há momentos em que o jogo parece nos punir por acreditar que o tráfego vai agir de forma minimamente racional. Um semáforo abre, você acelera, e um carro na frente simplesmente não anda. Outro veículo muda de comportamento sem aviso. Às vezes, a batida parece inevitável não porque eu errei, mas porque o mundo ao meu redor decidiu funcionar mal. Parece a realidade, faz sentido, eu sei, mas não dá. IA burra é algo complicado.

Com isso, Truck Driver: The American Dream destrói toda a sensação de simulação. Em vez de me preocupar com direção defensiva, peso da carga, curva aberta ou distância de frenagem, tenho que adivinhar qual carro vai fazer uma bobagem primeiro. É o tipo exato de problema que transforma tranquilidade em estresse.
Visual fraco e problemas mil
Visualmente, Truck Driver: The American Dream decepciona. Há momentos em que o ambiente até tenta criar uma boa atmosfera, principalmente com mudanças de clima, chuva, noite e trechos de estrada mais abertos. Isso é legal. A ideia de dirigir ao entardecer ou pegar uma tempestade poderia ser bem mais agradável se o conjunto técnico fosse mais consistente. Mas o jogo parece antigo, defasado, limitado. Texturas simplistas, serrilhadas, modelos pobres e cenários pouco refinados dão a sensação de um título de gerações passadas. Tudo acaba soando muito artificial.
A coisa ainda piora com os personagens, que sofrem ainda mais. Como a história tenta ser um diferencial, seria importante que Nathan e os demais tivessem mais presença visual. Mas os rostos genéricos, feios de feição, com um sistema de sombras e iluminação bisonho e as cenas pouco expressivas enfraquecem exatamente o ponto que poderia salvar a experiência. Não deu.

Já os problemas técnicos aparecem com frequência suficiente para incomodar. Calçadas podem se comportar como paredes invisíveis, várias colisões simplesmente não têm peso, carros envolvidos em batidas seguem como se nada tivesse acontecido… Não bastasse isso temos de lidar com pequenos glitches quebram a imersão e reforçam a sensação de falta de polimento.
O som do caminhão é outro problema sério. Em um jogo desse tipo, o áudio do motor deveria ser parte fundamental da experiência. O ronco, a troca de marcha, o peso da aceleração e o ruído da estrada ajudam a vender a fantasia de estar dirigindo. Em Truck Driver: The American Dream, o som é fraco, repetitivo e irritante. Em alguns momentos, acelerar parecia mais incômodo do que prazeroso. Complicado…

Vale a pena jogar Truck Driver: The American Dream?
Sinceramente, é muito difícil recomendar Truck Driver: The American Dream. A ideia de misturar simulador de caminhão com narrativa familiar é muito boa, e consigo ver o que o jogo queria ser. Mas não foi. Existe uma tentativa sincera de criar uma experiência mais humana, com propósito e identidade, mas quase tudo ao redor falha em algum nível.
Quem procura um simulador de caminhão competente vai encontrar uma direção estranha, física inconsistente e trânsito problemático. Quem procura uma boa história vai encontrar um drama previsível, sustentado por boas vozes, mas prejudicado por cenas fracas. Quem busca uma experiência relaxante pode até encontrar alguns momentos tranquilos, mas terá que encarar muita repetição e problemas técnicos pelo caminho.
Honestamente, eu queria gostar mais de Truck Driver: The American Dream, mas a régua comparativa é alta. Queria demais mesmo que tudo desse certo. Mas, depois de tantas derrapagens, colisões estranhas e entregas iguais, a única coisa que eu realmente queria era estacionar o caminhão e desligar o motor. Foi o que fiz.
Truck Driver: The American Dream está disponível para PC via Steam, Xbox e PlayStation.
*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce RTX, com código fornecido pela SOEDESCO.



