Orbitals | Review

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Orbitals é uma aventura feita exclusivamente para duas pessoas. Não existe modo solo, companheiro controlado pela inteligência artificial ou qualquer alternativa para avançar sozinho: do primeiro ao último capítulo, Maki e Omura dependem um do outro para explorar cenários, resolver puzzles e superar os poucos confrontos que aparecem pelo caminho.

Durante cerca de seis horas, joguei toda a campanha online ao lado do Filipe Villela, redator do Pizza Fria, e foi justamente nessa dependência constante entre os dois jogadores que Orbitals mais funcionou para mim. A Shapefarm construiu uma sequência de quebra-cabeças que exige comunicação, troca de funções e bastante experimentação, ainda que nem sempre consiga explicar com clareza a lógica por trás de suas soluções.

Tudo isso vem embalado por uma direção artística inspirada diretamente nos animes dos anos 1980 e 1990. Mas, depois de terminar a aventura, percebi que o visual talvez nem seja seu maior destaque. Quer saber as razões? Vem que eu te conto em mais uma review antecipada do Pizza Fria!

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Um anime que você pode controlar

É impossível falar de Orbitals sem começar por sua apresentação. A inspiração nos animes dos anos 1980 e 1990 não está apenas no desenho dos personagens ou em um filtro aplicado sobre modelos tridimensionais. Ela permeia praticamente tudo.

A Shapefarm trabalhou ao lado do Studio Massket e utilizou animações de personagens e cenários construídas intencionalmente em 12 e 24 quadros por segundo para reproduzir características associadas ao filme e ao VHS. Durante o gameplay, a sensação é justamente essa. Há momentos em que parece que o jogo está rodando em uma taxa de quadros reduzida, mas não como consequência de um problema técnico: é o próprio movimento dos personagens que carrega esse aspecto deliberadamente limitado da animação tradicional.

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Orbitals é bonito mesmo! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

E funciona. Enquadramentos, expressões, timing das piadas, transições e cutscenes seguem a mesma lógica. Mais do que parecer um anime, Orbitals constantemente tenta se comportar como um. Até acontecimentos relativamente banais recebem reações exageradas e pequenas sequências cômicas.

A proposta visual, portanto, está longe de ser apenas uma embalagem. O diretor criativo Marcos Ramos define o projeto como uma carta de amor à experiência de assistir anime quando criança, enquanto a própria equipe apresenta Orbitals como uma tentativa de criar um “anime jogável”. Só que, surpreendentemente, ao terminar a campanha, o visual nem foi o aspecto audiovisual que mais me chamou atenção. Voltarei a isso.

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Apresentação do jogo é incrível (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Cooperação não é opção, é o jogo

A comparação com os trabalhos da Hazelight Studios é inevitável. It Takes Two e, principalmente, Split Fiction transformaram o cooperativo em uma sequência quase incessante de novas mecânicas. Adianto que, pra mim, Orbitals não chega ao mesmo nível. Mas também não tenta simplesmente copiar a fórmula.

Maki e Omura recebem diferentes ferramentas ao longo da aventura. Entre elas estão uma arma capaz de derreter determinados tipos de metal, outra que dispara água e um maravilhoso equipamento chamado de micro-ondas espacial. O mais interessante é que essas funções não pertencem definitivamente a um dos protagonistas.

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Ao iniciar cada sessão, Orbitals permite a troca de personagens (Imagem: Captura de Tela/Filipe Villela)

Em determinadas partes, podia escolher qual equipamento carregava enquanto Filipe assumia outro. Mais adiante, invertíamos tudo. O mesmo acontece nas sequências em que controlamos a pequena nave da dupla: um jogador pode pilotar enquanto o outro fica responsável pela artilharia, mas nada impede que os papéis sejam trocados. Isso faz uma diferença maior do que parece.

Em muitos jogos cooperativos, cada personagem possui uma função claramente estabelecida e o jogador passa boa parte da experiência executando variações dela. Aqui, existe uma solução planejada para cada problema, mas há liberdade na definição de quem fará o quê. Não significa que alguém possa simplesmente abandonar o parceiro e resolver tudo sozinho. Pelo contrário. A progressão é obrigatoriamente cooperativa.

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Bora! (Imagem: Captura de Tela/Filipe Villela)

Puzzles inteligentes, mas nem sempre claros

Essa dependência está presente praticamente o tempo inteiro. Há situações em que um jogador precisa puxar ou segurar alguma coisa enquanto o outro interage com outro elemento do cenário. Em outras, um consegue enxergar informações que simplesmente não aparecem para o parceiro. O tal micro-ondas espacial, por exemplo, é utilizado para manipular elementos que permitem que o outro jogador continue avançando.

Os confrontos contra chefes seguem a mesma ideia. Não existe combate tradicional durante a campanha. Orbitals é essencialmente um jogo de puzzles, exploração e plataforma, reservando a ação direta para determinadas boss fights. Mesmo nelas, cooperação continua sendo a palavra-chave: enquanto alguém abre uma vulnerabilidade ou desativa determinada defesa, o parceiro precisa aproveitar a oportunidade. Quando a nave entra em cena, pilotagem e artilharia ficam separadas entre os dois jogadores. São ideias divertidas e, frequentemente, inteligentes.

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Em Orbitals, enquanto um pilota, outro tem que ajudar! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

O problema está na maneira como algumas delas são comunicadas. Orbitals gosta de entregar uma ferramenta, colocar a dupla dentro de uma sala e basicamente dizer: descubram. Ao chegar perto de algo interativo, um comando contextual indica que algo ali pode ser utilizado. A partir daí, cabe aos jogadores entender o que aquela interação significa, como ela se relaciona com os demais elementos e em qual ordem tudo precisa ser feito.

Em muitos momentos, esse processo gera aquela satisfação de entender a lógica de um quebra-cabeça depois de discutir possibilidades com o parceiro. Em outros, vira tentativa e erro.

Houve puzzles pelos quais passamos praticamente por sorte, sem compreender imediatamente o que havíamos feito de maneira diferente naquela tentativa. A ausência de um sistema mais elaborado de dicas reforça esse comportamento. Não há dificuldade selecionável ou uma opção para simplesmente pular um quebra-cabeça: empacou, converse com seu parceiro e continue experimentando. Curiosamente, isso gera tanto alguns dos melhores quanto alguns dos mais frustrantes momentos de Orbitals.

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Maki estava usando o micro-ondas espacial para controlar uma plataforma. Genial! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Pulo triplo!

A plataforma é outro componente bastante competente. Maki e Omura já contam com boa mobilidade normalmente, incluindo um movimento aéreo que permite avançar pelo cenário depois de saltar. Em determinados momentos, porém, a dupla encontra uma espécie de jetpack que adiciona um pulo triplo.

E sim, pulo triplo merece sua própria seção. É simplesmente muito gostoso de usar. A movimentação fica mais livre e as áreas construídas ao redor dessa mecânica aproveitam bem a verticalidade. Controles respondem corretamente e, embora a câmera tenha me prendido momentaneamente em alguns pontos, ela sempre se recuperou rápido o suficiente para que isso nunca se transformasse em um problema real.

Há inclusive uma sequência mais próxima do fim em que Orbitals começa a exigir sucessivas trocas entre ferramentas adquiridas anteriormente. É um dos melhores momentos justamente porque demonstra como as mecânicas foram acumuladas sem deixar o controle excessivamente complicado.

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Aproveitem o pulo triplo! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Uma nave que vira casa

Entre os episódios, a pequena nave funciona como um hub. É possível circular por ela, interagir com personagens e encontrar criaturas que passam a acompanhar a dupla durante a aventura, incluindo capivaras, o que evidentemente representa uma contribuição importantíssima para a exploração espacial.

Também é ali que ficam alguns dos minigames encontrados em baús durante a campanha. Eles são simples brincadeiras competitivas, mais interessantes pela possibilidade de parar alguns minutos e desafiar o parceiro do que pela profundidade individual. Ainda assim, testamos todos e eles ajudam a tornar a nave um lugar mais vivo do que um mero local para avançar na narrativa.

Depois dos créditos, um capítulo adicional é disponibilizado especificamente para essas atividades, inclusive apresentando minigames que não haviam sido encontrados durante a campanha.

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Claramente fui humilhado pelo Filipe em quase todos os minigames (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Uma história que faz seu trabalho

A narrativa acompanha Maki e Omura em uma comunidade espacial cuja sobrevivência depende da busca por drivers de reatores. Não é uma história particularmente complexa.

E, no começo, demorei um pouco para realmente me importar com a missão. A motivação existe, mas leva algum tempo até que aquela comunidade represente mais do que simplesmente o motivo colocado pelo roteiro para mandar os protagonistas em uma viagem.

Com o avanço dos episódios, isso melhora. Maki e Omura possuem boa química, e a relação entre os dois sustenta as cenas mais leves. O humor funciona especialmente bem graças à combinação entre animação, diálogos e dublagem, e rimos bastante ao longo da campanha.

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Alguns dos caricatos personagens de Orbitals (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Os personagens secundários são menos memoráveis. Alguns aparecem durante um capítulo, cumprem sua função e praticamente deixam a história depois disso. Não senti que faltasse desenvolvimento para que o roteiro funcionasse, mas também não terminei pensando muito sobre boa parte desse elenco.

Existe uma boa reviravolta e o ritmo ajuda bastante. Com pouco mais de seis horas, Orbitals dificilmente permanece tempo suficiente em alguma situação para cansar. Sem entrar nos acontecimentos finais, há também uma mensagem clara sobre autonomia e sobre respeitar a escolha que cada indivíduo faz para si. O jogo não precisa transformar isso em uma discussão filosófica particularmente complexa para que a ideia funcione.

Ainda assim, nunca senti que estava continuando principalmente para descobrir o que aconteceria na história. Queria descobrir qual seria o próximo puzzle. E isso resume bem a relação entre narrativa e gameplay aqui.

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Jaga, o vermelhão! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

A trilha sonora rouba o protagonismo

Se o visual é aquilo que faz Orbitals chamar atenção em screenshots e trailers, foi a trilha sonora que mais permaneceu comigo depois dos créditos. Ela acompanha muito bem as diferentes regiões, sabe crescer quando a aventura exige e, em alguns momentos, consegue capturar exatamente aquela sensação de uma grande sequência de anime.

Há inclusive uma passagem cuja construção melódica imediatamente me fez lembrar de Sea of Stars. Não porque os dois jogos tenham a mesma identidade musical, mas pela maneira como determinados instrumentos e melodias assumem o primeiro plano.

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Imagens que têm sons! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

A presença de Mami Ayukawa na produção musical também faz parte dessa tentativa consciente de recuperar a estética de animes clássicos. Mas o áudio não se destaca sozinho. A dublagem brasileira está excelente.

As vozes combinam com os personagens, a direção soa natural e a localização consegue adaptar piadas sem criar aquela sensação de que estamos ouvindo uma tradução rigidamente presa ao texto original. É um dos casos em que jogar em português não parece ser uma alternativa secundária. É simplesmente uma ótima maneira de jogar.

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Pew pew! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Online funciona como deveria

Minha campanha inteira foi realizada online usando dois Nintendo Switch 2. O GameChat funcionou normalmente, a comunicação permaneceu estável e não encontramos bugs ou falhas técnicas relevantes durante toda a experiência. O jogo também oferece suporte a partidas online com outro proprietário de Orbitals ou através do Passe Amigo Global, disponibilizado gratuitamente, além de GameShare em situações compatíveis.

Naturalmente, acredito que um título com tamanha dependência de comunicação possa ficar ainda melhor com duas pessoas sentadas no mesmo sofá. É mais fácil apontar para a tela, rir de um erro e discutir uma solução imediatamente. Mas não senti que jogar online estivesse oferecendo uma versão inferior por limitações técnicas.

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GG! (Imagem: Captura de Tela/Lucas Soares)

Vale a pena comprar Orbitals?

A resposta depende principalmente de uma condição bastante simples: você tem alguém com quem jogar? Orbitals não tenta contornar sua natureza cooperativa. Não há parceiro controlado por inteligência artificial e praticamente tudo foi construído com a expectativa de que duas pessoas estejam conversando e participando juntas.

Quando essa dupla existe, temos uma aventura muito divertida. Os puzzles são variados, as ferramentas permitem trocar responsabilidades entre os jogadores, as sequências de plataforma funcionam bem e até os poucos confrontos contra chefes preservam a proposta cooperativa em vez de transformarem Orbitals repentinamente em outra coisa.

Nem sempre a lógica desses quebra-cabeças é comunicada tão bem quanto deveria. Tentativa e erro aparece com frequência e algumas soluções podem acontecer antes mesmo de os jogadores entenderem exatamente o que fizeram.

A narrativa também não é o motivo principal para estar aqui. Ela é agradável, possui protagonistas carismáticos, bom humor e uma reviravolta eficiente, mas funciona muito mais como a estrutura que mantém a aventura em movimento do que como sua principal atração.

No fim, são pouco mais de seis horas de um cooperativo extremamente agradável, apresentado como um anime que podemos controlar e acompanhado por uma das melhores trilhas sonoras que ouvi recentemente em um jogo desse tipo. Ele não precisa ser o novo Split Fiction. Ser Orbitals já funciona bastante bem.

Orbitals será lançado exclusivamente para Nintendo Switch 2 em 3 de setembro.

*Review elaborada com códigos fornecidos pela Kepler Interactive.

Orbitals

BRL 169
8.5

História

7.5/10

Gráficos e Sons

9.5/10

Gameplay

9.0/10

Extras

8.0/10

Prós

  • Cooperação realmente fundamental para toda a campanha
  • Ferramentas variadas e responsabilidades intercambiáveis
  • Excelente direção artística inspirada em animes clássicos
  • Trilha sonora é um dos grandes destaques
  • Ótima dublagem em português brasileiro

Contras

  • Campanha relativamente curta
  • História demora a criar peso para sua missão principal
  • Personagens secundários poderiam ser mais marcantes

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.