Card Shark | Review

De tempos em tempos, alguns jogos independentes surgem “do nada” e surpreendem todo mundo, seja com a sua qualidade, com sua arte, roteiro ou mecânicas. E é por isso que eu fico de olho em eventos como o Steam Next Fest, pois nunca se sabe quando irá surgir um novo fenômeno como Hollow Knight ou Loop Hero. E durante a última edição do Steam Next Fest, dois jogos em especial me chamaram a atenção, o primeiro foi Souldiers (que você já pode conferir nossa análise aqui!) e, principalmente, Card Shark.

Card Shark é um daqueles jogos únicos que é difícil até mesmo de explicar como ele funciona, mas vamos lá. Trata-se de um jogo de aventura focado na sua narrativa, com elementos de furtividade, quebra cabeças e investigação, tudo isso em uma temática histórica da França do século XVIII, misturando elementos e personagens históricos com a ficção. Tudo isso no meio de mecânicas de manipulação de cartas inspiradas em técnicas reais.

O jogo foi desenvolvido pela Nerial Studios, time responsável pelo fenômeno Reigns, e está sendo publicado pela Devolver Digital, que convenhamos é sinônimo de qualidade. O desenvolvimento do jogo contou com o apoio de Nicolai Troshinsky, que é um estudioso e entusiasta da arte de manusear as cartas, e Andrea Boccadoro que compôs toda a trilha sonora do título.

Um jogo em que trapacear é mais do que recomendado!

Em Card Shark você assume o papel de um jovem órfão, mudo e sem nome, que trabalha como ajudante em uma taverna de beira de estrada, um individuo que seria facilmente esquecido pela sociedade aristocrata do século XVIII. Um certo dia esse jovem atende um homem que se apresenta como Conde de Saint Germain, que caso você não saiba, é uma das figuras históricas mais misteriosas que existe. Eis que o Conde convida o jovem a auxiliá-lo em seu jogo de cartas, mais especificamente para ajudá-lo a trapacear, espiando as cartas do oponente e passando essa informação para o Conde para ganhar um dinheiro extra.

O plano dos dois da errado e ambos são pegos trapaceando, e no meio da confusão a mulher dona da taverna e cuidadora do jovem acaba sendo assassinada com um tiro. Sua aventura começa sem ter para onde ir e sendo um dos suspeitos da morte da sua cuidadora, e você não vê outra alternativa a não ser seguir o famoso Conde de Saint Germain.

O conde então o leva para um acampamento liderado pela figura do “O Mágico”, uma espécie de guru das artimanhas e da arte de roubar os ricos. Nesse acampamento vivem pessoas a margem da sociedade da época, como deficientes físicos e idosos. Seu objetivo é ganhar dinheiro junto do Conde para ajudar a manter essa comunidade e dar alguma dignidade para essas pessoas.

E é aqui que o jogo começa, o protagonista e o Conde partem em suas aventuras para trapacear os nobres da França, descobrir segredos e conspirações envolvendo a nobreza e a coroa Francesa, enquanto aplicam golpes, truques, mentiras e tentam não morrer no processo. Não quero me estender muito mais na história do jogo e nem nas outras figuras históricas presentes aqui para não estragar a sua experiência de jogo.

Card Shark
Talvez a pior coisa que possa acontecer com você em Card Shark é ser pego no flagra. (Imagem: Divulgação)

Vale destacar que essa ambientação da França pré-revolução francesa é o plano de fundo perfeito para Card Shark, pois nessa época os estudos da probabilidade, da alquimia e do sobrenatural estavam aflorados, tanto que a figura do Conde de Saint Germain é historicamente atrelada a esses mistérios envolvendo o paranormal e a Alquimia. E convenhamos que alguém com o domínio da arte de embaralhar e manipular as cartas a seu favor para moldar o destino seria facilmente confundida com um bruxo, um mago ou, talvez, só como um charlatão mesmo.

Esse pano de fundo histórico é fascinante e, como eu disse, casa muito bem com o roteiro do jogo. Como você vive ao lado do Conde de Saint Germain é absurdamente interessante acompanhar esses bastidores do Conde e imaginar como essa figura histórica atuava e ver que tudo aquilo poderia ser somente charlatanismo ao invés de magias sobrenaturais.

O gameplay

As mecânicas e o gameplay de Card Shark são bastante únicas. O jogo é estruturado em “fases”, que são os locais espalhados pela França, locais esses que você irá até lá jogar cartas e aplicar os seus truques. No caminho para cada uma dessas localidades, você irá aprender uma nova técnica, e não se preocupe em decorá-las, pois você sempre terá um tempo para treiná-la antes da partida de fato, e treinar esses truques é a parte mais importante do jogo, pois você não quer ser pego no flagra.

São 28 truques que você irá aprender ao longo do jogo, e esses truques envolvem coisas diferentes, como técnicas de embaralhamento para favorecer a mão do seu companheiro, ou técnicas para espiar a mão do seu adversário para comunicar com seu parceiro. Todas essas técnicas são basicamente mini games que você deve aprender e aperfeiçoar, seja uma sequência de botões, seja apertar os botões no momento certo ou memorizar as cartas que você viu. Esses quebra cabeças são bastante intuitivos de se aprender, pois o jogo tem uma curva de aprendizado bastante suave que vai te apresentando novas técnicas e mecânicas para ir dificultando o jogo aos poucos.

Card Shark
As técnicas de embaralhamento do jogo podem parecer complexas a primeira vista, mas a forma que o jogo te introduz é bastante intuitiva. (Imagem: Divulgação)

Como eu disse anteriormente, no caminho de cada um dos locais de jogo, você irá aprender uma nova técnica. Entretanto o jogo ocorre de fato na mesa, olhando cara a cara com seus oponentes, e é aqui que Card Shark brilha de fato.

Durante o jogo de cartas, você deve aplicar os truques combinados com seu parceiro de forma quase que perfeita para não ser descoberto, pois os “inimigos” possuem uma “barra de desconfiança”, que aumenta quanto mais você demora para aplicar e preparar os truques, ou quando você erra a técnica de fato. Essa barra funciona como uma balança que você pode gerenciar para facilitar sua noite, em outras palavras o jogo permite que você deixe o seu “inimigo” ganhar para diminuir essa desconfiança dele. Entretanto talvez ganhar dele de forma rápida e eficaz o faça desistir de jogar mais facilmente, basta você gerenciar isso de acordo como seu objetivo.

Como a gente está falando sobre aplicar golpes, é óbvio que durante os jogos você deve apostar dinheiro. Esse dinheiro deve ser muito bem gerenciado, pois é com ele que você fará a aposta mínima para entrar em certos locais, então para apostar em um cassino obviamente o valor de entrada é muito maior que para entrar em uma estalagem qualquer. Em resumo, você deve cuidar desse seu depósito de ouro e gerenciá-lo para hora deixar o seu inimigo ganhar, hora você ganhar e também guardar uma reserva para doar esse dinheiro para o seu acampamento e ajudar aqueles que te ajudaram.

O improviso é outro grande pilar de Card Shark, pois as vezes a situação irá sair do seu controle e você terá que se adaptar a situação. Um exemplo simples, sem entrar em muitos detalhes, mas vamos supor que você preparou um truque em que há três jogadores na mesa, mas na hora um quarto jogador inesperadamente aparece, e é ai que você terá que se adaptar e improvisar, ou quem sabe você é pego no flagra trapaceando e imediatamente terá que contornar a situação para sair vivo do local.

Card Shark
Outro exemplo de truques do jogo, onde você deve espiar as cartas do oponente através do reflexo do cinzeiro na mesa. (Imagem Divulgação)

Falando ainda sobre improvisar, nem sempre o improviso funciona, não é mesmo? Então acho legal comentar que em Card Shark você não irá querer morrer, pois a morte não lhe reserva coisas boas, mas aqueles que dominam a arte da probabilidade, podem mudar o futuro a seu favor e enganar até mesmo aqueles que se dizem impossíveis de enganar.

Ao contrário do que pode parecer, em Card Shark você não joga cartas de fato, o jogo se resume em manipular o baralho e as probabilidades para você ganhar o jogo, então você não precisa saber jogar pôquer por exemplo, pois as regras do jogo de cartas em si não é importante aqui.

Honestamente, eu não quero entrar em mais detalhes sobre o gameplay de Card Shark, pois acredito que boa parte da experiência do jogo é descobrir e ser surpreendido pelo jogo.

O visual de cair o queixo!

Talvez o maior elogio que a arte de um jogo pode receber é que ela parece um quadro, só que Card Shark parece de FATO um quadro. O estilo artístico lembra muito pinturas europeias dos séculos XVII e XVIII, período em que se passa o jogo. E toda essa estética constrói uma imersão e ambientação que é de cair o queixo.

Essa qualidade artística não se aplica só aos visuais do jogo não, a trilha sonora de Card Shark é excepcional, composta inteiramente por Andrea Boccadoro um talentosíssimo músico que já trabalhou em filmes, séries e jogos como Astrologaster. Ao todo o jogo possuí 40 músicas gravadas, e todas elas de excelentíssima qualidade e todas evocam o clima do período histórico que se passa o jogo.

Card Shark
O visual de Card Shark é sem dúvidas um dos seus maiores atrativos (Imagem: Divulgação)

Um jogo para todo mundo!

Card Shark é um jogo relativamente simples, mas o nervosismo e a ansiedade na hora de aplicar os truques é inevitável. Qualquer um ficaria com as mãos suando de nervosismo em uma situação dessas, mas o jogo é bastante amigável e acessível. Card Shark possuí três níveis de dificuldade, que são os clássicos “Fácil”, “Médio” e “Difícil”.

Na prática essa dificuldade não altera em muita coisa, ela afeta mais o nível de desconfiança do alvo e alguns mini games em geral. Essa dificuldade pode ser alterada em qualquer momento do jogo e essa mudança não afeta as conquistas e achievements. E caso você ainda esteja nervoso na frente do seu alvo, você pode pausar o jogo a qualquer momento e ir na aba “Estratégias”, onde você pode ver um resumo de todas as técnicas aprendidas para dar aquela relembrada.

Outro grande fator que facilita ainda mais o jogo é o fato de que você pode treinar quantas vezes quiser um truque antes da partida de fato, isso evita a necessidade de você decorar todas as técnicas do jogo.

Card Shark
A nobreza francesa rapidamente se prova um alvo rentável para suas habilidades. (Imagem: Divulgação)

Vale a pena jogar Card Shark?

Card Shark era um dos meus jogos mais esperados do ano, as expectativas que eu tinha em cima desse jogo eram bastante altas. E posso afirmar que essa barra não só foi atingida, como também ultrapassada. Card Shark é incrível, um dos jogos mais criativos e diferentes que joguei nos últimos anos, com um roteiro que te prende do início ao fim, visuais absurdamente lindos e uma trilha sonora que casa muito bem com o restante da ópera.

Tudo isso sem levar em conta na aula de história que foi jogar esse jogo, visto que eu fui pesquisar o nome dos personagens secundários e encontrei arquitetos, escritores, engenheiros, militares e acadêmicos da época, todos com histórias e trabalhos incríveis. Card Shark foi uma grande surpresa pra mim, e apesar de ser um jogo curto que dura cerca de 7 horas, a experiência de roubar, apostar, trapacear e investigar a nobreza francesa do século XVIII valeu cada segundo.

Card Shark está sendo lançado para PC, via Steam, GOG.com e Epic Games Store, e também para Nintendo Switch.

*Review elaborada em um PC equipado com uma GeForce GTX, com código fornecido pela Devolver Digital.

Card Shark

R$ 49,99
9.4

História

9.0/10

Gameplay

10.0/10

Gráficos

10.0/10

Acessibilidade

8.5/10

Prós

  • Tradução PT-BR
  • Gameplay e Mecânicas
  • Variabilidade
  • História
  • Acessibilidade

Contras

  • O jogo acaba.

Matheus Feldmann

22 anos, estudante de Jogos Digitais, preservador de jogos antigos, amante de jogos em geral, desde os mais competitivos quanto os mais focados em narrativa. Viciado em MMORPGS, fã de Dark Souls e entusiasta de jogos de luta.