People of Note | Review

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Há algo de especial quando um RPG decide sair da zona de conforto sem abandonar suas raízes. People of Note é exatamente esse tipo de experiência: um título que se apoia com firmeza nas bases clássicas do gênero, mas encontra na música sua principal linguagem para se diferenciar. O resultado é um game que, à primeira vista, pode parecer apenas mais um RPG por turnos, mas que rapidamente revela uma personalidade própria, tanto em suas mecânicas quanto na forma como constrói seu mundo.

Ambientado em um universo onde tudo gira em torno da música, o jogo transforma batalhas em performances, equipamentos em instrumentos e conflitos em disputas de talento. É uma ideia que poderia soar apenas estética, mas que aqui ganha consistência ao ser integrada diretamente no gameplay. Ainda assim, como todo projeto ambicioso, nem tudo funciona com a mesma precisão.

Os detalhes dessa aventura eu trago a partir de agora, em mais uma review do Pizza Fria!

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Um JRPG clássico com alma musical

Desde os primeiros momentos, People of Note deixa claro de onde vêm suas inspirações. A estrutura narrativa, a progressão dos personagens e o sistema de combate remetem diretamente a clássicos do gênero, especialmente à franquia Final Fantasy. A sensação de jornada, com capítulos bem definidos e momentos marcantes, reforça essa herança.

No entanto, o diferencial está na forma como o jogo adapta esses elementos ao seu tema central. Aqui, batalhas não envolvem violência tradicional. Em vez disso, tudo é resolvido por meio de disputas musicais. É uma abordagem que lembra a leveza conceitual de experiências modernas, mas que mantém a profundidade estratégica esperada de um RPG por turnos.

O sistema de combate segue uma base tradicional, mas incorpora nuances que o tornam mais dinâmico. Há um senso de ritmo nas ações, como se cada turno fosse parte de uma apresentação. Essa sensação aproxima o game de propostas contemporâneas, como Clair Obscur: Expedition 33, que também buscam dar mais fluidez a combates baseados em turnos.

People of Note
Fret já deu o papo! (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Protagonistas carismáticos que sustentam a jornada

Se a proposta de People of Note funciona tão bem, muito disso passa pela força do seu elenco principal. O jogo entende que, mesmo com uma identidade temática forte, são os personagens que sustentam o envolvimento do jogador ao longo da campanha.

Cadência (sim, assim ficou a localização em português do Brasil) é nossa cantora pop que se destaca como uma protagonista segura e bem construída. Sua presença em cena transmite liderança sem cair em arquétipos exagerados, equilibrando carisma e determinação. Ao longo da jornada, suas motivações são claras, e o desenvolvimento acontece de forma natural, acompanhando o ritmo da narrativa. É o tipo de personagem que conduz a experiência sem forçar protagonismo, ela simplesmente funciona dentro do universo proposto.

People of Note
A trilha sonora do jogo conta com canções originais, que surgem em momentos de cutscenes (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Ao seu lado, Fret, um rockeiro veterano, cumpre um papel essencial como contraponto. A dinâmica entre os dois é um dos pontos mais consistentes da narrativa, trazendo leveza e humanidade para a história. Há uma química evidente na forma como interagem, algo que reforça o sentimento de parceria e evolução conjunta. Esse tipo de relação remete à tradição dos JRPGs, onde duplas ou pequenos grupos são fundamentais para o engajamento emocional do jogador.

A DJ Synthia também tem sua relevância dentro do grupo, contribuindo para a diversidade de personalidades e perspectivas. No entanto, é com o rapper Vox que o jogo apresenta uma pequena limitação estrutural. Apesar de sua introdução ser interessante e alinhada com o tom da narrativa, o tempo reduzido de permanência na equipe impacta diretamente no seu desenvolvimento.

Considerando que a campanha pode ser concluída em cerca de 15 horas, a entrada tardia de Vox faz com que o jogador não tenha espaço suficiente para se conectar plenamente com o personagem. Ele funciona dentro da história, mas carece do mesmo aprofundamento visto nos seus companheiros. Ainda assim, no conjunto, o elenco cumpre bem seu papel. A interação entre os personagens ajuda a reforçar o tom do jogo e contribui para que a jornada se mantenha envolvente do início ao fim.

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Quantas vezes, não é mesmo? (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Combate estratégico com identidade própria

Apesar da estética diferenciada, o coração de People of Note ainda é o combate, e felizmente ele funciona bem. O jogador precisa gerenciar habilidades, escolher ações com cuidado e explorar fraquezas dos adversários, como em qualquer bom RPG.

A diferença está na forma como o jogo contextualiza essas ações. Ataques e habilidades são representados como execuções musicais, criando uma conexão direta entre tema e mecânica. Isso não apenas reforça a identidade do título, como também ajuda a tornar as batalhas mais memoráveis.

Outro ponto interessante é a presença de inimigos com identidade própria, como a boy band Smolder, que aparece em diferentes momentos da campanha. Esses encontros ajudam a construir uma sensação de rivalidade recorrente, algo comum em JRPGs, mas aqui reinterpretado com um toque de humor e estilo.

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Membros da Smolder são desafios constantes no game (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Equipamentos e builds baseados em instrumentos

Um dos aspectos mais criativos de People of Note está no seu sistema de equipamentos. Em vez de armas e armaduras tradicionais, o jogo utiliza instrumentos musicais e acessórios temáticos como base para a progressão dos personagens.

Esses itens não são apenas cosméticos. Eles influenciam diretamente atributos, habilidades e estilos de jogo, permitindo ao jogador experimentar diferentes builds. Há espaço para abordagens mais ofensivas, focadas em dano rápido, assim como estratégias mais defensivas ou de suporte.

Esse sistema traz uma camada adicional de personalização sem tornar o jogo excessivamente complexo. Ele mantém a acessibilidade típica dos RPGs clássicos, mas oferece profundidade suficiente para quem gosta de experimentar combinações.

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O papo foi dado (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Minigames que ampliam a experiência

Para evitar que a estrutura tradicional de exploração e combate se torne repetitiva, People of Note aposta em minigames relacionados à música. Esses momentos funcionam como pausas na narrativa principal e ajudam a diversificar o ritmo da experiência.

As referências são claras. Há atividades que remetem diretamente a jogos de ritmo como Guitar Hero, além de interações que lembram momentos específicos de outros títulos, como o uso de instrumentos em Final Fantasy VII Rebirth.

Embora nem todos os minigames tenham o mesmo nível de profundidade, eles cumprem bem o papel de enriquecer a experiência e reforçar a proposta temática do jogo.

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A troca entre Cadência e Fret é a alma do game (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Localização em português que faz a diferença

Se há um aspecto em que People of Note realmente se destaca, é na localização para o português do Brasil. O trabalho aqui vai muito além da simples tradução de textos.

O jogo incorpora referências culturais que dialogam diretamente com o público brasileiro, incluindo nomes de capítulos, piadas e até menções a bandas icônicas como Mamonas Assassinas. Para quem tem familiaridade com a história musical do país, esses detalhes tornam a experiência ainda mais rica.

Essa abordagem demonstra um cuidado raro, transformando a localização em parte ativa da identidade do jogo. Não se trata apenas de entender o que está sendo dito, mas de sentir que o mundo foi adaptado para conversar com o jogador.

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Muitas palmas para quem localizou People of Note (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Exploração limitada pela ausência de mapa

Nem tudo, porém, acompanha o mesmo nível de acerto. Um dos principais pontos negativos de People of Note está na exploração, especialmente pela ausência de um sistema de mapa mais tradicional.

Em teoria, a proposta pode incentivar uma exploração mais orgânica, levando o jogador a descobrir caminhos por conta própria. Na prática, isso acaba gerando frustração em alguns momentos, principalmente nas cidades, que apresentam múltiplos caminhos e áreas interconectadas.

Sem um mapa claro, encontrar segredos ou até mesmo se orientar pode se tornar um desafio desnecessário. Isso impacta diretamente o ritmo do jogo, quebrando a fluidez da experiência em determinados trechos.

People of Note
Talvez, talvez… (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Referências e identidade visual

Outro aspecto que chama atenção é o cuidado com a estética e as referências. People of Note não esconde suas influências e as incorpora de forma aberta em seu universo.

Há momentos que evocam o exagero e a energia de produções como Dragon Ball Super, além de elementos narrativos que remetem a vilões marcantes de JRPGs clássicos, como de Final Fantasy X. O resultado é um jogo que, embora claramente inspirado em diversas fontes, consegue construir uma identidade própria.

Essa mistura de referências contribui para a sensação de familiaridade, ao mesmo tempo em que mantém o frescor necessário para se destacar.

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Como fã confesso de Dragon Ball, isso me arrancou sorrisos (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Desempenho técnico consistente

No aspecto técnico, People of Note também entrega um resultado sólido. Tanto no Steam Deck quanto no PC, o jogo roda de forma estável, com desempenho consistente e sem oscilações perceptíveis.

Essa estabilidade é importante para um título que depende tanto de ritmo e fluidez, especialmente nas batalhas e nos minigames musicais. A experiência geral se beneficia dessa otimização, garantindo que o jogador possa se concentrar no gameplay sem distrações.

Vale a pena jogar People of Note?

People of Note é um exemplo de como é possível inovar dentro de um gênero tradicional sem perder sua essência. Ao transformar música em linguagem central de gameplay, o jogo constrói uma identidade marcante, sustentada por um combate sólido, um sistema de progressão criativo e uma localização excepcional para o público brasileiro.

Por outro lado, a ausência de um sistema de mapa mais estruturado compromete a exploração em alguns momentos, impedindo que o jogo atinja todo o seu potencial. Ainda assim, os acertos superam os tropeços.

Para fãs de RPGs por turnos, especialmente aqueles que apreciam experiências com personalidade e boas referências, trata-se de uma jornada que vale a pena ser vivida.

People of Note já está disponível para PC, via Steam e Epic Games StorePlayStation 5Xbox Series X|S, Windows e Nintendo Switch 2.

*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela Annapurna Interactive.

People of Note

BRL 74,99
8.1

História

8.0/10

Gráficos e Sons

8.5/10

Gameplay

8.5/10

Extras

7.5/10

Prós

  • Combate por turnos com identidade própria e boa fluidez
  • Sistema de equipamentos criativo baseado em instrumentos musicais
  • Excelente localização em português do Brasil, com referências culturais bem adaptadas
  • Protagonistas carismáticos, com destaque para Cadência e Fret

Contras

  • Ausência de mapa prejudica a exploração, principalmente em cidades
  • Desenvolvimento limitado de alguns personagens, como Vox

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.