Simulador de Escravidão: “entretenimento” para quem?

Nesta última quarta-feira, 24, todo mundo foi (ou pelo menos deveria) surpreendido com a notícia de que um Simulador de Escravidão foi removido da Google Store, plataforma de aplicativos do Google. Contudo, antes que eu comece a falar mais sobre o assunto, gostaria de ressaltar o meu espanto com o “simples” fato de que havia um jogo, que simulava uma das maiores máculas da humanidade, em uma plataforma digital aberta para o mundo todo. Pior ainda, tinha uma série de comentários (a maior parte positivos) de jogadores sobre aspectos como jogabilidade e pontos a serem aprimorados. Assustador.

Felizmente, como é possível de se perceber no tweet acima, o deputado Orlando Silva, do PCdoB de SP, informou que vai entrar com uma representação no Ministério Público por crime de racismo. E, de fato, se enquadra não só como racismo, mas como desconhecimento histórico, falta de empatia, noção… É uma verdadeira piada de mau gosto ter de discutir isso na atualidade. Como professor de História, sinto-me ainda mais chocado, pois este é um assunto costumeiramente discutido por nós para se apresentar o Brasil contemporâneo.

Sintetizando, segundo nossa Constituição Federal de 1988, em seu Art. 3, inciso XLI, que “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. E, no Art. 5º, inciso XLI, que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”. Assim, o caro leitor ou leitora fica à par de que tal questão pode sim ser enquadrada como racismo.

O tal simulador

Procurando saber mais sobre o tal aplicativo, feito por uma tal Magnus Games, ele permitia aos usuários, que simulavam ser senhores de escravizados, comprassem, vendessem e até mesmo agredissem e torturassem os personagens do jogo. Surpreendentemente, ele já havia batido a marca de 1000 downloads e contava com 70 avaliações. E, bem, a noção passou longe desse pessoal que, não bastasse instalar o aplicativo e utiliza-lo, ainda colocavam seus nomes em comentários avaliativos.

E, como se não bastasse a compra, venda e violência, você poderia escolher a ideia de jogar em duas modalidades, sendo um tirano ou um “libertador”. Na primeira delas, o objetivo e lucrar e impedir fugas e rebeliões (e a gente sabe bem como era a ideia de reprimir escravizados, certo?). Na segunda, o objetivo era lutar pela liberdade, nos levando ao processo de abolição. Sinceramente, não havia ninguém para explicar para esses desenvolvedores o problema que tinha por trás disso tudo? Eu sinceramente fico querendo crer que é um clickbait, pois é inacreditável a ideia de se “gamificar” e “simular” tal questão. E nem a proposta de “libertar” salva o game disso.

simulador de escravidão
Imagem: Reprodução

E, segundo a produtora do game, o aplicativo “foi criado para fins de entretenimento”, mas condena a escravidão no mundo real. Ora, e o que há de “entretenimento” em meio a tortura, violência e praticar virtualmente práticas de escravidão? Se a empresa propriamente condenasse tal ponto, jamais criaria algo deste tipo. Existem sim formas de utilizar questões históricas como forma de entretenimento (e também aprendizado, vale ressaltar), mas não em casos de violação dos direitos humanos e de um problema que marca o Brasil, de sua colonização até os dias atuais. Ou você, caro leitor ou leitora, acha que o preconceito racial, a desigualdade socioeconômica e política é um mero acaso nacional?

Um breve histórico da escravidão

Eu poderia ficar aqui escrevendo por horas e horas sobre um tema que já rendeu milhares de livros e análises sócio-históricas, mas apenas explicarei o que deveria ser tido como o óbvio: o Brasil de hoje, que ainda conta com trabalhos escravos e análogos à escravidão, é fruto deste enorme problema, que desde o século XVI, ainda uma colônia portuguesa, cresceu através do tráficos de milhares de pessoas pelo oceano Atlântico que, com alguma chance, chegavam aqui vivas para serem escravizadas.

E, ao contrário do que se acredita, o processo de abolição no Brasil, ocorrido em 1888 (de forma bem atrasada), não sanou a questão da escravidão. O tráfico e a exploração seguiram por alguns anos em lugares interiorizados, onde era mais fácil poder desviar dos olhares de algumas autoridades que pudessem se importar com isso. Digo isso, pois a abolição brasileira não absorveu a mão de obra negra, inclusive trazendo imigrantes europeus para ocuparem tais postos. Mas esse interesse em “europeizar” o Brasil também tinha um plano nefasto: a ideia de “embranquecer” a sociedade através da miscigenação, algo que, no século XX, foi adaptado também por um tal de Hitler.

E, desta forma, a situação social e econômica do negro no Brasil está diretamente ligada a este “entretenimento” que estava disponível no Google, sendo nosso país extremamente desigual e racista justamente por conta do histórico da escravidão e toda a mancha deixada no pensamento social brasileiro. E não adianta dizer que é um exagero, existe uma gama enorme de dados que podem ser apresentados e interpretados que nos levam a isso. Contudo, minha ideia aqui é a de apenas apresentar o que, como eu já disse, deveria ser visto como o óbvio. Mas faltam aulas de História, noção e empatia.

E o que fazer?

O tal assunto borbulhou nas redes sociais apenas nesta quarta-feira, causando um alvoroço no Twitter, rede que sempre traz esse tipo de informação, muito mais rapidamente até do que nós, do jornalismo de games e em geral. E, ao me deparar com tal situação, tornou-se impossível não tecer algumas palavras sobre. Sendo professor e lidando diretamente com esse tipo de questão, em sala de aula e fora dela, me sinto na obrigação de explicar que nós, enquanto sociedade, temos muito a fazer. E você não necessariamente precisa ser professor, especialista ou algo do gênero.

Observar acontecimentos absurdos como esse e se posicionar diante deles já é algo. Mais do que isso, buscar entender aspectos de nossa história e compreender o motivo pelos quais negros e minorias lutam tanto no nosso país é um ato de inteligência e empatia com a causa do próximo, coisas que estão totalmente em falta em nosso país.

Em suma, o que podemos fazer, pelo menos por agora é, não deixar esse tipo de coisa passar impune ou batida, não comentando ou a julgando como mera frivolidade e sim, encher as redes de debates, mostrando a lógica por trás de tudo isso. Lembrando que os games são uma plataforma rica de conteúdo e até mesmo aprendizado, mas é preocupante ver que pessoas e desenvolvedores observem este simulador de escravidão como apenas entretenimento. Pior ainda é ver nosso mercado deixar esse tipo de conteúdo ser apresentado livremente, entrando naquele prisma turvo dos defensores da “liberdade de expressão”. Precisamos estar, mais do que nunca, vigilantes a esses tipos de “entretenimento”.

Toda e qualquer forma de preconceito jamais deve ser considerada, em hipótese alguma, como mera forma de entretenimento. Os jogos, que também são arte, podem e contam com uma série de papéis positivos na sociedade. Todavia, assim como qualquer forma artística, precisam ser pensados, analisados e o mais importante, problematizados. Só assim nos tornaremos mais independentes das amarras da indústria cultural. E, respondendo a resposta do título de uma maneira bem simples, isto não é entretenimento para ninguém, apenas proliferando mais e mais a mancha da escravidão e do racismo brasileiro, visto por alguns como mera piada.

Álvaro Saluan

Historiador e cientista social de formação, é completamente apaixonado por videogames e escreve sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte.