Advent: Dawn | Review
Advent: Dawn é uma visual novel de mistério que apresenta a jornada de um grupo de personagens que precisa sobreviver em uma caverna após um estranho desabamento. Entretanto, fazendo jus ao gênero, a narrativa promete diversas reviravoltas ao longo de uma jornada intensa do começo ao fim. Sou um grande fã desse tipo de mistério, especialmente no caso de Advent: Dawn, cuja história incorpora diversos elementos de ficção científica à sua trama principal.
Com a promessa de uma aventura marcante, será que o novo título desenvolvido pela Spire Games consegue entregar uma experiência realmente impactante? Confira agora em mais uma review do Pizza Fria!
Uma excelente trama de mistério
O aspecto mais forte de Advent: Dawn é, sem dúvida, a forma como o jogo estabelece os principais mistérios da trama e mantém o jogador intrigado sobre o que realmente está acontecendo do começo ao fim. O game faz isso muito bem logo no início, ao apresentar um grande acontecimento impactante que vai sendo desvendado aos poucos ao longo da narrativa. Nem todas as peças do quebra-cabeça são entregues de imediato, cabendo ao jogador juntar boa parte delas por conta própria.
Também me agradou bastante a maneira como Advent: Dawn utiliza, de forma criativa, elementos de ficção científica. A narrativa aborda temas como controle governamental, dominação por inteligência artificial e até mesmo questões relacionadas à censura e às consequências das guerras. Esse foi um dos aspectos que mais me surpreendeu, justamente por trazer discussões que eu não esperava encontrar e que acabaram enriquecendo bastante a experiência.

Outra grande surpresa é a forma como Advent: Dawn conta sua história explorando intensamente o aspecto visual, principalmente nas cenas em que acontecimentos do passado são apresentados. Em muitas visual novels, é comum que a construção do mundo aconteça por meio de longos blocos de texto, deixando o elemento visual em segundo plano. Felizmente, esse não é o caso aqui. O jogo faz bom uso de seus recursos visuais para complementar a narrativa, tornando a exposição mais dinâmica e envolvente.
Minha única crítica em relação à narrativa é que, por se tratar de uma aventura que dura cerca de 12 a 16 horas, um tempo relativamente curto para jogos desse gênero, alguns acontecimentos acabam parecendo apressados. Isso fica especialmente evidente na reta final, quando tive a impressão de que determinados eventos poderiam ter recebido um desenvolvimento maior.

Além disso, alguns elementos da trama possuem ligação direta com um jogo anterior do estúdio, e senti que Advent: Dawn poderia contextualizar melhor essas conexões. É possível que a intenção tenha sido despertar a curiosidade dos jogadores para conhecer a obra anterior e, nesse sentido, a estratégia funcionou, já que me fez comprá-la para jogá-la em breve. Ainda assim, acredito que essas referências poderiam ter sido mais bem desenvolvidas dentro da própria narrativa, sem depender tanto do conhecimento prévio de outro título.
Os personagens poderiam ter sido melhor desenvolvidos
A premissa principal de Advent: Dawn acompanha um grupo de pessoas que acaba preso em uma caverna onde uma pesquisa secreta estava sendo conduzida. O protagonista da história é Atlas, um pesquisador recrutado por ser um profissional renomado em sua área de atuação. Seguindo a estrutura tradicional das visual novels, o jogo apresenta diversas rotas, nas quais conhecemos melhor os personagens e fazemos escolhas que impactam diretamente o desenrolar da trama.
Os personagens de Advent: Dawn, no entanto, são bastante inconsistentes, e esse foi o aspecto que mais me decepcionou. Começando pelo próprio Atlas, ele é um protagonista com pouca personalidade e, em diversos momentos, acaba sendo tedioso de acompanhar. O que torna sua presença mais interessante é justamente o contraste com personagens de temperamentos completamente opostos. O melhor exemplo disso é a rota de Kimika, uma garota extremamente animada e otimista, cuja personalidade entra em choque com a postura mais séria e metódica de Atlas.

Essa é, com folga, a minha rota favorita de Advent: Dawn, justamente porque é interessante acompanhar a dinâmica entre os dois personagens e descobrir mais sobre o passado de cada um, criando até mesmo paralelos inesperados entre suas histórias. O grande problema é que nenhuma das outras rotas, com exceção da rota final, consegue manter o mesmo nível.
Em vez disso, elas acabam optando por caminhos narrativos bem menos envolventes. Algumas funcionam quase como um enorme lore dump, enquanto outras se resumem a diálogos que pouco acrescentam à história. Há conversas inteiras dedicadas a imaginar o que os personagens fariam se não estivessem presos na caverna ou simplesmente recapitulando acontecimentos já conhecidos pelo jogador, sem trazer novas informações ou perspectivas.

O que mais me incomodou em Advent: Dawn foi a forma como o jogo insiste nesse tipo de diálogo sob o pretexto de mostrar os personagens refletindo sobre os acontecimentos. Na prática, porém, essas discussões raramente chegam a conclusões realmente inteligentes ou inesperadas, fazendo com que o jogador precise apenas esperar até que a própria narrativa decida revelar as respostas. Entendo que preservar certos mistérios seja importante para manter o suspense, mas Advent: Dawn recorre a esse recurso com frequência excessiva. Em vários momentos, fica evidente que esses diálogos existem apenas para prolongar a narrativa, sem promover um avanço significativo na história, o que acaba se tornando um dos seus principais problemas.
O sistema de rotas é intuitivo
Outro fator que me agradou em Advent: Dawn é o quão intuitivo é o sistema de rotas. O jogo disponibiliza um mapa que permite revisitar escolhas anteriores da história sempre que desejarmos, facilitando a exploração dos diferentes caminhos da narrativa. É verdade que algumas rotas permanecem bloqueadas no início e só podem ser acessadas após a conclusão de outras, mas, ainda assim, o título deixa muito claro quais são os próximos passos que o jogador deve seguir, tornando a progressão bastante intuitiva.

Falando em rotas, outro elemento presente em cada uma delas são os puzzles. Infelizmente, esse também foi um aspecto que me decepcionou. Além de existirem em quantidade reduzida, os desafios são extremamente simples e oferecem pouca variedade. A maior parte deles consiste apenas em inserir a combinação correta de símbolos para desbloquear arquivos em um computador, enquanto o quebra-cabeça mais diferente do jogo envolve encontrar a direção correta para escapar de um labirinto.
É uma pena que Advent: Dawn tenha desperdiçado esse potencial, principalmente porque uma história focada em mistério poderia se beneficiar muito de quebra-cabeças mais elaborados e de mecânicas de investigação mais profundas. A inclusão de desafios que exigissem dedução teriam encaixado muito bem na trama.
Gráficos e trilha sonora
Advent: Dawn adota um visual em estilo anime, bem característico das visual novels, e faz um bom trabalho na maior parte do tempo. Alguns dos cenários, especialmente os iniciais, possuem poucos detalhes e poderiam ter recebido um cuidado maior. No entanto, o jogo compensa essa limitação ao longo da campanha, apresentando ambientes mais variados, mesmo que a aventura aconteça quase inteiramente dentro de uma caverna. Além disso, o design dos personagens é bastante competente, o que já era esperado, considerando que o elenco é relativamente pequeno.
Em relação à dublagem, o jogo também entrega um bom resultado nos momentos em que ela está presente, reservando as vozes para as cenas mais importantes da narrativa. Acredito que essa tenha sido uma decisão motivada por limitações de orçamento, mas a estratégia funciona bem e garante maior impacto aos momentos-chave da história. Por outro lado, nem tudo são acertos. Infelizmente, Advent: Dawn não conta com dublagem nem legendas em português do Brasil, o que dificulta bastante o acompanhamento da trama para quem não domina o inglês.

Já a trilha sonora foi um dos aspectos que mais me surpreendeu positivamente. Durante boa parte da experiência, o jogo utiliza composições mais suaves para acompanhar os momentos de conversa e reflexão entre os personagens, reservando suas melhores faixas para as cenas de maior tensão e impacto. O repertório não é muito extenso, mas a qualidade das músicas compensa essa limitação, contribuindo significativamente para a atmosfera e elevando os momentos mais importantes da narrativa.
Desempenho
Minha experiencia foi um PC equipado com uma RTX 5060 TI de 16 GB. O game por ser um visual novel é bem leve rodando em “bem modestos” 600 FPS na maior parte do tempo. Além disso, não tive problemas envolvendo bugs ou travamentos.
Vale a pena jogar Advent: Dawn?
Advent: Dawn é um excelente visual novel de mistério que apresenta uma trama principal envolvente e capaz de manter o jogador intrigado do começo ao fim. Esse é, sem dúvida, o seu maior mérito. Gostei tanto da narrativa que terminei a aventura com uma impressão bastante positiva, apesar dos problemas relacionados ao desenvolvimento inconsistente de parte do elenco e da pouca variedade apresentada pelos puzzles.
No fim das contas, acredito que o maior ponto negativo de Advent: Dawn seja o fato de ele demonstrar um potencial muito maior do que realmente entrega. Com personagens mais bem desenvolvidos e mecânicas de investigação mais elaboradas, o jogo poderia proporcionar uma experiência ainda mais memorável, permitindo que o jogador participasse de forma mais ativa da resolução dos mistérios da trama.
Ainda assim, Advent: Dawn é uma recomendação fácil para os fãs de visual novels e de histórias focadas em mistério. Mesmo sem alcançar todo o seu potencial, o título acerta justamente no elemento mais importante desse tipo de experiência, entregando uma narrativa envolvente e repleta de reviravoltas.
Advent: Dawn foi desenvolvido pela Spire Games e lançado no dia 20 de julho para PC, Linux e MacOS, via Steam.
*Review elaborada em um PC equipado com uma Geforce RTX, com código fornecido pela Spire Games.




