Aphelion | Review
Há algo curioso em Aphelion logo nos primeiros momentos: ele parece querer ser várias coisas ao mesmo tempo, mas demora a deixar claro exatamente o que pretende entregar. Desenvolvido pela DON’T NOD, estúdio responsável pelo primeiro Life is Strange, o título aposta em uma ficção científica mais “pé no chão”, ambientada em um planeta distante onde dois astronautas tentam sobreviver e se reencontrar após um acidente.
A premissa é interessante, especialmente considerando o histórico do estúdio com narrativas mais intimistas, mas a execução, inclusive técnica, levanta alguns questionamentos ao longo da jornada. Quer saber os detalhes de Aphelion? Vem comigo em mais uma review antecipada do Pizza Fria!
Narrativa e proposta de Aphelion
Como esperado de um título da DON’T NOD, a narrativa ocupa um papel central. A história acompanha dois astronautas, Ariane e Thomas, tentando sobreviver e se reencontrar após um acidente em Persephone, um planeta distante que é apontado como a última esperança de vida humana.
A proposta de alternar perspectivas e explorar a relação entre os personagens funciona como base emocional da experiência. Ainda que o jogo demore a desenvolver isso de forma mais aprofundada, há uma intenção clara de construir algo mais intimista dentro de um cenário grandioso. No entanto, o ritmo narrativo inicial é arrastado, acompanhando o próprio estilo de gameplay, que falarei mais abaixo.

Entre sobrevivência e walking simulator
No que diz respeito à jogabilidade, Aphelion funciona de forma bastante simples. Nos primeiros momentos de ambos os personagens, o título se apresenta quase como um jogo de sobrevivência, mas rapidamente revela uma estrutura mais próxima de um walking simulator com elementos leves de puzzle e plataforma.
A progressão gira em torno de avançar por cenários lineares, superar pequenos desafios ambientais e interagir com o espaço ao redor. Não há nenhum combate direto em toda a história, o que reforça a proposta mais focada em exploração e narrativa.
No entanto, essa abordagem acaba sendo um pouco limitada. Os desafios apresentados são, em sua maioria, simples e previsíveis. A sensação é de que o jogo evita qualquer tipo de complexidade mais aprofundada, o que pode agradar jogadores que buscam uma proposta mais guiada, mas tende a afastar quem espera um envolvimento mecânico maior.

Plataforma constante e repetitiva
Um dos pilares do gameplay está nos momentos de travessia. Seja escalar superfícies, se equilibrar em estruturas instáveis e avançar por caminhos estreitos são ações recorrentes ao longo da experiência.
Esses momentos lembram, em certa medida, jogos como Uncharted, especialmente no uso de escaladas e movimentação por beiradas. No entanto, aqui tudo acontece de forma mais simplificada e, em alguns casos, até automatizada. O próprio jogo oferece opções para facilitar essas ações, reduzindo ainda mais o envolvimento do jogador.
O problema não está necessariamente na simplicidade, mas na repetição. A mecânica de manter o equilíbrio em beiradas, por exemplo, exige pressionar um botão específico, algo que se repete com tanta frequência que acaba se tornando cansativo. Com o tempo, esses momentos deixam de ser desafiadores e passam a parecer apenas uma etapa obrigatória para avançar, sem grande impacto geral. Confesso que, após algumas horas, foi muito mais confortável simplesmente ativar a opção de movimentação automática.

Stealth e o Nêmesis: tensão limitada
Outro elemento importante é a presença do Nêmesis, uma criatura que habita o planeta Persephone e funciona como a principal ameaça do jogo. A ideia é interessante: trata-se de um inimigo que não enxerga, mas reage a sons, criando situações de stealth baseadas em manipulação do ambiente.
Na prática, porém, a execução gera sensações mistas.
Por um lado, há momentos em que o jogador precisa utilizar campos eletromagnéticos para distrair a criatura, criando rotas seguras de passagem. Por outro, o comportamento do Nêmesis levanta algumas inconsistências. Em diversas situações, é possível passar relativamente perto dele sem ser detectado, desde que não haja ruído, o que reduz bastante a sensação de perigo.

Além disso, há uma impressão recorrente de que o inimigo “aparece” estrategicamente sempre próximo aos objetivos, quase como se estivesse sendo reposicionado para manter a tensão. Isso pode gerar dúvidas sobre a lógica do sistema: existe apenas um Nêmesis ou múltiplas entidades? A resposta para isso vem ao fim da experiência, mas a forma como essa ameaça é construída não me convenceu.
No fim das contas, o stealth existe, mas dificilmente atinge um nível de tensão mais marcante.
Movimentação e sensação de controle
A movimentação da protagonista Ariane, que concentra boa parte das ações mais dinâmicas, também apresenta alguns pontos questionáveis. Considerando que o jogo se passa em um planeta com características próprias, é possível interpretar certas escolhas como parte da ambientação, especialmente em relação à gravidade.
Ainda assim, a sensação de controle nem sempre é consistente. Saltos, deslocamentos e interações com o cenário podem parecer um pouco imprecisos em determinados momentos, o que impacta diretamente a fluidez das sequências de plataforma.

Não chega a comprometer completamente o gameplay , mas é mais um elemento que contribui para a percepção de que o gameplay não é o foco principal do título.
Aphelion traz linearidade e baixa exigência
Outro aspecto que se torna evidente com o tempo é o nível de linearidade. Aphelion conduz o jogador de forma bastante direta, com caminhos bem definidos e pouca possibilidade de exploração mais livre, tirando alguns colecionáveis.
Os desafios seguem uma lógica clara e dificilmente exigem mais do que uma observação básica do ambiente. Isso faz com que o jogo seja acessível, mas também reduz o senso de descoberta e conquista.
Mesmo os elementos adicionais, como coletáveis, não são suficientes para expandir significativamente a experiência. Tudo funciona dentro de um escopo controlado, sem grandes variações.

Visual e ambientação
Se por um lado o gameplay levanta algumas ressalvas, o aspecto visual é um dos pontos mais consistentes de Aphelion. O planeta Persephone é retratado com cenários amplos, gelados e visualmente interessantes, contribuindo para a atmosfera de isolamento proposta pelo jogo.
A direção de arte ajuda a construir esse ambiente hostil, reforçando a ideia de um mundo desconhecido e pouco acolhedor. Mesmo com os problemas de desempenho, há momentos em que o visual se destaca, especialmente em áreas abertas e paisagens mais amplas.

A localização em português também merece destaque. O trabalho de adaptação está bem feito e contribui para tornar o título mais acessível ao público brasileiro.
Desempenho inconsistente compromete a experiência
Eu falei acima sobre os problemas de desempenho, e é preciso falar deles com mais clareza. Mesmo rodando em uma configuração robusta, com uma RTX 5070, Aphelion apresenta oscilações de desempenho perceptíveis. Em 4K, utilizando as configurações sugeridas pelo próprio jogo e com DLSS 4.0 ativado no modo Qualidade, o título não consegue manter uma estabilidade consistente, com quedas de FPS frequentes em momentos variados.
Não se trata de um problema isolado em cenas específicas ou carregamentos pontuais. As quedas aparecem durante exploração, movimentação e até em momentos mais tranquilos, o que acaba gerando uma sensação constante de instabilidade. Em um jogo que depende bastante da imersão e do ritmo narrativo, esse tipo de comportamento técnico interfere mais do que deveria.
Apesar de não tornar o jogo injogável, é um aspecto que chama atenção, principalmente considerando o tipo de experiência mais contemplativa que o game propõe.

Vale a pena jogar Aphelion?
Aphelion é um jogo que aposta em atmosfera, narrativa e ambientação para conduzir sua jornada, mas acaba deixando o gameplay em segundo plano. A combinação de exploração linear, desafios simples e mecânicas repetitivas faz com que o envolvimento do jogador varie bastante ao longo da jornada.
Os problemas técnicos, especialmente relacionados ao desempenho, também impactam a imersão e não passam despercebidos, mesmo em configurações mais avançadas.
Ainda assim, há elementos interessantes, principalmente na construção do mundo e na proposta narrativa. Para quem busca uma experiência mais guiada, com foco em ambientação e história, o título pode encontrar seu público.
Por outro lado, jogadores que esperam maior profundidade mecânica ou desafios mais consistentes podem sentir que Aphelion fica aquém do potencial sugerido por sua premissa.
Aphelion chega nesta terça-feira, 28 de abril, para PC, via Steam, Xbox Series X|S e PlayStation 5. O game também é compatível com o programa Xbox Play Anywhere e estreia no catálogo do Game Pass no dia do lançamento.
*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela DON’T NOD.
Aphelion
BRL 119,95Prós
- Ambientação sci-fi bem construída e coerente
- Boa direção de arte, com cenários interessantes
- Proposta narrativa com potencial emocional
- Localização em português bem executada
- Acessível para jogadores que buscam experiência mais guiada
Contras
- Desempenho inconsistente, mesmo em hardware avançado
- Gameplay repetitivo e com pouca profundidade
- Baixo nível de desafio ao longo da jornada



