Deer & Boy | Review

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Existem jogos que passam horas explicando sua história. Outros apostam em diálogos extensos, cenas cinematográficas e documentos espalhados pelos cenários para garantir que o jogador compreenda cada detalhe da narrativa. Deer & Boy segue pelo caminho oposto. Durante toda a aventura, a LifeLine Games abre mão das palavras e confia exclusivamente na força de suas imagens, sons e emoções para contar sua história.

Confesso que gosto bastante quando os jogos se permitem fazer isso. Afinal, poucas mídias conseguem unir narrativa, arte visual, interação e ambientação sonora da forma como os games fazem. E, em vários momentos, Deer & Boy me lembrou justamente disso: que videogames também podem ser arte.

A proposta pode parecer simples à primeira vista, mas existe uma sensibilidade interessante na forma como a jornada é construída. Sem recorrer a diálogos ou textos explicativos, o título nos convida a observar, interpretar e sentir. Nem sempre tudo funciona perfeitamente, especialmente quando os puzzles entram em cena, mas é difícil negar que existe algo especial na experiência criada pelo estúdio francês. Os detalhes dessa história eu trago agora, em mais uma análise antecipada do Pizza Fria!

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História sem precisar dizer uma palavra

Em Deer & Boy, acompanhamos um garoto que fugiu de casa por motivos que inicialmente não conhecemos. Sozinho em uma jornada por ambientes naturais e urbanos, ele acaba encontrando um filhote de cervo que posteriormente sofre uma tragédia. Após presenciar a morte da própria mãe pelas mãos de caçadores, o animal também acaba ferido, ficando impossibilitado de andar.

A partir desse momento, as vidas dos dois personagens passam a caminhar juntas.

O interessante é que Deer & Boy praticamente não utiliza palavras para desenvolver essa relação. Não há diálogos durante a aventura e tampouco textos explicando o que os protagonistas estão sentindo. Tudo é transmitido por meio da linguagem visual, das animações e da ambientação.

Deer & Boy
Por que o garoto fugiu de casa? (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Pode parecer uma escolha arriscada, mas ela funciona muito bem na maior parte do tempo. Conforme avançamos pelos cenários, começamos a entender melhor a relação entre os dois personagens apenas observando suas interações. O garoto passa a carregar o cervo filhote em uma mochila nas costas, protegendo-o durante parte da jornada, enquanto o animal gradualmente desenvolve confiança em seu novo companheiro.

Existe uma carga emocional constante durante toda a campanha. Mesmo sem dizer uma única palavra, o jogo consegue transmitir sentimentos como medo, tristeza, esperança e companheirismo. É uma narrativa que exige participação do jogador para preencher algumas lacunas, mas que recompensa quem embarca na proposta.

Deer & Boy
Começa a aventura! (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Gameplay que mistura exploração, furtividade e puzzles

Em termos de gameplay, Deer & Boy é uma aventura em 2.5D focada principalmente em exploração, progressão narrativa e resolução de quebra-cabeças. Existem também alguns momentos de furtividade nos quais precisamos evitar inimigos e situações de perigo, mas não há qualquer tipo de combate ao longo da campanha.

Como disse acima, o cervo se junta ao garoto ferido, e precisa ser carregado pelo protagonista em uma mochila. Essa mecânica influencia diretamente a forma como exploramos os cenários. Enquanto está carregando o animal, o garoto não consegue pular. Isso faz com que vários puzzles sejam construídos em torno da necessidade de deixar a mochila em um local seguro, avançar sozinho para resolver o obstáculo e depois retornar para buscar o companheiro. É uma ideia simples, mas que funciona bem e ajuda a reforçar a conexão entre os protagonistas.

Deer & Boy
Momentos antes da desgraça acontecer (Imagem: Reprodução/Steam Deck/Lucas Soares)

Conforme a aventura avança, a dinâmica passa por mudanças interessantes. Sem entrar em spoilers, o cervo ganha novas possibilidades de interação e passa a participar de forma mais ativa na resolução dos desafios. O que antes era uma relação de proteção se transforma gradualmente em uma parceria, trazendo variedade para o gameplay e impedindo que as mecânicas se tornem repetitivas rapidamente.

Outro elemento importante da jornada é a presença de uma matéria escura, uma força misteriosa que altera ambientes, cria obstáculos e introduz novas ameaças. Sua presença ajuda a diversificar os desafios e adiciona novas camadas aos puzzles encontrados pelo caminho.

Apesar das boas ideias, foi justamente aqui que encontrei meu principal problema com o jogo. Entendo perfeitamente a proposta dos desenvolvedores de criar uma experiência cinematográfica e imersiva. A interface praticamente não existe durante a maior parte da aventura. Não há marcadores de objetivo, minimapa, indicadores visuais ou qualquer outro elemento tradicional de HUD ocupando espaço na tela.

Deer & Boy
Observar o cenário é fundamental para avançar em Deer & Boy (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

O problema é que essa decisão cobra um preço. Especialmente da metade para frente, vários puzzles apresentam soluções pouco intuitivas. Em diversos momentos eu simplesmente não sabia qual era o próximo passo necessário para avançar. Não porque os desafios fossem impossíveis, mas porque o jogo nem sempre comunica suas ideias de forma clara.

Em vez daquela sensação de satisfação ao resolver um quebra-cabeça, alguns trechos acabam recorrendo à tentativa e erro. Eventualmente a solução aparece e a progressão continua, mas existe uma diferença entre desafiar o jogador e deixá-lo perdido. Em determinados momentos, Deer & Boy claramente opta pela segunda opção, o que é uma pena.

Talvez um sistema adicional e opcional de dicas ou orientação pudesse ajudar bastante sem comprometer a proposta original da experiência.

Um audiovisual que fala mais que os diálogos

Se existe um aspecto em que Deer & Boy realmente se destaca, é na sua apresentação audiovisual. A direção artística possui uma identidade muito própria e trabalha constantemente para reforçar o tom melancólico da narrativa. Os cenários ajudam a contar a história sem depender de palavras, enquanto a animação dos personagens transmite emoções de forma bastante eficiente.

A ausência quase completa de HUD também contribui para a imersão. Durante a maior parte da aventura, nada interfere na composição visual das cenas. Em momentos específicos, o jogo exibe alguns comandos contextuais para ensinar mecânicas ou indicar ações, mas isso acontece de forma extremamente pontual. No restante do tempo, a tela permanece limpa, reforçando a sensação cinematográfica proposta pelos desenvolvedores.

O áudio merece um destaque especial. Como não existem diálogos, a ambientação sonora assume uma responsabilidade enorme dentro da experiência. Sons da natureza, ruídos ambientais e as vocalizações do garoto e do cervo acabam funcionando como uma forma de comunicação entre os personagens e o jogador. Vale destacar que, apesar da ausência de diálogos e textos durante a aventura, os menus e créditos contam com localização para o português do Brasil, facilitando a navegação para jogadores brasileiros.

Deer & Boy
O visual de Deer & Boy separa cenários belíssimos (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Não é um jogo que depende de uma trilha sonora constante para criar emoção. Na verdade, boa parte do seu impacto vem justamente da ambientação. O silêncio, quando utilizado, tem tanto peso quanto os sons presentes nos cenários.

No aspecto técnico, minha experiência foi bastante positiva. Joguei a maior parte da campanha no PC, em resolução 4K e configurações gráficas elevadas, mantendo 120 FPS estáveis durante toda a jornada. Não encontrei problemas relevantes de desempenho ou estabilidade.

Também realizei testes no Steam Deck. O desempenho continuou satisfatório, mas existe uma ressalva importante. Apesar do selo de compatibilidade da Valve, alguns elementos interativos acabam ficando pequenos demais na tela portátil. A título de comparação, como também joguei em telas maiores, a diferença ficou bastante evidente. Não chega a comprometer a experiência, mas determinados detalhes visuais são muito mais fáceis de identificar em telas maiores.

Deer & Boy
Uma amizade que nasce (Imagem: Reprodução/PC/Lucas Soares)

Vale a pena jogar Deer & Boy?

Deer & Boy é uma experiência que aposta mais em sentimentos do que em explicações. Sua narrativa silenciosa, a relação construída entre os protagonistas e a excelente ambientação sonora criam uma jornada capaz de transmitir emoções sem recorrer a diálogos ou grandes cenas expositivas.

No entanto, a experiência acaba sendo prejudicada por um problema difícil de ignorar: a forma como seus puzzles são apresentados. Especialmente da metade para o final da campanha, a progressão frequentemente se torna frustrante devido à falta de clareza dos objetivos e das soluções propostas. Em vários momentos, avançar depende mais de tentativa e erro do que de observação ou raciocínio, algo que enfraquece significativamente uma experiência que acerta tanto em sua narrativa e apresentação.

No fim das contas, Deer & Boy apresenta uma proposta interessante e momentos genuinamente marcantes, mas acaba sendo prejudicado por decisões de design que tornam sua progressão mais frustrante do que deveria. Ainda assim, sua narrativa silenciosa, sua identidade visual e a relação entre seus protagonistas oferecem motivos suficientes para conhecer essa jornada.

Deer & Boy chega no dia 23 de junho para PC, via Steam e Epic Games Store, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela Dear Villagers.

Deer & Boy

BRL 41,99
7.3

História

8.5/10

Gráficos e Sons

8.5/10

Gameplay

6.5/10

Extras

5.5/10

Prós

  • Narrativa visual consegue transmitir emoções sem depender de diálogos
  • Excelente ambientação sonora e uso do silêncio
  • Evolução das mecânicas ao longo da campanha evita repetição
  • Ótimo desempenho técnico no PC
  • Direção artística reforça a atmosfera da jornada

Contras

  • Falta de clareza em diversos quebra-cabeças
  • Alguns trechos quebram o ritmo da aventura
  • Elementos interativos podem ser difíceis de identificar no Steam Deck
  • Ausência de recursos opcionais de acessibilidade para orientação do jogador

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.