Duskfade | Review

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Há alguns jogos que parecem familiares antes mesmo de começarmos a entendê-los. Duskfade é um deles. Desenvolvido pela Weird Beluga e publicado pela Fireshine Games, o título recupera sem qualquer vergonha aquele estilo de aventura em plataforma 3D que marcou sobretudo o começo dos anos 2000. Mundos coloridos, objetos espalhados pelos cenários, saltos duplos, inimigos pelo caminho e personagens que parecem ter saído diretamente da era do PlayStation 2 formam uma primeira impressão bastante clara sobre aquilo que o estúdio queria construir.

Mas será que ainda existe espaço para uma experiência tão declaradamente inspirada pelo passado? Após acompanhar Zirian por cerca de dez horas no PlayStation 5 Pro e chegar aos créditos, posso adiantar que há mais por trás de seus ponteiros do que a nostalgia inicialmente sugere. Continue em mais uma análise antecipada do Pizza Fria para descobrir o que achei de Duskfade!

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O tempo não para

Zirian vive em um mundo dominado por relógios e mecanismos, mas sua própria vida parece ter parado. Após o desaparecimento de sua irmã, Allira, o jovem parte em direção a uma misteriosa Torre do Relógio enquanto tenta encontrar respostas sobre o que aconteceu.

Há ainda outra ausência importante. Zirian e Allira perderam o avô, responsável por criá-los, e o protagonista carrega consigo Minutero, a espada que herdou dele. A partir daí, Duskfade constrói uma narrativa que constantemente retorna ao mesmo assunto: o tempo.

Estamos cercados por relógios, ponteiros, engrenagens e personagens associados a conceitos como culpa, fúria e agonia, mas o jogo não está particularmente interessado em viagem temporal ou em transformar relógios em um grande quebra-cabeça narrativo. Sua discussão é muito mais humana.

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Zirian é o herói da vez (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Afinal, o tempo passa independentemente daquilo que fazemos. Algumas coisas não podem ser recuperadas, determinadas perdas jamais serão desfeitas e continuar vivendo exige aprender a conviver com aquilo que ficou para trás. É um assunto pesado apresentado por meio de uma aventura surpreendentemente leve.

Duskfade possui humor, personagens caricatos e um mundo extremamente colorido. Cuco, a pequena pássara mecânica que acompanha Zirian, ajuda a tornar a jornada mais descontraída, enquanto boa parte das interações preserva aquela inocência dos antigos jogos de plataforma. Isso, porém, não impede que a narrativa encontre momentos realmente tocantes.

Os próprios chefes ajudam a construir essa ideia. Seus nomes e comportamentos representam sentimentos e obstáculos emocionais que fazem parte da jornada, e algumas falas conseguem transmitir muito bem como pessoas diferentes podem reagir à perda: tristeza, culpa, solidão, agonia…

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Agonia é a grande vilã do jogo (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Dito isso, a reta final é especialmente eficiente em reorganizar algumas informações apresentadas durante a aventura sem precisar abandonar o tom que acompanhou o jogador durante toda a campanha. Naturalmente, não entrarei em detalhes sobre suas revelações, mas elas ajudam a dar sentido à jornada de Zirian e reforçam a principal mensagem deixada pelo jogo: não podemos recuperar o tempo perdido. Podemos apenas decidir o que faremos com aquele que ainda temos.

De volta aos tempos do PlayStation 2

É praticamente impossível jogar Duskfade sem pensar em Jak and Daxter, Ratchet & Clank e, principalmente em determinados momentos visuais, Kingdom Hearts. E isso não acontece por acaso: são referências assumidas pela própria Weird Beluga. O mais interessante é que o jogo não tenta desesperadamente esconder essas influências.

Duskfade começa bastante tradicional. Zirian pode atacar, saltar, executar um segundo salto no ar e utilizar um rolamento aéreo para ampliar a distância alcançada. Há cristais e outros colecionáveis espalhados pelos cenários, inimigos relativamente simples e arenas que ocasionalmente bloqueiam a passagem até que todos os adversários sejam derrotados.

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O combate de Duskfade é limitado a poucos movimentos (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Nas primeiras horas, minha sensação era justamente a de estar diante de um bom representante de um gênero conhecido, mas que pouco fazia para escapar daquilo que já havia sido estabelecido décadas atrás. E isso nem sequer seria necessariamente um problema.

Existe algo agradável em simplesmente controlar um personagem responsivo por cenários coloridos enquanto procuramos objetos escondidos e tentamos alcançar plataformas distantes. É um estilo de jogo que já foi muito mais comum na indústria.

O grande acerto de Duskfade, porém, está em não permanecer exatamente o mesmo durante a campanha. Zirian recebe constantemente novas ferramentas. O gancho amplia as possibilidades de movimentação e permite alcançar pontos específicos dos cenários. Mais adiante, uma espécie de prancha possibilita viajar por trilhos e transforma consideravelmente a escala de algumas sequências. Posteriormente, um planador acrescenta outra camada às travessias.

Há ainda ideias menores, mas igualmente criativas. Em determinado mundo, criaturas cantam e invertem temporariamente os controles do personagem, obrigando o jogador a reaprender movimentos que já haviam se tornado automáticos. São pequenas rupturas que evitam que a campanha caia na monotonia.

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Deslizar pelos grandes mapas é divertido! (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

A estrutura das regiões acompanha essa progressão. Duskfade é essencialmente uma aventura linear, mas seus mundos possuem diversos caminhos e segredos que não podem ser acessados na primeira visita. Habilidades adquiridas posteriormente permitem retornar a áreas antigas para buscar colecionáveis, enfrentar desafios opcionais e descobrir conteúdos que haviam ficado fora de alcance.

Quem quiser apenas acompanhar a história poderá seguir em frente sem grandes problemas. Já aqueles interessados em completar tudo encontrarão motivos suficientes para revisitar cada área após obter todas as habilidades. Curiosamente, justamente por incentivar essa exploração, senti bastante a ausência de um mapa.

Os mundos são extremamente coloridos e possuem uma enorme quantidade de elementos visuais. Isso ajuda a criar cenários chamativos, mas pode dificultar a leitura do ambiente e a formação de uma referência espacial mais clara. Em alguns momentos, principalmente ao retornar em busca de itens restantes, um mapa teria facilitado bastante a navegação.

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As interações entre Zirian e Cuco são leves (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Chefes roubam a cena

Se a movimentação evolui consideravelmente durante Duskfade, o mesmo não acontece na mesma proporção com o combate. Zirian recebe novos golpes e ataques especiais, e também existem diferentes tipos de inimigos ao longo da jornada. Entretanto, grande parte deles pode ser derrotada de maneiras bastante semelhantes.

Os combos são limitados e as arenas que fecham suas saídas até todos os adversários serem eliminados acabam se tornando previsíveis com o passar das horas. Felizmente, as batalhas contra chefes seguem pelo caminho oposto. Esses encontros estão entre os melhores momentos de Duskfade.

Normalmente, retirar uma determinada parcela da vida de um chefe interrompe temporariamente o combate convencional e inicia algum tipo de desafio de plataforma. É preciso escalar estruturas, escapar de ataques, alcançar determinado ponto dentro de um limite de tempo ou realizar alguma ação específica antes de voltar a causar dano. Cada chefe possui sua própria versão dessa ideia.

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Sai pra lá, Tristeza! (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

O resultado são confrontos que realmente aproveitam as mecânicas de plataforma em vez de simplesmente colocarem Zirian diante de inimigos com barras de vida maiores. Também existe um nível de dificuldade bastante superior ao que a aparência do jogo pode sugerir. Jogando no Normal, encontrei chefes realmente mais difíceis do que eles aparentavam ser, principalmente durante suas últimas fases. Não estamos diante de uma aventura infantil que praticamente joga sozinha.

Isso fica ainda mais evidente próximo ao encerramento, quando Duskfade apresenta uma longa sequência de plataforma que exige domínio de praticamente tudo aquilo que ensinou durante a campanha. Errar significa repetir uma parte considerável do desafio, transformando o trecho em uma verdadeira prova final das habilidades adquiridas pelo jogador. Ainda assim, existem diferentes níveis de dificuldade para quem preferir uma experiência mais tranquila.

Um mundo bonito, mas nem sempre tão nítido

Visualmente, Duskfade sabe chamar atenção. Florestas, ambientes subaquáticos, construções dominadas por engrenagens e diversas outras regiões possuem identidades bastante diferentes. Há uma preocupação evidente em fazer com que cada novo mundo seja reconhecível assim que Zirian coloca os pés nele. A direção de arte é facilmente um dos destaques.

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Visuais bonitos, né? (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Também é impossível ignorar a inspiração em Kingdom Hearts, principalmente no desenho de Zirian e na combinação entre fantasia e grandes estruturas mecânicas. Já alguns cenários e sequências maiores trouxeram à memória os Ratchet & Clank mais recentes.

Minha experiência no PlayStation 5 Pro, porém, deixou uma ressalva técnica. Apesar de Duskfade ter apresentado desempenho estável durante toda a campanha, sem quedas perceptíveis de quadros, a imagem frequentemente transmitiu uma sensação de resolução abaixo daquela que eu esperaria da plataforma. Há também certa granulação visível em alguns momentos, principalmente ao jogar em 4K.

Não possuo ferramentas para determinar a resolução em que o jogo efetivamente está sendo renderizado, portanto seria incorreto atribuir um número específico. Ainda assim, foi uma característica perceptível durante toda a experiência.

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Pronto pra derrotar a Solidão! (Imagem: Captura de Tela/PS5 Pro/Lucas Soares)

Já a parte sonora acompanha muito bem a proposta. As primeiras áreas apostam em músicas alegres e aceleradas, enquanto a trilha acompanha gradualmente as mudanças de atmosfera da história. Personagens e batalhas possuem temas próprios, e os chefes novamente recebem atenção especial. Duskfade também conta com vozes em inglês e legendas em português do Brasil, que permitiram acompanhar toda a história sem dificuldades.

Vale a pena comprar Duskfade?

Duskfade não tenta reinventar os jogos de plataforma em 3D, e talvez nem precise. A Weird Beluga olha diretamente para uma geração marcada por nomes como Jak and Daxter, Ratchet & Clank e Kingdom Hearts, mas consegue fazer mais do que simplesmente reproduzir aquela nostalgia.

O que começa como uma aventura bastante tradicional ganha novas possibilidades constantemente, seja por meio do gancho, da prancha, do planador ou das diferentes ideias apresentadas em cada região. O combate comum poderia oferecer mais profundidade, a ausência de um mapa incomoda durante a exploração e a apresentação no PlayStation 5 Pro nem sempre possui a nitidez esperada, mas são problemas que pouco diminuíram minha experiência.

Isso porque Duskfade acerta justamente onde mais importa para um jogo do gênero: movimentação responsiva, bons desafios de plataforma, mundos agradáveis de explorar e chefes criativos que aproveitam de verdade as habilidades aprendidas durante a campanha.

E ainda existe algo além disso. Por trás das cores, dos relógios e de toda a leveza aparente está uma história sincera sobre perda, saudade e a impossibilidade de recuperar o tempo que passou. Ao final, foi essa combinação entre uma excelente aventura de plataforma e uma mensagem surpreendentemente tocante que mais ficou comigo.

Duskfade olha com carinho para o passado, mas entende perfeitamente que não podemos viver presos a ele. E talvez não exista maneira melhor de resumir uma aventura que fala tanto sobre o tempo.

Duskfade chega nesta quinta-feira, 13 de agosto, para PC, via Steam, PlayStation 5Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2.

*Review elaborada em um PlayStation 5 Pro, com código fornecido pela Fireshine Games.

Duskfade

BRL 84,96
8.5

História

9.0/10

Gameplay

8.8/10

Gráficos e Sons

8.4/10

Extras

7.8/10

Prós

  • Excelente variedade de mecânicas de plataforma
  • Chefes criativos e surpreendentemente desafiadores
  • História tocante sobre perda, saudade e passagem do tempo
  • Direção artística colorida e cheia de personalidade

Contras

  • Combate contra inimigos comuns é pouco profundo e repetitivo
  • Ausência de mapa prejudica exploração e busca por colecionáveis
  • Imagem poderia ser mais nítida no PlayStation 5 Pro

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.