ZERO PARADES: For Dead Spies | Review
Desde que foi anunciado, ZERO PARADES: For Dead Spies me deixou curioso. Não pelo jogo em si, nem pela premissa ou pelo gameplay, mas por toda a história e o contexto por trás dele.
Para quem não sabe, vai um pouco desse contexto. Esse game é o mais novo título do estúdio ZA/UM, responsável por um dos melhores RPGs de todos os tempos: Disco Elysium. Um jogo que me marcou muito no lançamento e que é um dos mais bem escritos da indústria, abordando temas complexos com bom humor e uma maturidade rara de se encontrar por aí.
Entretanto, o estúdio ZA/UM praticamente se dissolveu nos últimos anos. Não vou entrar em detalhes aqui, até porque essa história merece um texto próprio. O que importa saber é que boa parte dos profissionais que trouxeram Disco Elysium à vida saíram da equipe, fundaram outros estúdios e estão trabalhando em outros projetos.
Então aqui estamos, de volta com ZERO PARADES: For Dead Spies: um game que carrega o peso do estúdio, mas que ao mesmo tempo não é feito pelas mesmas pessoas.
Com tudo explicado, creio que ficou mais claro de onde vem a minha curiosidade. Curiosidade que foi sanada, já que fomos convidados pelo estúdio para jogar antecipadamente e vir contar para vocês se o título pode ser comparado ao Disco Elysium, se ele faz jus ao legado do ZA/UM e, acima de tudo, se ele se sustenta sozinho.
Para descobrir o resultado final dessa novela toda, vem comigo para mais uma análise antecipada do Pizza Fria!
O que é ZERO PARADES: For Dead Spies?
Essencialmente, ZERO PARADES: For Dead Spies é um RPG isométrico nos moldes dos jogos mais clássicos do gênero, como Baldur’s Gate, Neverwinter Nights e os Fallout originais. Sabendo disso e do legado do estúdio, você pode esperar um game bastante focado em narrativa, nas decisões do jogador, na exploração e principalmente no universo e nos personagens.
Mecanicamente, o título não traz muitas novidades. Ele é exatamente o que qualquer fã de CRPG espera. A maior novidade está na temática: espionagem, investigação e furtividade.
Então, apesar de mecanicamente familiar, ZERO PARADES: For Dead Spies se diferencia nas possibilidades que oferece para o jogador abordar as situações de forma mais sutil, no melhor estilo dos clássicos de espionagem.

O universo e a narrativa de ZERO PARADES: For Dead Spies
ZERO PARADES: For Dead Spies traz um dos mundos mais interessantes dos videogames, pelo menos para mim: uma mistura de cyberpunk com tecnologias retrô e uma ambientação que lembra muito o Leste Europeu dos anos 80 e 90. Essa estética diferente e intrigante convida qualquer um a explorar a cidade de Portofiro e descobrir sua relação com o império de La Luz e com a megacorporação EMMTERR.
No game, você assume o papel de CASCADE, uma veterana espiã que, em uma de suas últimas missões, foi responsável pelo fracasso da operação e por levar seus companheiros ao abismo. Cinco anos depois, CASCADE é enviada para Portofiro em uma nova missão. Uma oportunidade para se redimir dos erros do passado e provar seu valor como agente de elite.
Ao chegar na cidade e se encontrar com seu contato, que supostamente teria todas as informações da missão, CASCADE o encontra numa espécie de overdose: completamente imóvel, fora de si e incapaz de se comunicar.
E é aqui que o jogo começa de verdade. Você, como CASCADE, precisa achar respostas para as centenas de perguntas que envolvem Portofiro e seus habitantes. Quem são os protagonistas desse lugar? Por que você foi enviada até aqui? O que aconteceu com seu parceiro? Afinal, você não pode falhar novamente.

As mecânicas de ZERO PARADES: For Dead Spies
ZERO PARADES: For Dead Spies não é um título inovador. Muito pelo contrário, ele é bastante conservador no sentido mecânico. Vários sistemas são similares aos vistos em Disco Elysium, game anterior do estúdio.
Todo o sistema de interagir e dialogar com as habilidades e pensamentos do jogador ainda existe aqui, funcionando de maneira bastante similar, mudando apenas o nome dessas habilidades. Onde no jogo anterior elas eram relacionadas à psiquê do personagem, aqui funcionam como “soft skills” da protagonista: leitura de pessoas, escrita e produção artística, domínio de tecnologia, conhecimentos gerais do mundo, entre outras.

Os sentimentos de CASCADE funcionam como atributos e são usados para realizar diversas ações. Você tem três barras: Cansaço Físico, Ansiedade e Delírio. Elas enchem e diminuem conforme suas escolhas. Se um personagem confronta CASCADE, a barra de Ansiedade sobe. Se você corre ou faz esforço físico, o Cansaço aumenta. Se resolver discutir com bêbados, o Delírio agradece.
Quanto mais cheias essas barras ficam, mais desvantagens você acumula nos testes relacionados a elas. Cabe ao jogador gerenciar esses recursos usando itens consumíveis como drogas e bebidas para aliviar a tensão, ou simplesmente dormir para recuperar o corpo.
No fim das contas, ZERO PARADES: For Dead Spies é mecanicamente comum. Isso me frustrou um pouco, porque eu esperava mecânicas e eventos mais ligados à temática de espionagem e furtividade. Mas o game, na prática, é muito mais de investigação do que de espionagem, e mecanicamente está mais próximo de Disco Elysium do que de qualquer coisa nova.

A narrativa
Como disse antes, ZERO PARADES: For Dead Spies é um jogo muito focado na narrativa e nos diálogos, e convenhamos: a comparação com a quase perfeita escrita de Disco Elysium é inevitável.
A história é bastante intrigante e fisga qualquer um nos primeiros minutos. Entretanto, sinto que ao longo do título ela demora a entrar num bom ritmo, demora a apresentar personagens de fato interessantes e demora a criar situações e discussões que valham a pena.
E é aqui que o game mais erra: em contextualizar o jogador no universo que ele cria. A falta de bons personagens, textos, livros ou diálogos introdutórios deixa o jogador alheio ao mundo por boa parte da experiência. Os personagens falam de pessoas, lugares, eventos históricos e culturas como se você já soubesse cada detalhe desse mundo.
Deixar o jogador descobrir essas respostas por conta própria pode ser interessante. Mas ZERO PARADES: For Dead Spies erra a mão nesse ponto. Sem entender o mínimo desse universo, fica difícil se sentir motivado a explorá-lo ou se importar com quem está nele.
Em determinado momento o jogo pega no tranco e encontra um bom ritmo. Mas consigo imaginar uma boa quantidade de jogadores desistindo antes disso, simplesmente pela falta de um conflito envolvente e de personagens marcantes nas primeiras horas.
Disco Elysium fazia o oposto. Logo nos primeiros minutos apresentava personagens memoráveis, um conflito inteligente entre figuras moralmente cinzentas e um universo rico narrado com bom humor e consciência dos próprios absurdos.
ZERO PARADES: For Dead Spies falha justamente aí. Ao tentar construir uma narrativa mais séria, joga o jogador num conflito político e ideológico complexo sem oferecer contexto suficiente do que está acontecendo no mundo. Pior: pelo fato de CASCADE ser membro de uma organização estabelecida, o game apresenta o antagonismo cedo demais, deixando claro desde o início quem são os vilões e quem são os mocinhos. Isso tira aquele gosto amargo gostoso que uma boa narrativa proporciona quando te coloca em dilemas éticos sem resposta fácil.

A estética e a trilha sonora
Esteticamente, ZERO PARADES: For Dead Spies é impecável. Como citei antes, o game mistura cyberpunk com retropunk e uma melancolia característica do Leste Europeu dos anos 80 e 90, criando uma ambientação única e difícil de ignorar.
Essa direção de arte é sustentada pelos maravilhosos gráficos estilizados em aquarela, que já deram as caras no título anterior do estúdio. As ilustrações de itens, personagens e situações que aparecem na interface são do tipo que dá vontade de exportar e usar como papel de parede.
Em termos visuais, o título não deixa nada a desejar. É simplesmente lindo.

Entretanto, quando o assunto é trilha sonora, o game tropeça. Ele falha em trazer uma trilha que case com toda essa arte e essa estética. O que é frustrante, já que Disco Elysium não tinha somente músicas marcantes, mas dublagens icônicas. E dublagem é justamente outro ponto fraco de ZERO PARADES: For Dead Spies.
No lançamento, o game apresenta vários problemas na dublagem: falas faltando, outras dessincronizadas e diversos pequenos defeitos ao redor disso. Para um título tão focado em narrativa, é um tropeço difícil de ignorar. A ausência de uma dublagem funcional, além de inconveniente, torna a experiência bastante inacessível.
Falando em acessibilidade, o game traz algumas opções básicas: um modo que destaca trechos importantes do texto para pessoas com dislexia ou dificuldade de atenção, e uma aba para customizar fonte, cores e tudo que envolve a apresentação escrita. É pouco, mas é melhor do que nada.

O elefante branco na sala!
A comparação com Disco Elysium é inevitável. É um título do mesmo gênero, feito pelo mesmo estúdio, com uma proposta parecida.
No fim das contas, ZERO PARADES: For Dead Spies é menos ambicioso do que seu antecessor. Menos ousado em criar dilemas e situações para o jogador, e falha em trazer personagens marcantes logo de cara.
Mecanicamente, o game também perde a oportunidade de explorar o contexto de espionagem de verdade, entregando uma experiência que se parece mais com a de um detetive, como em Disco Elysium, e desperdiçando um potencial que, honestamente, me empolgava bastante.
A história começa lenta, mas na segunda metade encontra um ritmo interessante, apresentando conflitos e personagens melhores. Bons, sim. Mas distantes do que o título anterior do estúdio conseguiu fazer.
A mecânica de interagir com as diferentes partes da mente da protagonista também deixa a desejar. Esses momentos são mais simples, menos ambíguos e enigmáticos, trazendo respostas e conclusões mais preto no branco.

Vale a pena jogar ZERO PARADES: For Dead Spies?
ZERO PARADES: For Dead Spies é um título difícil de falar sobre. Como puderam ver, a sombra do antecessor paira em cada segundo de gameplay. E apesar de ser um bom game, com boas ideias, bons momentos e uma história interessante, ele deixa muito a desejar na comparação com Disco Elysium. Isso cria um gosto amargo naqueles que ficaram com aquele quero mais pelo título anterior da ZA/UM.
Não é o mesmo sabor de Disco Elysium, mas é bom à sua própria maneira. Tenho certeza que o game vai agradar algumas pessoas, decepcionar outras, ou frustrar quem esperava algo que ele simplesmente não é. Como foi no meu caso.
No fim das contas, ZERO PARADES: For Dead Spies é uma experiência recomendada para quem é fã do trabalho do estúdio ZA/UM. Mas é importante abrir a mente e entender que esse título carrega o selo do estúdio sem ser feito pelas mesmas pessoas.
ZERO PARADES: For Dead Spies está disponível para PC, via Steam, GOG.com e Epic Games Store, e chegará em uma data futura para PlayStation 5. É importante ressaltar que o game não possui tradução para o português brasileiro no lançamento, mas os desenvolvedores já confirmaram que ela chegará em atualizações futuras.
*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela ZA/UM.
ZERO PARADES: For Dead Spies
Prós
- Gráficos e direção de arte lindos
- Narrativa, depois de um ponto, fica incrível
- Bons mistérios
Contras
- Ausência de tradução PT-BR no lançamento
- Falta de bons personagens durante a narrativa
- A história não contextualiza o jogador direito no universo do jogo
- Não tem uma boa trilha sonora
- Problemas na dublagem em inglês



