Life is Strange: Reunion | Review

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Existem jogos que chegam exatamente na hora certa. Eles aparecem em períodos específicos da vida, encontram o jogador em um estado emocional particular e acabam deixando uma marca quase imediata. Outros chegam cedo demais. Não porque sejam ruins, mal escritos ou tecnicamente problemáticos, mas porque simplesmente exigem algo que, naquele momento, talvez você não tenha para oferecer. Percebi isso enquanto jogava Life is Strange: Reunion. Curiosamente, foi uma percepção que demorou a surgir. Passei semanas voltando ao jogo aos poucos até entender que o problema não estava exatamente nele, mas no momento em que nossos caminhos se cruzaram.

A série Life is Strange sempre teve uma relação curiosa comigo. Diferente de franquias em que o foco está em mecânicas complexas ou desafios intensos, aqui tudo depende muito mais do quanto você está disposto a mergulhar na história, ouvir personagens, observar detalhes e absorver emoções. E talvez por isso o novo capítulo da franquia tenha levado mais tempo para funcionar comigo do que eu imaginava. Mas quando finalmente engrenou, ficou claro que havia algo interessante ali.

Entre acertos e problemas técnicos, Life is Strange: Reunion consegue entregar algo que parecia difícil depois dos últimos acontecimentos da série: uma despedida que faz sentido, apesar de algumas decisões questionáveis ao longo do caminho. Os detalhes eu trago agora, em mais uma review do Pizza Fria!

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Reunindo fragmentos do passado

Logo no início, o game já deixa claro que não pretende funcionar isoladamente. Antes mesmo de começar a aventura, somos convidados a reconstruir decisões importantes dos jogos anteriores, com foco no primeiro Life is Strange e de Double Exposure.

É uma abordagem interessante porque respeita algo que sempre foi uma das identidades da franquia: a ideia de que cada jogador construiu uma experiência própria.

Life is Strange: Reunion
Começamos o game definindo uma série de decisões anteriores (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Depois disso, a narrativa inicia de forma bastante simbólica. Chloe surge em uma sequência que remete diretamente a acontecimentos marcantes da série, especialmente uma das cenas mais importantes envolvendo Max. A personagem passa a encontrar fragmentos de memórias onde acontecimentos parecem existir simultaneamente entre vida, morte e lembranças distorcidas.

É uma abertura que funciona bem por mexer diretamente com o fator nostalgia, mas sem simplesmente repetir momentos antigos.

Ao longo das primeiras três horas, uma sensação ficou cada vez mais evidente: Life is Strange: Reunion não parece apenas uma continuação de Double Exposure. Ele parece algo planejado ao mesmo tempo.

Life is Strange: Reunion
Teve ou não teve? (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Existe um reaproveitamento enorme de ambientes, estruturas e até elementos narrativos que passam a impressão de que ambos foram concebidos em sequência, quase como partes de um projeto maior.

Isso chamou minha atenção porque, considerando a recepção crítica mais dividida de Double Exposure, seria fácil imaginar uma mudança de rota. Mas a sensação aqui é justamente a oposta: tudo parece ter sido desenhado muito antes.

Uma Chloe diferente, mas ainda familiar

Talvez uma das coisas mais interessantes do jogo seja justamente observar a evolução da Chloe. No primeiro Life is Strange, Chloe era impulsiva, rebelde e frequentemente tomava decisões extremamente questionáveis. Era parte do charme da personagem, mas também de suas maiores falhas. E aqui existe uma mudança bastante perceptível.

Ela continua carregando parte daquela personalidade explosiva e inconsequente, mas agora existe uma responsabilidade maior. Existe uma sensação de amadurecimento. Isso ficou ainda mais interessante considerando a decisão que importei da minha experiência no jogo original. Lá atrás, escolhi sacrificar Chloe para salvar a cidade.

Life is Strange: Reunion
Soluções simplistas? (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Hoje, olhando como adulto, continuo enxergando essa escolha como a mais lógica. A decisão colocava em perspectiva uma cidade inteira e inúmeras vidas diante de uma única pessoa que, por mais querida que fosse, também carregava uma série de atitudes problemáticas ao longo da história. Trazer essa escolha para Life is Strange: Reunion acabou dando um peso adicional à narrativa, afinal, ver Chloe anos depois, mais madura e lidando com consequências, cria uma dinâmica interessante porque a personagem deixa de ser apenas a adolescente problemática do passado.

Ao mesmo tempo, existe algo que me deixou um pouco confuso.

O jogo parece insistir em reforçar uma interpretação mais romântica entre Max e Chloe. No título original existia espaço para interpretações, claro. Havia inclusive uma opção envolvendo beijo entre as personagens. Mas, para mim, a essência daquela relação sempre esteve muito mais ligada à amizade, ao reencontro e ao vínculo construído entre duas pessoas que cresceram juntas.

Aqui, em diversos momentos, a narrativa parece reforçar uma interpretação mais explícita da relação entre Max e Chloe. E isso me chamou atenção por um motivo curioso: logo no início da campanha, inclusive, importei uma trajetória em que as personagens compartilharam um beijo no primeiro jogo, algo que Life is Strange: Reunion interpreta como um envolvimento amoroso. Ainda assim, minha percepção ao longo dos jogos anteriores sempre esteve mais ligada ao peso da amizade e da conexão construída entre as duas do que necessariamente a um relacionamento romântico. Por isso, alguns momentos acabaram soando menos naturais para mim.

Curiosamente, ao chegar aos créditos, os próprios dados mostraram algo interessante: cerca de 75% dos jogadores, incluindo eu, que acabei seguindo esse caminho mais para respeitar a trajetória que construí ao longo da campanha, optaram por seguir um relacionamento amoroso com Chloe durante a jornada. Isso não mudou completamente minha visão sobre a construção dessa relação, mas ajudou a entender melhor o caminho escolhido pela narrativa e por boa parte da comunidade.

Life is Strange: Reunion
A relação entre Max e Chloe é o foco de Reunion (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

A fórmula clássica de Life is Strange continua presente

Para quem espera mudanças radicais na estrutura da série, Life is Strange: Reunion segue bastante fiel à identidade construída pela franquia ao longo dos anos. Grande parte da experiência continua girando em torno da exploração de cenários relativamente pequenos, conversas com personagens e momentos mais contemplativos.

Desta vez, a jogabilidade é dividida entre Max e Chloe, permitindo controlar as duas personagens ao longo da campanha. E cada uma delas carrega mecânicas que os fãs da franquia provavelmente já conhecem.

Max continua utilizando sua habilidade de voltar no tempo, algo introduzido no primeiro Life is Strange. O poder funciona principalmente como uma ferramenta narrativa e de interação. Em diversos momentos é possível obter uma informação específica durante um diálogo, voltar alguns segundos e utilizar esse conhecimento para desbloquear novas respostas, descobrir detalhes adicionais ou até conseguir determinados itens necessários para avançar.

Life is Strange: Reunion
Max traz seu clássico poder de voltar no tempo (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Já Chloe mantém uma mecânica que lembra o sistema apresentado em Life is Strange: Before the Storm, com os desafios de bate-boca retornando em determinados momentos da história. Nessas situações, é necessário escolher respostas específicas para vencer discussões, funcionando quase como pequenos quebra-cabeças baseados em argumentos e interpretação do comportamento dos personagens.

Durante toda a jornada, as protagonistas também comentam constantemente situações, objetos e acontecimentos através de pensamentos internos, algo bastante característico da franquia desde o primeiro jogo. Isso ajuda a aproximar o jogador das personagens, mas também reforça um ritmo mais cadenciado.

Por outro lado, essa mesma estrutura pode gerar alguns incômodos. Existem momentos em que a sensação é de caminhar entre um ponto e outro aguardando a próxima conversa importante acontecer, com poucas interações realmente relevantes no meio do caminho. Para fãs antigos da série, isso provavelmente será encarado como parte do charme da experiência. Já quem busca uma aventura mais dinâmica pode sentir um ritmo mais arrastado em determinados trechos.

Decisões continuam sendo o coração da série

Independentemente dos problemas, uma coisa continua funcionando muito bem: tomar decisões. E isso talvez seja o elemento que salva praticamente qualquer Life is Strange.

Em determinado momento, por exemplo, existe uma situação envolvendo suspeitos onde o próprio jogo praticamente sugere qual seria a resposta correta com base nas pistas coletadas. Mesmo assim, ele ainda entrega a decisão para você.

Pode parecer algo pequeno, mas funciona porque cria aquela sensação clássica da franquia: “eu sei o que o jogo está me dizendo, mas será que devo confiar nele?” É o tipo de situação que faz o jogador pensar.

Life is Strange Reunion 20260325221544 Life is Strange

Também gostei bastante da escolha final. Sem entrar em spoilers, a decisão que encerra a jornada segue aquela fórmula clássica de Life is Strange: não existe exatamente certo ou errado. Existe apenas aquilo que faz sentido para você.

Escolhi uma opção que considerei mais lógica, mas acreditava que ela talvez não alterasse tanto o destino dos personagens. E eu estava certo. E isso acabou tornando a conclusão ainda mais interessante.

Uma curiosidade divertida apareceu depois dos créditos: a porcentagem global mostrava algo próximo de uma divisão perfeita entre jogadores. 53% escolheram um caminho. 47% escolheram outro. E eu estava na minoria. Isso resume muito bem a proposta da série.

Moses rouba a cena

Se existe um personagem que me surpreendeu durante a campanha, esse personagem foi Moses. Dentro de uma franquia cheia de figuras marcantes, ele consegue encontrar espaço próprio sem parecer alguém criado apenas para mover a história.

As decisões que tomei envolvendo o personagem tiveram consequências relevantes no desenrolar dos acontecimentos que vivi, e isso acabou tornando sua presença ainda mais importante. Quando o jogo mostra os resultados finais e apresenta caminhos alternativos, fica evidente que existiam muitas possibilidades diferentes.

Mesmo assim, fiquei satisfeito com a trajetória que construí. E talvez isso seja o maior elogio que posso fazer para qualquer jogo baseado em escolhas.

Life is Strange: Reunion
Moses foi meu personagem preferido em Life is Strange: Reunion (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Nem toda emoção vem acompanhada de polimento técnico

Se narrativamente Life is Strange: Reunion consegue me conquistar em vários momentos, tecnicamente a situação é mais complicada.

Joguei no PlayStation 5 Pro e alguns problemas ficaram evidentes rapidamente. Mesmo no modo Qualidade existe uma quantidade bastante perceptível de pop-in. Objetos e elementos do cenário surgem diante do jogador com frequência maior do que eu esperava. Também existem problemas envolvendo sincronia labial.

O jogo conta com dublagem somente em inglês (mas traz legendas em português!), e esse detalhe acabou chamando ainda mais atenção. Em diversos momentos os movimentos dos lábios simplesmente parecem não acompanhar corretamente as falas. Pode parecer pequeno, mas em uma experiência tão focada em personagens e diálogos, isso quebra um pouco da imersão.

As expressões faciais também apresentam inconsistências. Em alguns momentos os personagens parecem estar encarando o vazio, olhando para direções estranhas ou apresentando expressões que simplesmente não combinam com a situação. Para um jogo narrativo, isso pesa bastante.

Life is Strange: Reunion
Do absoluto nada, Safi ficou vesga (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Outra ausência que senti foi de um modo gráfico equilibrado. Depois de alguns testes, acabei preferindo jogar no modo Desempenho. O modo Qualidade simplesmente não entregava algo suficientemente convincente para justificar a perda de fluidez.

Além disso, existe uma sequência próxima ao final envolvendo uma situação de urgência que me fez pensar em algo interessante. Durante a missão, o jogador precisa agir diante do contexto apresentado pela narrativa de uma forma rápida. Só que, na prática, não existe pressão real. Você pode literalmente parar, observar o cenário ou ficar parado sem consequências imediatas. Um cronômetro ou alguma mecânica semelhante teria aumentado bastante a tensão.

Life is Strange: Reunion
Fim? (Imagem: Reprodução/PS5 Pro/Lucas Soares)

Vale a pena jogar Life is Strange: Reunion?

Depois de mais de uma década acompanhando Life is Strange, é difícil não olhar para Reunion com certo peso emocional. E talvez o maior mérito do jogo esteja justamente aí.

Ele não tenta reinventar completamente a série. Não tenta transformar tudo em algo gigantesco. Ele apenas pega personagens conhecidos, revisita memórias importantes e fecha alguns ciclos.

A sequência final funciona muito bem nesse sentido. As imagens revisitadas do primeiro jogo criam uma sensação quase nostálgica de observar o quanto a franquia evoluiu visualmente, mecanicamente e narrativamente ao longo dos anos.

Mais do que isso, elas passam a sensação de despedida. Uma despedida tranquila. Sem explosões gigantescas. Sem reviravoltas absurdas. Só uma história encerrando algo que começou muitos anos atrás.

Life is Strange: Reunion não é perfeito. Os problemas técnicos aparecem com frequência, algumas decisões narrativas podem gerar estranhamento e certas escolhas parecem existir mais para agradar parte da comunidade do que necessariamente para fortalecer a história.

Mas quando os créditos finalmente sobem, a sensação que ficou foi clara: gostei da história que vivi. E para uma série construída em cima de escolhas, talvez esse seja o melhor resultado possível.

Life is Strange: Reunion já está disponível para PC, via Steam e Microsoft StorePlayStation 5 e Xbox Series X|S.

*Review elaborada em um PlayStation 5 Pro, com código fornecido pela Square Enix.

Life is Strange: Reunion

BRL 229,90
8.2

História

9.0/10

Gráficos e Sons

7.5/10

Gameplay

8.0/10

Extras

8.2/10

Prós

  • Encerramento emocional que respeita a trajetória da franquia
  • Evolução de Chloe adiciona maturidade à narrativa
  • Sistema de escolhas continua relevante
  • Moses se destaca como um dos personagens mais interessantes do jogo

Contras

  • Problemas frequentes de pop-in no PlayStation 5 Pro
  • Sincronia labial inconsistente durante diálogos
  • Relação entre Max e Chloe pode soar forçada em alguns momentos
  • Ausência de maior pressão mecânica em eventos urgentes da narrativa

Lucas Soares

Jornalista e fã de videogames desde criança. Já teve Mega Drive, Game Boy Color, PS1, PS2, PS3, PS4, PSVR, PS Vita, Nintendo 3DS e agora tem "só" um PS5, um Nintendo Switch e um PC Gamer. Para ele, o melhor jogo da história é Chrono Trigger, mas Metal Gear Solid 3, Final Fantasy X, The Last of Us Part II e Red Dead Redemption 2 completam o Top-5.