Moomintroll: Calor do Inverno | Review

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Após o delicado Snufkin: Melody of Moominvalley, o estúdio Hyper Games retorna ao universo criado por Tove Jansson com uma proposta semelhante – mas com um ponto de partida bem diferente.

Desta vez, quem assume o protagonismo é Moomintroll, em uma aventura que troca o fluxo livre da primavera por um inverno silencioso, quase desconhecido, pois tudo é novidade para o ingênuo protagonista. Se em Snufkin o movimento e a musicalidade eram constantes, aqui a sensação inicial é outra: de espera, estranhamento e descoberta.

Assim como no jogo anterior, Moomintroll: Calor do Inverno foi traduzido ao português do Brasil com muito esmero. Novamente, passear pelo vale e ler balões de pensamento e falas recheadas de personalidade é delicioso. E já deixo a recomendação para quem amou a aventura do andarilho Snufkin.

Ao longo desta análise para o Pizza Fria, apresento as peculiaridades de Moomintroll: Calor do Inverno e, desta forma, você decide se o título é para o seu gosto.

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Um inverno fora de hora

Ao contrário de Snufkin: Melody of Moominvalley, que se inspira em trechos diferentes dos nove livros dos Moomins, os noruegueses do Hyper Games se inspiram especificamente em Moominland Midwinter, com uma premissa simples e poderosa: Moomintroll acorda antes do tempo.

Por que isso é um problema? Os moomins, essas criaturas brancas e simpáticas que mais parecem hipopótamos, hibernam por todo o inverno à espera da primavera – nem tomam conhecimento da estação mais fria e desolada.

Sozinho, sem a família e sem reconhecer o vale onde vive, ele precisa lidar com um mundo transformado pelo frio, pois a Senhora do Frio cobriu a região com um manto branco e a esvaziou de vida. Aliás, a Senhora do Frio não é necessariamente uma personificação ou um vilão. Aliás, não há inimigos por derrotar, exceto – se quiser contar – os lobos que afastamos com bolas de neve na floresta escura.

Coberto de neve e mais escuro, o Vale dos Moomins deixa de ser apenas acolhedor e passa a ser também desconhecido.

Por falar em acolhedor, logo no início do jogo, uma pergunta me veio à cabeça: quanto deste Calor do Inverno entra no critério de jogo aconchegante (ou cozy game)? Devo me explicar melhor. Embora acorde cheio de energia e feliz por acreditar que a primavera chegou, Moomintroll rapidamente é tomado por medo e incerteza ao notar a noite escura e invernal. A janela escancarada e o sentimento de que alguém arrombou a casa não ajudam.

Moomintroll: Calor do Inverno é bonito, silencioso e meio assustador. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
Moomintroll: Calor do Inverno é bonito, silencioso e meio assustador. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

A narrativa e a jogabilidade constroem bem o desconforto, já que você controla um hesitante moomin pelo escuro com a missão de fechar as janelas. Que tal buscar fósforos antes disso para iluminar o caminho? Sem luz, as sombras são aterrorizantes e os quadros parecem outras gravuras macabras. Com uma caixa de fósforos na mão – ferramenta que será usada até o fim –, um palito dura apenas alguns segundos. O cuidado com as animações, aliás, fica evidente, porque o ícone na tela do palito aceso se gasta no mesmo ritmo e, quando estiver quase no fim, Moomintroll balança a mão para apagá-lo sem se queimar.

SEMPRE vou dizer que detesto comparações muito diretas. Neste caso, porém, contrastar Calor do Inverno com Melodia no Vale dos Moomins é válido, porque ambos os games vieram do mesmo material-fonte e foram criados pelo mesmo estúdio. E nada do que eu disser serve como demérito para um ou exaltação do outro. O jogo de Moomintroll começa (e é) mais solitário e mais lento no geral do que a aventura musical de Snufkin. E isso por si só já reforçaria o meu argumento contra o rótulo de aconchegante.

Uma vez com as janelas fechadas, é impossível voltar a dormir com o pensamento incômodo da casa ter sido invadida. Uma vez fora, Moomintroll vê como o inverno pode ser cruel ao ver um esquilo quase sem vida no meio da nevasca. Basta se distrair, olhar para o lado e… ué, sumiu? Foi soterrado pela neve? Conseguiu sair correndo? Será que a Senhora do Frio o levou? E, desta forma, a história vai se desenrolando, ao estilo de uma situação leva a outra…

Moomintroll encara o vale coberto de neve pela primeira vez. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
Moomintroll encara o vale coberto de neve pela primeira vez. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

O mesmo mundo, outra leitura

Como disse, os Moomins são criaturas brancas, gorduchinhas e de natureza gentil. As situações são como as que descrevi, do tipo em que pequenos eventos mundanos ganham peso de aventura épica. Esse princípio continua aqui, mas com outra tonalidade.

Ironicamente, o andar lento do desengonçado Moomintroll não irrita. As trilhas feitas pela neve ficam para sempre e, sem tanta neve fofa, caminhar por elas é mais rápido nas vezes seguintes. A temática pesada e sombria, ilustrada com a camada de personagens das histórias em livros infantis, é algo aconchegante porque o texto é trabalhado com carinho e otimismo.

Embora minha vontade seja declarar Moomintroll: Calor do Inverno como mais introspectivo, eu estaria mentindo. Tudo porque logo, logo você entende que a grande missão é, adivinhe só, encontrar os outros personagens do vale para acender a grande fogueira. Com muita lenha, música e dança, ela representa um ritual de despedida do frio e de boas-vindas para a primavera.

Certo! Contudo, muita neve e muito gelo ainda criam barreiras por aí. A versão inóspita do vale traz menos brincadeiras do que o primaveril Melodia no Vale dos Moomins e mais cadência, mais segredos escondidos – objetos esperando ser descobertos, como os pedaços de um vaso ou tocos de lenha.

Um vale coberto de neve

Visualmente, Calor do Inverno mantém a base estética do jogo anterior – entretanto muda completamente a paleta e o impacto.

Outra pergunta que me fiz a todo momento era se eu queria mais verde, mais azul, mais amarelo em vez de tantos brancos (por vezes misturados tematicamente com os tons dourados do pôr do sol no alto das montanhas, ou marrons e azuis nas cavernas escuras). Para ser sincero, sim, mas reconheci que ficar nessa zona de desconforto era uma vivência necessária – e especialmente agradável justo porque curtia momento a momento.

A aquarela continua presente, mas agora dominada por tons frios, neve e contrastes mais suaves. Enquanto a primavera não vem, aos poucos, o leque de ferramentas se amplia modestamente para prepararmos a festa da fogueira.

A Senhora do Frio é uma vilã invencível. Aliás, é mesmo uma vilã? (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
A Senhora do Frio é uma vilã invencível. Aliás, é mesmo uma vilã? (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

Puzzles e interação

A base segue sendo de aventura com puzzles ambientais, mas agora sem o eixo musical direto de Snufkin.

Se Snufkin tinha instrumentos musicais e controlava animais, Moomintroll tem uma modesta caixa de ferramentas para superar obstáculos neste cenário nevado. Com as velhas luvas de lã, faça bolas de neve sem congelar as mãos e atire-as nas estalactites para derrubá-las e assim criar novas passagens. Com a pá, remova montes de neve – serve para abrir caminhos, resgatar criaturas soterradas e encontrar objetos. Mais tarde, o machado… Acho que você já imagina onde isso vai dar.

E todas essas ferramentas ainda recebem uma melhoria cada, o que traz novos recursos, como rolar bolas de neve para fazer pontes. Claro, você vai desviar de obstáculos à medida que a bola cresce e cresce, nada é muito dado. As versáteis habilidades do moomin fazem do jogo um leve metroidvania. O mapa, algo labiríntico, se desdobra graças à sua caixa de ferramentas e é fácil de navegar – use a memória e marque pontos de referência. (Sim, há uma tela de inventário, com direito às conexões entre áreas, mas quase não a usei).

No processo, você encontra vizinhos do vale, como a Tutiki, que te ensina coisas e aprimora suas ferramentas. Ou como a Pequena Mi, que quer brincar. Ela é uma menina levada e não vai simplesmente ouvir Moomintroll. Uma hora, ela quer uma guerra de bola de neve e somente vencê-la a convencerá a comparecer à festa da fogueira. A “batalha campal” requer correr por aí, encontrar abrigo atrás de árvores e de pedras até conseguirmos tacar bolotas suficientes para cansar a Pequena Mi. E, não, ela não vai se dar por vencida da primeira vez.

O game conta com diferentes atividades para reunir os habitantes do Vale dos Moomins. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
O game conta com diferentes atividades para reunir os habitantes do Vale dos Moomins. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

Exploração e progressão

Moomintroll: Calor do Inverno é uma experiência guiada pela exploração e por pequenos encontros, mas o contexto altera o significado dessas interações. Agora, encontrar alguém é mais do que parte da jornada, pois queremos convidados para celebrar o fim do inverno.

Alguns dos personagens pelo caminho são os Seres do Inverno: eles falam palavras perdidas, o que faz do diálogo algo deliciosamente esquisito – os rabiscos preenchem as lacunas como se fossem palavras em uma escrita incompreensível. Desse jeitinho, de forma muito sintética, você entende não só o pedido deles, mas também como elas se sentem a respeito do Moomin e deles mesmos. É inegavelmente fofo e engraçado.

Cada serzinho do inverno terá uma missão diferente e, se a concluirmos, comparecerá ao ritual . Um deles perdeu seu diário e tem vergonha do que está escrito nele… adivinhe! Outra está presa em um bloco de gelo e você terá que voltar com um machado bem afiado…

Com o passar da exploração, o game apresenta outros personagens do rico elenco dos livros, como Filomena – a vizinha um tanto chata com suas três filhas bagunceiras –, Tadinho – o cachorro vira-lata fraquinho que quer entrar para uma alcateia, mas precisa ser salvo e carregado sob fortes ventos –, e mais alguns que evito citar para manter surpresas. Vale dizer que todos contam com um arco próprio, são desenvolvidos e, no fim, dá um quentinho vê-los reunidos.

No geral, o título tem variedade de missões paralelas e as conecta bem, sustentado principalmente pela ótima escrita e igualmente ótima tradução ao português do Brasil. Minha jornada toda pelo inverno durou quase 8 horas, com 100%, e percebi que o foco de Moomintroll: Calor do Inverno estava mais nas micronarrativas do que na exploração livre ou em mecânicas elaboradas de jogabilidade.
Por falar um pouco dela, os comandos respondem como se espera e a jogabilidade é simples. 

Eu já falei antes no texto de um detalhe que define o ritmo: da primeira vez que passamos pela neve espessa, Moomintroll anda devagar; refaça o caminho pela trilha aberta e ele vai mais rápido. Talvez soe como um absurdo, mas parece que os criadores deram uma cadência ao game que busca ser desacelerada.

O Tadinho se perdeu e não quer ficar no escuro enquanto te segue de volta. Só tem um detalhe: o vento apaga seus fósforos. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
O Tadinho se perdeu e não quer ficar no escuro enquanto te segue de volta. Só tem um detalhe: o vento apaga seus fósforos. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

Som e atmosfera

Me repito, mas, se Snufkin usava a música como mecânica e ambientação, aqui ela tem outro papel a cumprir. A suave trilha sonora fica mais marcante com as alfinetadas dos sons ambientes, como os ventos cortantes e as gotas que ecoam nas cavernas. (Bom, odeio ser referencial e comparativo, contudo, neste caso, realmente é difícil).

Estou tentado a dizer que a trilha é mais melancólica, o que não é bem verdade. Os temas são tão discretos quanto temas de inverno conseguem ser, quase desprovidos daquela alegria que estações mais vivas e felizes têm – a flauta rápida parece pertencer à primavera, enquanto composições mais lentas, com notas alongadas, tomam conta da estação mais fria.

Como joguei com os fones e ouvi todas as composições, sei que a musicalidade como elemento central pertence muito mais ao jogo do andarilho; devo, porém, reforçar como ela é importante para criar a atmosfera de Moomintroll: Calor do Inverno. Enquanto não subo meu gameplay, dá pra notar no trailer do que estou falando.

Entre conforto e estranhamento

Um dos pontos mais interessantes da obra de Tove Jansson é como ela equilibra delicadeza com temas mais profundos – e isso volta a aparecer aqui. Você já deve ter percebido em outras linhas… Bom, depois de ter jogado Snufkin, no Nintendo Switch, eu fui à biblioteca e acabei descobrindo os livros da autora finlandesa.

Não quero me repetir; a análise de Snufkin: Melodia do Vale dos Moomins já revela quase tudo o que tenho a dizer sobre ela. Por ora, basta saber que atravessou as duas guerras mundiais em diferentes fases da vida, testemunhou transformações radicais e, entre as rupturas de seu tempo, desfez um noivado para viver sua sexualidade, afirmando em código que havia ido para o seu “lado assustador”.

Para não contar demais, Moomintroll ainda é uma criança e antes de, por necessidade, pegar a caixa de fósforos ou o machado, apenas Moominpai lidava com objetos perigosos. A saga começa com o enfrentamento de medos e a quebra de protocolos estabelecidos. É uma história de perseverança e crescimento, que ensina, em muitos trechos, a inevitabilidade de viver épocas mais difíceis em nossas vidas.

As conversas, por balões, dão alma e vida ao elenco criado pela escritora Tove Jansson. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)
As conversas, por balões, dão alma e vida ao elenco criado pela escritora Tove Jansson. (Imagem: Reprodução/PC/Carlos Maestre)

Vale a pena jogar Moomintroll: Winter’s Warmth?

Moomintroll: Calor do Inverno (ou Winter’s Warmth, em inglês) não tenta repetir exatamente o que funcionou em Snufkin. A arte é consistente, a musicalidade também se encaixa, mas com certeza o título busca outro tipo de experiência.

Entre os principais pontos fortes, está a jornada de crescimento pessoal do personagem, que se encontra repentinamente acordado antes da hora e acaba por descobrir o que realmente é o inverno. Tanto que o título me lembrou, em vários momentos, do mito da caverna, de Platão. A direção artística consegue se manter fiel à proposta da autora dos Moomins e a trilha sonora conta essa história através da música. O bônus, para nós, é a fantástica tradução ao português do Brasil desse belo livro, agora interativo.

Pode ser que jogadores veteranos ou desinformados não encontrem o desafio que buscavam ou sintam que algumas tarefas são repetitivas – e houve momentos em que achei chato cavar pelos paredões de neve. Também não descarto o clichê de “não é para todo mundo”, já que este é um jogo mais lento do que a maioria.

No fim, eu amei Moomintroll: Calor do Inverno – foi mecanicamente menos curioso que seu antecessor, mas trouxe uma narrativa mais interessante e aprofundada, um ótimo retrato digital do livro no qual se inspira. O jogo reforça o conhecimento e a capacidade da Hyper Games de traduzir o universo dos Moomins para os videogames com respeito e identidade própria. Para leitores e jogadores de todas as idades, está mais do que recomendado.

Desenvolvido pela Hyper Games e publicado pela Raw Fury, Moomintroll: Calor do Inverno já está disponível para PC, via Steam, e Nintendo Switch.

*Review elaborada em um PC equipado com GeForce RTX, com código fornecido pela Hyper Games.

Moomintroll: Calor do Inverno

BRL 59,99
8.9

História

10.0/10

Visuais

9.5/10

Som

9.0/10

Jogabilidade

7.5/10

Conteúdo

8.5/10

Prós

  • Direção artística consistente e expressiva, com uso inteligente da paleta de inverno
  • Narrativa sensível que se integra bem à jogabilidade
  • Uso de mecânicas simples (fósforos, neve, ferramentas) para criar tensão e progressão
  • Personagens bem escritos, com pequenas histórias que enriquecem o mundo
  • Excelente localização em português do Brasil

Contras

  • Ritmo deliberadamente lento pode afastar parte do público
  • Repetição de tarefas (especialmente cavar neve)
  • Menor variedade mecânica em comparação com Snufkin

Carlos Maestre

Jornalista que mergulhou na pesquisa de acessibilidade digital graças à eterna necessidade de inverter o eixo Y - hábito cultivado desde GoldenEye 007. Cresceu com a Nintendo e já teve mais entusiasmo pela Microsoft; no fundo, ainda espera reencontrar a Rare de outros tempos. Entre caçadas por conquistas e sessões intermináveis de Stardew Valley, vive sob a ameaça de uma intervenção a qualquer momento por culpa de suas fazendas virtuais.