Saros | Review

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Há jogos que chamam atenção pelo trailer, outros pelo estúdio. Saros, jogo da Housemarque, lançado exclusivamente para PlayStation 5, com versão aprimorada para PlayStation 5 Pro, até me chamou a atenção por esses aspectos, mas a questão que me marcou foi ver o que poderia vir para além disso. À primeira vista, o jogo pode parecer mais uma aventura de ação em terceira pessoa com ambientação de ficção científica. No entanto, basta observar com um pouquinho mais de cuidado para perceber que há algo mais complexo em movimento.

Naturalmente, muitos jogadores irão comparar Saros com Returnal, jogo anterior que consagrou o estúdio finlandês. Porém, a coisa vai mais além, misturando intensidade, uma chuva de projéteis pela tela, um estilo roguelite bem peculiar e, o mais importante: uma narrativa psicológica complexa e que dá sentido a cada queda de nosso protagonista, aspecto bem comum do gênero.

Saros nasce dessa mistura, mas parece ter algo mais amplo. A impressão inicial é a de um jogo que quer preservar a brutalidade, o mistério e a precisão de suas mecânicas, ao mesmo tempo em que busca uma estrutura mais acessível, mais variada e mais consciente de seus próprios sistemas e repetições. Mas afinal, será que a Housemarque conseguiu entregar um jogo novo, com variações e diferente de Returnal? Falaremos sobre isso e muito mais nesta análise!

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Uma narrativa complexa e profunda

A ambientação de Saros é um de seus elementos mais fortes. O jogo se passa em Carcosa, um mundo alienígena marcado por um eclipse que transforma todo o ambiente do planeta, e por uma atmosfera de ruína, hostilidade e transformação. A Housemarque descreve o jogo brevemente como uma experiência de ação situada em uma colônia extraterrestre perdida, acompanhando Arjun Devraj, um executor Soltari em busca de respostas nesse ambiente corrompido e cheio de perguntas a serem feitas.

Esse ponto de partida já carrega uma força narrativa interessante. Carcosa não é apenas um cenário bonito para tiroteios futuristas. Este estranho planeta funciona como uma presença ativa e totalmente relevante, sendo quase como um inimigo silencioso. O eclipse, nesse sentido, não é apenas um efeito de iluminação ou um detalhe de direção de arte. Ele atravessa a lógica do jogo, interferindo no ambiente, nos inimigos e na sensação de instabilidade.

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Carcosa é um mundo completamente hostil. (Imagem: Divulgação)

Essa é uma escolha promissora por conectar ambientação, fatores estéticos e mecânica. Em vez de separar narrativa, ambientação e gameplay em balaios diferentes, Saros usa e abusa de todos esses elementos para construir a sensação de se estar em um lugar que não pode ser totalmente compreendido, controlado ou dominado, com mais mistérios e questões do que respostas e certezas. Porém, o ritmo narrativo em alguns momentos acaba ficando lento, algo que pode trazer algum incômodo ou até mesmo sensação de vazio na jogabilidade.

Arjun Devraj e o seu papel em Carcosa

Nosso protagonista, Arjun Devraj, chama nossa atenção por fugir da ideia de herói genérico e sem sal do gênero de ficção científica. Ele é apresentado como alguém movido por uma busca pessoal, preso a seus próprios atos no passado, em um mundo estranho e cercado por forças que parecem desafiar não apenas sua sobrevivência, mas também sua percepção da realidade, algo que nos confunde, sendo um aspecto rico da atmosfera criada pela Housemarque.

A narrativa, ao que tudo indica, segue uma estrutura bem fragmentada, com documentos, diálogos, registros e situações ambientais ajudando a compor o quebra-cabeça. Essa abordagem combina muito bem com a identidade de diversos jogos atuais, que expandem sua lore através desses artifícios acima citados. Em Saros, temos isso constantemente em cada uma de nossas runs.

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O protagonista lida não só com as ameaças de seu presente, mas também com fantasmas do passado. (Imagem: Divulgação)

Saros tem o objetivo de ser um pouco mais épico, nos colocando diante de uma colônia perdida, interesses corporativos, presença militar, recursos valiosos e uma ameaça cósmica afetando tudo ao redor. Porém, nosso protagonista se sobressai em diversos momentos, um belo artifício narrativo que traz todo o foco emocional nele, impedindo que a história se torne fria ou distante. Essa combinação entre drama pessoal e horror cósmico é um dos maiores êxitos do jogo, nos dando a sensação de que sempre há uma algo a ser descoberto.

Gameplay aprimora o que foi visto em Returnal

Um dos focos de Saros, naturalmente, está no gameplay. Aqui, a Housemarque aprimora o que foi feito em Returnal, criando mais opções de customização da jogabilidade. A base envolve combate em terceira pessoa, elementos de bullet hell e progressão roguelite, mas com sistemas mais permanentes de evolução após a morte do personagem.

Essa mudança é essencial. Em jogos como Saros, a morte precisa ser mais do que um castigo. Ela precisa ser aprendizado, reorganização e impulso para uma nova tentativa. Essa é a ideia de Saros: colocar os jogadores em constante aprimoramento. Com isso, temos diversas melhorias permanentes, novas possibilidades de builds e recursos que fazem cada run contribuir para nossa experiência. Porém, esse tanto de sistemas e informações podem confundir ou afastar jogadores novatos.

O combate também é mais estratégico. Não se trata apenas de atirar, correr e desviar. A presença do escudo Soltari muda bastante a leitura dos confrontos. Desta forma, Arjun pode bloquear alguns tipos de ataques, absorver energia deles e até transforma-la em contra-ataques poderosos e muito úteis. Essa mecânica é uma excelente adição, porque cria uma camada de decisão em tempo real. Assim não precisamos apenas desviar ou se defender, mas identificar os tipos de ameaça, escolher quando absorvê-las, quando recuar, quando atacar e quando gastar os recursos ofensivos. Isso nos faz pensar o tempo todo. Em alguns momentos, temos informações demais na tela.

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O estudo é um dos grandes diferenciais de Saros, mudando radicalmente a jogabilidade. (Imagem: Divulgação)

Por fim, há algo que merece ser dito: Saros se beneficia bastante do DualSense. Com isso, podemos sentir o impacto das armas, a resistência dos gatilhos, a absorção de impacto pelo escudo e a intensidade dos confrontos, reforçando a conexão física com o combate. Quando o feedback tátil é bem implementado, ele deixa de ser enfeite. Ele nos auxilia a perceber ritmo, impacto e intensidade. Em um jogo baseado em leitura rápida de ameaças, qualquer camada sensorial bem aplicada pode tornar a experiência mais envolvente.

O eclipse e sua influência

O eclipse é um dos elementos mais impactantes na jogabilidade de Saros. Ela não funciona apenas como argumento estético, mas como uma mecânica capaz de alterar o comportamento de tudo o que acontece em Carcosa. O ambiente muda, os inimigos se tornam mais perigosos e novas oportunidades surgem a partir dessa transformação é extremamente interessante. Ele trabalhar de maneira ambígua, aumentando o risco, mas também trazendo mais recompensas. Essa tensão é a alma do jogo.

Esse tipo de decisão coloca Saros bem acima de uma experiência puramente reativa. Bons roguelites vivem de escolhas significativas, não apenas de reflexos e runs eternas. Quando um sistema nos faz pesar risco, recompensa e capacidade de sobrevivência, criando um envolvimento espetacular. Com este evento astronômico, Saros traz um diferencial interessante em sua jogabilidade.

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A cada eclipse, a coisa fica mais feia. (Imagem: Divulgação)

Chefes trazem camada extra de dificuldade

Saros mira em uma escala ainda maior quando falamos de boss battle. Os chefes são bem intensos. Quando você pensa que os derrotou, ele muda de formato… tipo, muitas vezes. As batalhas são altamente desafiadoras, com os chefões utilizando-se de padrões de ataque bem diferenciados. Precisamos ficar de olho em cada detalhe para não acabar ficando agarrado no mesmo lugar. Felizmente, com os aprimoramentos fixos, a coisa vai ficando um pouco mais tranquila. Mas bem pouco, ok?

Esse é um elemento decisivo para jogos desse tipo. Um bom chefe não deve ser apenas um inimigo com muita vida. Ele precisa testar tudo o que aprendemos, exigir leitura de padrões, punir descuidos e criar momentos memoráveis; seja pela glória ou pela dor. Saros consegue equilibrar espetáculo e precisão. Desta maneira, suas batalhas principais são um bom destaque, sobretudo para quem gosta de desafios intensos.

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Os chefes trazem verdadeiros desafios. (Imagem: Divulgação)

Aspectos audiovisuais aprofundam a imersão

Visualmente, Saros é impressionante, algo ainda mais perceptível no PlayStation 5 Pro. Os gráficos são maravilhosos, dando mais profundidade a diversos de seus aspectos sombrios como Carcosa, os personagens e criaturas. Além disso, a presença constante do eclipse dá unidade ao conjunto e cria imagens de grande força. Com isso, a direção artística mostra que horror cósmico não depende apenas de monstros, mas nasce da escala, do desconhecido, da sensação de que o mundo obedece a regras que o jogador ainda não compreende.

O som também deve tem seu papel essencial. Em jogos de ação intensa, áudio não é apenas ambientação. Ele ajuda a ler ameaças, perceber inimigos, identificar ataques e antecipar perigo, algo que Saros faz muito bem. A trilha sonora de fundo alterna momentos de contemplação sombria com explosões de tensão durante os combates, nos dando uma sensação de tensão constante.

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A ambientação de Saros é simplesmente belíssima. (Imagem: Divulgação)

Saros e Returnal: uma comparação que surge

Como disse no início desta análise, muitos jogadores irão comparar Saros com Returnal. Bem, isso é inevitável. Os dois jogos compartilham muitas coisas, talvez pelo DNA da Housemarque. Ambos são ficção científica sombria, apresentam estilo de combate em terceira pessoa, bullet hell, progressão por tentativas, narrativa fragmentada e atmosfera opressiva. Até aí, tudo bem.

Porém, Saros não está interessado em repetir o impacto de Returnal. Como um novo jogo, a impressão que fica é que ele está mais preocupado em refinar as ideias. A maior diferença parece estar no equilíbrio entre punição e permanência. Returnal era mais seco, mais cruel e mais dependente das nossas habilidades a cada nova tentativa. Saros, por outro lado, valoriza uma construção mais constante, ritmada e com possibilidade de desenvolvimentos fixos. A morte ainda importa, obviamente, mas deixa rastros mais claros de progresso a cada run.

Outra diferença entre ambos os jogos da Housemarque está na própria escala narrativa. Returnal é profundo, mas com um foco psicológico individual. Já Saros, mesmo se aprofundando no protagonista, também trabalha com um universo mais amplo, envolvendo colonização, corporações, recursos, expedições perdidas e transformação planetária.

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As criaturas do jogo se destacam bastante. (Imagem: Divulgação)

O que pude perceber nessa possibilidade natural de comparação não é algo difícil de se entender: é claro que Saros bebe da mesma fonte que Returnal. Não digo isso apenas pela desenvolvedora ser a mesma, mas pela própria tensão trazida em ambos. Porém, preciso ressaltar também que Saros não parte do zero. Ele parte de uma base mecânica exitosa e a torna em uma experiência mais refinada, mais flexível e mais convidativa para os jogadores.

Vale a pena jogar Saros?

Honestamente, eu que não sou o maior fã de rogulite, acabei encantado por Saros. O jogo tem potencial para se tornar um dos melhores lançamentos da Sony em 2026. A Housemarque parece ter entendido perfeitamente quais elementos fizeram Returnal conquistar tantos jogadores, expandindo totalmente as ideias em Saros de maneira mais inteligente, acessível e ambiciosa.

O grande mérito de Saros está justamente no equilíbrio. O jogo preserva a intensidade dos combates, a atmosfera opressiva e a sensação constante de perigo, mas adiciona sistemas que tornam a progressão mais recompensadora e um pouco menos frustrante. A morte deixa de ser apenas punição e passa a funcionar como parte natural de nossa evolução, algo que fortalece o loop de gameplay sem comprometer o desafio.

Além disso, a combinação entre narrativa fragmentada, ambientação cósmica, combate refinado e mecânicas como o eclipse e o escudo energético criam uma identidade muito forte e imersiva. Existe uma sensação constante de descoberta, tanto em relação ao mundo quanto às possibilidades de gameplay, e isso faz com que cada nova run nunca seja igual ou irrelevante. Aqui, há progresso.

Tecnicamente, Saros também demonstra um cuidado impressionante. A direção artística chama atenção pela personalidade, o uso do DualSense parece elevar ainda mais a imersão e o ritmo das batalhas reforça aquilo que a Housemarque faz de melhor: transformar caos em algo incrivelmente satisfatório de jogar.

Saros tem tudo para se tornar mais do que um sucessor espiritual de Returnal, sendo uma evolução clara da fórmula criada pelo estúdio, mas com uma roupagem totalmente nova. Para fãs de ação intensa, ficção científica sombria e experiências que misturam habilidade, tensão e progressão inteligente, a resposta parece bastante clara: vale muito a pena se arriscar em Saros, explorando todos os cantos de Carcosa.

*Review elaborada em um PlayStation 5, com código fornecido pela Sony.

Saros

R$ 399,90
8.8

História

8.6/10

Jogabilidade

9.0/10

Gráficos e sons

9.5/10

Extras

8.0/10

Prós

  • Totalmente localizado para o português brasileiro
  • Combate extremamente fluido, intenso e satisfatório
  • Mobilidade refinada, com movimentação rápida e responsiva
  • Progressão mais acessível e menos frustrante que Returnal
  • Excelente sensação de evolução a cada run

Contras

  • Ritmo narrativo fica lento em determinados momentos
  • Grande quantidade de sistemas e informações pode assustar jogadores iniciantes
  • O excesso de estímulos visuais em certas batalhas pode confundir

Álvaro Saluan

Completamente apaixonado por videogames, escreve e pesquisa sobre o tema há uns bons anos. Vê os jogos para além do entretenimento, considerando todo o processo como uma grande e diversificada arte. Vai dos jogos de esporte aos RPGs tranquilamente, admirando cada experiência. Seu maior ídolo dos jogos é Hideo Kojima.